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01 julho 2013 17h00

Pode o Governo sobreviver sem Vítor Gaspar?

(Notícia publicada, pela primeira vez, a 5 de Junho no âmbito de um balanço dos dois anos do Governo de Passos Coelho. Na altura já se especulava sobre a saída do ministro)
 
Uma imagem de credibilidade e confiança para os credores, mas de austeridade e sacrifícios para os portugueses. Concorde-se ou não com as suas opções, Vítor Gaspar tem sido a principal cara do Governo para consumo interno e externo. Dois anos depois das eleições e numa altura de mudança do discurso do Executivo em que se acumulam as vozes que pedem a demissão do ministro das Finanças, emerge a pergunta: pode este Governo sobreviver à saída de Gaspar?A 5 de Junho de 2011, os portugueses escolheram Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro. Vítor Gaspar – como o próprio lembrou há pouco mais de um mês aos deputados – não foi "eleito coisíssima nenhuma". Ainda assim, é nele que têm sido centradas as críticas ao Executivo. Apesar de não ser inédito que um ministro das Finanças ganhe mais peso em períodos de crise económica, a anterior passagem de Gaspar pelo BCE, a sua proximidade a Berlim e o seu alinhamento com os objectivos do programa de ajustamento criaram condições para alcançar um protagonismo maior do que anteriores detentores da pasta. "Logo no Verão de 2011, numa entrevista à TVI, Gaspar descartou totalmente o programa eleitoral de Passos e do PSD, dizendo que o discurso das ‘gorduras do Estado’ não fazia sentido e, pouco mais tarde, introduzindo a expressão ‘desvio colossal’", lembra o sociólogo Pedro Adão e Silva ao Negócios. "Passos estava pouco preparado, enquanto Gaspar, concorde-se ou não, tinha bases muito mais sólidas. Foi uma capitulação completa ao ministro das Finanças."Para um Governo apostado em concentrar os seus esforços na recuperação da credibilidade externa, colocar Gaspar na linha da frente parece ter sido útil no relacionamento com a troika. O ministro das Finanças é respeitado em Bruxelas, Washington e Frankfurt e suscita palavras simpáticas de Berlim. "Quando na Alemanha abordamos as políticas de combate à chamada crise europeia falamos sempre da história de sucesso de Portugal", sublinhou Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, num encontro com Gaspar ainda há duas semanas.Para João Rodrigues, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, "a troika e a intervenção externa estão a prolongar o tempo de vida de Gaspar no Governo". "Noutras circunstâncias, não se teria aguentado dois meses", argumenta. Um sentimento resumido por Luís Mira Amaral numa recente entrevista ao "Diário Económico": "Se a Alemanha gosta de Gaspar, também temos de gostar".Contudo, um conjunto de factores começam a ganhar destaque face à necessidade de uma relação privilegiada com os credores oficiais. A retoma que se esperava para este ano foi adiada, o desemprego continua a crescer, a correcção do défice está a ser mais lenta, a relação com o CDS e Paulo Portas mais difícil e, talvez mais importante, as eleições autárquicas estão a aproximar-se. Nas últimas semanas, várias personalidades próximas da maioria têm optado por canalizar as críticas ao Executivo para a figura de Vítor Gaspar. A última foi o antigo líder do PSD Marcelo Rebelo de Sousa que, no seu comentário semanal na TVI, disse que Gaspar era "bastante inútil" ao Governo. Semanas antes, Carlos Abreu Amorim, vice-presidente da bancada parlamentar do PSD e candidato do partido à Câmara de Gaia, fez títulos nos jornais dizendo que "o tempo político de Vítor Gaspar terminou" e, em entrevista ao "Diário Económico", António Bagão Félix, antigo ministro das Finanças, frisou que "o papel de Vítor Gaspar está esgotado". O problema é que demitir agora Gaspar é como afastar um general em plena guerra. Além dos custos potenciais na relação com a troika, seria dar o flanco à oposição e revelar fragilidades dentro do Governo. "Em qualquer processo de ajustamento, o ministro das Finanças tende a tornar-se no bode expiatório. Há que desdramatizar", refere ao Negócios, Eduardo Catroga, que também já deteve a pasta das Finanças. "Se [a demissão] acontecesse com uma cedência a esses lóbis, seria um mau sinal para o País e o fim da nossa credibilidade externa."Miguel Beleza, outro antigo ministro das Finanças de Cavaco Silva, acha que a vida do Governo pós-Gaspar será muito complexa. "Ele tem feito um excelente trabalho e não será fácil continuar sem ele. Nalguns casos, Gaspar representa mais o Governo do que o próprio Passos Coelho." Uma opinião partilhada por Adão e Silva. "A narrativa do Governo é a narrativa de Vítor Gaspar. Não vejo como é que Passos conseguiria fazer essa cambalhota e, de repente, começar a dizer coisas diferentes." Para já, Passos Coelho não dá sinais de querer atirar Vítor Gaspar borda fora. No entanto, se a tempestade continuar a agravar-se o barco pode ser frágil demais para os dois.
 
  Os pontos fortes e fracos de Vítor Gaspar Pontos fortes
 
Relação com a troika e com Berlim
É a grande mais-valia que Gaspar traz a este Governo. A sua passagem anterior pelo BCE, a reputação junto das outras instituições internacionais e o compromisso no cumprimento dos objectivos do ajustamento conferem-lhe uma posição privilegiada na negociação com os credores portugueses. Além disso, a relação com Berlim tem-se revelado bastante estreita, um trunfo importante no actual contexto.
 
Capacidade técnica
No combate político, Gaspar é muito difícil de bater nos tópicos mais técnicos. Poucos deputados rivalizam com os seus conhecimentos de teoria económica. Mesmo os seus críticos lhe reconhecem essa qualidade. 
 
Acredita no programa
O seu alinhamento ideológico com o programa de ajustamento facilita a defesa da política seguida e garante uma maior coerência ao seu discurso.  
 
 
Pontos fracos
 
Identificação com austeridade
O ministro das Finanças tem sido a cara da austeridade em Portugal, mais até do que o primeiro-ministro. Essa identificação, em conjunto com o estilo seco e pouca empatia pode ser um ponto contra. 
 
Capacidade política
Vítor Gaspar é visto como um técnico competente, mas não propriamente um político hábil. A falta de capacidade de negociação política deste Governo com a troika tem sido um crítica recorrente, mesmo dentro da maioria (principalmente o CDS).
 
Acredita no pro