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14 junho 2013 19h58

Primeiro-ministro turco recua e suspende construção de centro comercial no parque Gezi

E ao 17º dia, Recep Tayyip Erdogan recuou. Depois de duas semanas e meia de protestos, o chefe do governo turco viu-se forçado a ceder e disse que irá investigar as queixas de violência excessiva exercida pela polícia contra os manifestantes. Mas fez saber também que irá investigar os médicos que prestaram assistência aos feridos durante as demonstrações.
 
Recorde-se, antes de mais, como tudo começou: no passado dia 29 de Maio alguns milhares de turcos acamparam no parque Gezi, adjacente à Praça Taksim, para evitar que no dia seguinte fossem abatidas todas as árvores centenárias para ser construído um centro comercial. Na quinta-feira de manhã, apenas algumas árvores caíram. Os bulldozers viam-se impedidos de levar a cabo a operação, dada a concentração de cerca de 10.000 pessoas junto às árvores. A polícia actuou. Canhões de água, gás lacrimogéneo e gás pimenta. Mas a repressão teve o efeito contrário ao desejado por Erdogan. Indignadas, cada vez mais pessoas se juntaram, dia após dia, naquele local e noutros pontos de Istambul, bem como em muitas outras cidades turcas.
 
Nos primeiros 16 dias, Erdogan manteve-se firme na intenção de avançar com o centro comercial. Mas os manifestantes não retrocederam e tornaram bem claro que o protesto já não tinha apenas a ver com árvores. “O povo turco combate neste momento o regime autoritário pró-islâmico de Erdogan”, acusava Ayse (nome fictício) em declarações ao Negócios. “O primeiro-ministro não tolera o modo de vida dos laicos, como poder beber álcool e ter sexo sem estar casado; ele pensa que todos os laicos da Turquia são alcoólicos e tendentes à luxúria; ele acha que ser gay ou lésbica é uma doença que tem de ser curada; (…) é um grande ditador que silencia todo o tipo de vozes, excepto a sua”. “É isso que combatemos!”.
 
Perante a escalada de violência policial, o não recuo dos manifestantes e as críticas da União Europeia, num cenário que deverá ter consequências para o partido no poder (AKP) já nas eleições autárquicas de Outubro próximo, Erdogan – que está no seu terceiro mandato à frente do governo turco – acabou hoje por concordar em chegar a um compromisso. “O governo vai ‘congelar’ os planos de construção até que um tribunal se pronuncie sobre as objecções dos manifestantes acampados no parque Gezi”, declarou um responsável do Executivo de Erdogan, citado pela CNN.
 
O vice-presidente do AKP, Huseyin Celik, confirmou, sublinhando que mais nenhuma árvore será derrubada no parque Gezi até haver decisão do tribunal. Pelo meio, haverá um plebiscito, destinado a auscultar a opinião dos residentes de Istambul sobre o que querem e o que não querem, afirmou, citado pela CNN. “O nosso governo irá, sem qualquer dúvida, pôr em prática a decisão do povo de Istambul”, prometeu.
 
Recorde-se que na primeira semana de tumultos, muitos dos próprios turcos não sabiam o que se passava, já que os incidentes não estavam a ter cobertura por parte dos media nacionais.  Isabel (nome fictício), uma portuguesa regressada recentemente da Turquia, confirmava ao Negócios: “Acabei de falar com um colega que ainda está lá. Perguntou-me logo se era daquelas ‘manifs’ típicas de fim-de-semana em Taksim. Não deu por nada. Nem no trabalho comentam”.
 
Mas hoje, o mesmo colega de Isabel tem um discurso diferente:  “Aqui o ambiente não está para brincadeiras. (…) Há viagens marcadas todos os dias, de manhã e à noite, para todos nós voltarmos de emergência. E temos de andar sempre com documentos e ‘cenas’ de valor para o caso de evacuação”.
 
Já não há quem desconheça o que se passa na Turquia. A “meia dúzia de vadios”, como Erdogan chamou aos primeiros manifestantes, cresceu para dezenas de milhares de descontentes com o seu governo. No rescaldo, até ao momento, contam-se quatro mortos.