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10 maio 2013 15h04

A morrer "não seria num autocarro em Angola"

Neste livro, Theroux viaja pela África do Sul, Botswana, Namíbia e Angola. E a estação de comboios em Luanda, capital de Angola, é precisamente a última paragem da sua odisseia literária pelo continente africano com o qual tomou contacto pela primeira vez há 50 anos, na qualidade de voluntário do Corpo de Paz.
 
Theroux, nascido em Medford, Massachusetts, Estados Unidos, tem uma prolífera obra literária. Entre os títulos traduzidos para português contam-se “Viagem por África”, “O Velho Expresso da Patagónia” e “A Arte da Viagem”. “Quando cheguei ao meu destino, em Angola, pensei que realmente não há muito valor no sofrimento se não estivermos a aprender qualquer coisa. Por isso, conclui que este seria o fim da linha. Estarei sempre a viajar em África, mas acho que já escrevi tudo o que possa ser útil”, explica o escritor na referida entrevista à Reuters.
 
Três das pessoas sobre as quais escreveu neste livro morreram recentemente. Um facto que fez Paul Theroux questionar-se sobre se valia a pena arriscar a vida pelo que estava a fazer. Conclusão do próprio: “Morrer a fazer o que eu amo seria estar numa praia do Havai a beber um Mai Tai, estando deslumbrado por uma onda. Aí eu estaria a fazer o que amo, com a minha mulher, a tomar uma simples medida. Não seria num autocarro em Angola.”
 
Theroux sustenta que apesar do acesso aparentemente fácil a toda a informação, obtido através de meios tecnológicos, os escritores de viagens não são descartáveis nem supérfluos. Pelo contrário. “São mais necessários do que nunca, porque a Internet faz com que as pessoas pensam que podem apenas sentar-se em casa e ficar a saber de tudo. Mas eles não percebem como o mundo realmente. O quão pobre é, as maravilhas que existem noutros lugares, o quanto há para descobrir.”
 
O escritor afirma ter um prazer “indescritível “em andar de comboio e revela algumas das suas peculiaridades quando se prepara para uma viagem. “Tento ler o mais possível sobre um lugar, não necessariamente antes de ir, mas depois. Quero fazer descobertas por mim.  Não faço listas de pessoas que quero encontrar. Prefiro ficar no hotel mais simples. Não gosto da obrigação social de ficar a falar com as pessoas que me são impostas.”  Viajar por determinadas estradas, em África, pode parecer um acto de coragem, mas a verdade é que os locais as usam na sua rotina diária. A esta constatação, da Reuters, Theroux responde de forma desconcertante: “Eles sabem por onde vão. Eu dirijo-me para um lugar que vou ter de descobrir.”