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19 abril 2013 21h45

Fernanda Ilhéu: Sustentabilidade de exportações para a China depende da AutoEuropa

Falando à Lusa à margem da conferência "500 anos de Relações Luso-Chinesas", na Fundação Oriente, a analista e ex-presidente da Câmara de Comércio Luso-Chinesa, durante mais de uma década, referiu que as exportações para a China têm rondado os 300 milhões de euros, e que por detrás do aumento para 700 milhões em 2012 está a venda de automóveis Volkswagen.
 
"Se vamos manter ou não depende muito da Autoeuropa. Pode ser sustentada algum tempo, mas só a Autoeuropa sabe", disse à Lusa a professora do Instituto Superior de Economia e Gestão.
 
Para Fernanda Ilhéu, Macau não tem funcionado como "porta de entrada" de empresas portuguesas para a China, conforme se pretendeu nas últimas décadas, mas para o gigante asiático "desenvolver a sua rede de negócios com os países de língua portuguesa". "Hoje em dia fazemos muito mais negócio directamente com a China, sem passar por Macau. Agora é notório porque os valores de exportação para Macau e para a China são completamente díspares", adiantou.
 
Para Fernanda Ilhéu, tem faltado às empresas portuguesas um "grau de internacionalização e maturidade que só agora é que estão a atingir" e a Macau "um 'cluster' de serviços suficientemente forte" e empresas em áreas de 'trading' ou imobiliário para servir de porta de entrada para o competitivo mercado chinês.
 
Falta "uma sinergia de negócios que Macau não tem com a China. Hong Kong tem um centro financeiro muito mais forte, com muito mais informação", disse à Lusa.
 
Para a professora universitária e consultora, os investimentos chineses em Portugal têm tendência a crescer, à medida que os chineses "vão conhecendo mais do país e vendo como podem usar na sua própria internacionalização para Europa e, sobretudo, países de língua portuguesa, além de alguns dos sectores tecnológicos portugueses de valor acrescentado.
 
O investimento acontecerá "não nos produtos tradicionais ou bens de consumo, mas de facto na área tecnológica, aí [os investidores chineses] estão mais interessados em saber como se podem posicionar", nomeadamente nas tecnologias de informação, energia ou biotecnologia, adiantou.
 
A conferência na Fundação Oriente contou ainda com a participação de Moisés da Silva Fernandes, que falou sobre o futuro da língua portuguesa de norma brasileira nos Institutos Confúcio dos países lusófonos, de João de Deus Ramos, que abriu a embaixada portuguesa em Pequim em 1979, cujo tema foi a Declaração Conjunta sobre Macau, e do jornalista e investigador Fernando Correia Oliveira, que enquadrou historicamente as relações bilaterais.
 
Sobre o papel de Macau como plataforma chinesa para o espaço lusófono, Cármen Amado Mendes, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, afirmou que tem sido estratégia da administração central e da sociedade civil "promover e acarinhar o conceito da lusofonia", com fins "identitários e políticos".
 
Ao contrário de outras regiões chinesas, a região administrativa de Macau possui "elevado grau de autonomia na política externa" e o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa é hoje "quase uma organização internacional", o "culminar do papel atribuído a Macau de ligação ao mundo lusófono", afirmou.
 
A conferência inseriu-se no ciclo de eventos do Museu Oriente a propósito dos 500 anos da chegada dos portugueses à China.