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09 July 2013 12h26

Augusto Mateus: "A relação com os lóbis tem-se tornado mais complexa"

Augusto Mateus, Ministro da Economia do primeiro governo de António Guterres.
 
 
 Porque é que os ministros da Economia estão sempre na linha da frente nas remodelações? 
Cada caso é um caso e há muita diversidade. Mas basicamente a crise portuguesa é, em grande parte, uma crise de competitividade. Desse ponto de vista, quando as experiências governativas começam a atravessar dificuldades é normal que as áreas tuteladas pelo ministro da Economia surjam como áreas problema. Tendem a ser aquelas que mais reflectem os erros da governação. Depois, porque há uma enorme incapacidade de governar centrado no que devem ser as soluções de médio/longo prazo. Como se procuram soluções milagrosas para o curto prazo, há sempre uma leitura errada do que está a acontecer na economia. Deve-se apostar em medidas de investimento e não de resultados imediatos.
 
 Quais devem ser as áreas estratégicas em que o próximo ministro da Economia deve apostar? 
Uma delas é o investimento empresarial e as condições para que exista, seja ele nacional ou estrangeiro. Há ainda a capitalização das PME. Falamos do financiamento da actividade económica, mas numa lógica de investimento e não de sobrevivência. A grande função do ministro da Economia é dar vida a políticas públicas que fomentem a iniciativa empresarial. E isso tem que haver com a orientação das políticas de investimento para as áreas do conhecimento, criatividade e valorização dos recursos endógenos. A outra passa pela internacionalização da economia portuguesa, com a aposta nas exportações e no valor acrescentado. As duas grandes prioridades são estas. Há que criar condições para que estas políticas possam durar mais do que uma legislatura.
 
 Qual foi o lóbi mais poderoso que enfrentou? Os grupos de pressão têm mais força agora ou na sua época? 
Os lóbis têm tanto mais poder quanto não existam políticas públicas. Fazem parte da democracia e é natural que os interesses privados defendam os seus pontos de vista, uns de forma mais transparente e outros de forma menos transparente. A forma de enfrentar lóbis é formular boas políticas e levá-las à prática. Se tiver o interesse geral bem defendido e uma forma de o defender, enfrenta-se qualquer lóbi. A relação com os lóbis tem-se tornado mais complexa, porque a dimensão da crise tem retirado força económica aos interesses privados. À medida que a economia portuguesa tem menos sucesso no mercado globalizado, a tendência dos lóbis é virarem-se para o mercado doméstico, e encontrar aí rentabilidade e protecção do mercado.