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30 May 2013 14h47

Ricardo Reis: "Há muita incerteza sobre como se vai resolver a crise europeia"

Ricardo Reis, professor na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, tem criticado a estratégia europeia por não tratar com rapidez dos problemas de excesso de endividamento, nomeadamente o elevado endividamento público e as suas implicações na confiança em torno da dívida pública na Europa. Foi um dos promotores de uma proposta de criação de um instrumento financeiro que permitia a emissão comum de dívida na Zona Euro, um caminho que muitos consideram inevitável. Ricardo Reis vê nas declarações dos responsáveis europeus sobre a falta de confiança na Europa como uma assumpção dos seus erros.Por que canais é que a confiança afecta a actividade económica?Há dois canais evidentes que podem ser facilmente reconhecidos em Portugal. Um é a confiança do credor no devedor, a qual reduz o custo do financiamento. Um segundo canal é o do investimento: uma empresa quando investe precisa de ter segurança sobre o futuro.; precisa de ter expectativas sobre a procura. Como se forma e qual poder da confiança?Por outro lado, é verdade que a credibilidade das promessas e das políticas adoptadas podem ter um efeito real e visível sobre a actividade económica. Mas por outro lado, para influenciar as expectativas e criar confiança é essencial criar uma realidade em que estas possam assentar. Isto é, penso que hoje em dia nenhum decisor de política acredita que basta fazer discursos e utilizar a retórica para gerar essa dinâmica. Os fundamentais são importantes. Como explica a ideia, defendida por várias das instituições europeias, de que a crise europeia se prolonga por falta de confiança?Creio que é exactamente pelo que disse antes. É verdade que falta confiança e isso resulta de não terem sido criadas as condições que fundamentem melhores expectativas e confiança. Há muita incerteza sobre como se vai resolver a crise europeia, em especial a elevada dívida acumulada por alguns países que poderá necessitar de reestruturações. Mario Draghi tem referido várias vezes a falta de confiança como um dos problemas a resolver. Porquê?Eu vejo as afirmações de Mario Draghi como uma autocrítica em relação à gestão da crise europeia. As declarações do presidente do BCE têm também uma outra dimensão – de facto, no mercado de dívida soberana, as palavras ainda contam para alguma coisa. Seja através do esclarecimento das políticas ou da promoção da coordenação das expectativas dos investidores. Draghi tem usado isso.O que falha então na estratégia europeia?O facto de não existir uma estratégia clara. Ao fim destes anos parece haver consenso sobre as instituições necessárias, nomeadamente a união bancária e a coordenação e disciplina orçamental. Parece também haver algum consenso sobre a importância e o impacto, pelo menos no curto prazo, de uma presença mais arrojada do BCE. Onde tudo está pouco claro é como vai ser resolvido o enorme endividamento de algumas das suas regiões que muito consideram que precisarão de reestruturações e de falências.Essa não é a estratégia escolhida...Pois, a estratégia seguida é a de aplicação de receitas de austeridade por muitos anos até que esses países consigam limpar as suas contas. Isto tem algumas probabilidades de sucesso, mas o que me preocupa é a forma como as perdas e os esforços serão repartidos.Como assim?Perante um problema de excesso de crédito e dívida a estratégia adoptada está assentar em ter os europeus do sul a pagar a totalidade das dívidas. Questiono-me, e nem sequer é em termos de equidade, mas sim de eficiência, se essa é a melhor solução, pois arrasta durante anos um problema que tinha vantagens em ser resolvido rapidamente.Qual a probabilidade de sucesso desta estratégia?Visto que há ajustamentos constantes e que poderão continuar quase indefinidamente diria que são relativamente altas. Embora com custos económicos e sociais.