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30 May 2013 14h48

Ricardo Cabral: "Esta situação faz lembrar a parábola sobre o Rei que vai nu"

Ricardo Cabral é professor da Universidade da Madeira e tem-se destacado entre os economistas portugueses pelas suas análise à crise nacional e europeia. É uma voz crítica da estratégia que vem sendo seguida, argumentando que as políticas adoptadas não respondem às causas mais profundas dos problemas europeus que, defende, residem na acumulação de grandes desequilíbrios macroeconómicos entre Norte e Sul – e não num problema de indisciplina orçamental. Cabral olha com cepticismo para a tónica que os líderes europeus vêm colocando sobre a confiança quando explicam o adiamento da retoma na Europa.Como vê o enfoque que tem vindo a ser colocado pelos políticos europeus na importância da confiança para a recuperação?Parece-me que a história que está a ser contada assenta na ideia de que temos de recuperar a confiança e a credibilidade e que isso resolverá os problemas que vivemos. No fundo é quase como se as variáveis reais não interessassem -  mas isso não é verdade.Mas a que se deve o enfoque especial na confiança?A política europeia assentou numa visão clássica de que recuperando a confiança e a credibilidade dos mercados, a taxa de juro cairia, e que logo o investimento e o crescimento recuperariam. O paradoxo que os líderes europeus enfrentam agora é que, em certa medida, os juros baixaram mas o investimento e a recuperação não chegaram. E daí apontaram para a confiança,Mas a confiança é um elemento importante na actividade económica?Sem dúvida, mas as aparências não chegam. É preciso admitir que há qualquer coisa de errado nos fundamentais. O problema é uma má resposta da política económica. Esta situação faz lembrar a parábola de Hans Christian Andersen sobre o Rei que vai nu pela rua [convencido pelo seu alfaiate de que leva as mais belas roupas mas que estas são apenas visíveis para os mais inteligentes]  e todos repetem isso até que uma criança diz: o Rei vai nú.Quais os riscos desta situação?O risco de estarmos a adoptar política erradas que não respondem aos problemas fundamentais. Penso que é isso que está acontecer.Quais são então os problemas fundamentais da economia?    O problema central na Europa e com impacto em Portugal são os desequilíbrios macroeconómicos e os efeitos assimétricos que daí resultam. Não é possível competir quando um empresário em Portugal, com um mesmo projecto, enfrenta dificuldades maiores que na Alemanha. Como é que se tem confiança assim? A Europa corre o risco de estar a tentar fazer o impossível.O impossível como?Neste momento o Estado português está a cobrar cada vez mais impostos para pagar dívida externa. E a banca tem de retirar também elevados rendimentos de juros para pagar dívida externa. A partir de determinado peso, este o objectivo de tirar rendimentos na economia interna para pagar responsabilidades externas não é possível.É isso que se passa em Portugal?Creio que sim. Há empresas que conseguiriam resistir a um choque económico que era inevitável. Mas claro que não conseguem resistir ao um “tsunami” que resulta, por exemplo, de o Governo cortar de um momento para o investimento público ou de aumentar drasticamente os impostos. Quando pagamos 5% do PIB – no ano passado um pouco menos – em rendimentos ao exterior e i tentamos fazer sem o apoio de quaisquer outras políticas toda a economia interna fica sob enorme tensão.  Outras políticas seriam a renegociação da dívida?Eu defendo essa renegociação, mas há outros instrumentos que podem ser usados, nomeadamente através da política fiscal de forma a favorecer os custos das exportações face aos das importações. É muito importante centrar toda a política económica a tentar resolver este problema dos desequilíbrios. Com juros altos e falta de liquidez e com falta de procura o ajustamento não vai funcionar. É importante perceber que esta é, acima de tudo, uma crise de balança de pagamentos e não de indisciplina orçamental.Falamos muitas vezes de confiança e de credibilidade como se fossem a mesma coisa. Há também um problema de credibilidade?Sim, creio sim. As instituições europeias beneficiaram de uma credibilidade que não mereciam e creio que isso está a ser gradualmente reconhecido. Houve muita incompetência, “gaffes”, e problemas que afectaram a credibilidade. Isso é evidente por exemplo nas críticas que se ouvem hoje no Parlamento Europeu e que não se ouviam antes; mas é também evidente na desconfiança que se gerou em relação aos depósitos do sector bancário. Por cá o próprio ministro das Finanças que vinha com uma aura de credibilidade está  a sofrer esse efeito.