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03 junho 2013 12h15

César das Neves: "Só pode ser patética uma época que tanto abusa do dinheiro alheio"

“Uma das características mais bizarras do nosso tempo é a quantidade de pessoas que vive e dispõe do dinheiro dos outros”, escreve João César das Neves, professor de Economia da Universidade Católica, ao lembrar que a raiz desse fenómeno está no crescimento das despesas públicas que passaram de 5% do PIB no século XIX para mais de 50% em 2010, tendo a austeridade da troika reduzido esse valor para 45%. Conclusão: “Quando o Orçamento do Estado lida com cerca de metade do que o país tem, há mesmo muita gente a viver de dinheiro alheio”.
 
E isso provoca vários efeitos perversos, a começar pela “indefinição”. “Um padeiro sabe que o que recebe depende do que produz. Mas o funcionário, reformado, sindicalista, subsidiado, não tem noção do seu real valor. Os montantes acabam determinados por conceitos abstractos, como justiça ou necessidade, progresso ou interesse. Isso permite subir muito as verbas, como aconteceu por cá até 2011, ou cortar imenso, como desde então”, escreve no seu artigo semanal no Diário de Notícias.
 
“A facilidade com que se gasta o dinheiro alheio” é outro problema. “Note-se a displicência com que ministros e autarcas se apropriam dos montantes orçamentados e fundos estruturais, que não lhes custam a ganhar. Um médico de um grande hospital, mesmo privado, receita exames e tratamentos que omitiria se ele ou o doente tivessem de pagar a conta. Em certos casos essa facilidade torna-se uma verdadeira toxidependência”, refere.
 
O professor de economia considera, porém, que “o aspecto mais curioso são as razões que levam pessoas honestas e bem intencionadas a despender com vigor o que não é seu”, acreditando que “as verbas públicas vêm de ricos” e/ou que se não forem gastas por si outros departamentos as irão desperdiçar, “o que equivale ao mesmo: o dinheiro não faz falta aos outros”. Em qualquer caso, reflecte, “só pode ser patética uma época que tanto abusa do dinheiro alheio”.