A ascensão da SAP a empresa mais valiosa da Europa
A semana arrancou com uma notícia de peso para a tecnológica alemã SAP: a ascensão ao trono de empresa mais valiosa da Europa, ofuscando o valor em bolsa da dinamarquesa Novo Nordisk, a fabricante do Ozempic. No fecho da sessão de segunda, a SAP valia 312 mil milhões de euros, à frente dos 309 mil milhões de euros em bolsa da Novo Nordisk. A subida da SAP, conhecida pelo seu software de gestão, aconteceu à boleia da incerteza em relação à eficácia de um novo medicamento da Novo Nordisk para suceder ao Ozempic.
"A SAP está orgulhosa de ser reconhecida como a empresa mais valiosa da Europa , sublinhando o papel crítico da tecnologia em manter a Europa competitiva no palco global”, avançou um porta-voz da tecnológica à imprensa. "O nosso investimento contínuo em cloud , IA e inovação reflete o nosso compromisso em impulsionar a transformação digital e o crescimento de longo prazo para os negócios em todo o mundo.” A empresa não se alargou em mais comentários, já que iniciou justamente esta segunda-feira o quiet period , o período de silêncio, que vai vigorar até 22 de abril, quando vão ser divulgados os resultados do primeiro trimestre de 2025.
O título da SAP enquanto empresa mais valiosa da bolsa europeia foi reforçado esta terça-feira, já que continuou a subir, atingindo os 315,357 mil milhões de euros, segundo a Bloomberg. "Após alguns anos de incerteza, a confiança dos investidores em relação às perspetivas de crescimento da SAP está de volta”. É desta forma que Rob Hale, analista da Morningstar, comenta ao Observador a ascensão da tecnológica alemã, destacando ainda a "posição de líder” da SAP no software de gestão.
Nos últimos anos a SAP tem vindo a alterar o negócio para refletir uma aposta crescente nos mercados da computação cloud e da inteligência artificial (IA). João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, destaca a "confiança renovada dos investidores” justamente nesse tipo de modelo de negócio, em "áreas onde a empresa tem vindo a reforçar a sua posição global”.
"A forte procura por software de gestão integrado, o seu contributo na inteligência artificial bem como a sua gestão eficiente na cloud , a crescente digitalização das operações empresariais e a solidez dos resultados mais recentes têm alimentado esta trajetória ascendente”, contextualiza o analista. A juntar a isto, menciona outros fatores que poderão contribuir para o crescimento da empresa, como "o aumento da despesa federal e o investimento em defesa ”.
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"Ainda assim, a história mostra que liderar o mercado europeu em capitalização é um feito difícil de manter a longo prazo”, ressalva João Queiroz. "Empresas como a Nokia, a BP ou a Vodafone já estiveram nesse lugar cimeiro, mas acabaram por perder relevância com a mudança dos ciclos económicos e tecnológicos. O verdadeiro desafio para a SAP será, agora, não apenas manter esta liderança, mas consolidá-la num ambiente altamente competitivo e em constante transformação.”
Ainda que a SAP seja a tecnológica mais valiosa da Europa, a ordem de valores das congéneres de setor é de uma escala bem diferente do outro lado do Atlântico. As cinco maiores tecnológicas norte-americanas — Apple, Amazon, Alphabet, Microsoft e Meta — já pertencem ao clube das trillion dollar babies . A Apple tem um valor de mercado de 3,35 biliões de dólares (3,1 biliões de euros), a Amazon de 2,15 biliões de dólares (1,99 biliões de euros), a Alphabet de 2,08 biliões de dólares (1,92 biliões de euros), a Microsoft de 2,93 biliões de dólares (2,71 biliões de euros) e a Meta de 1,58 biliões de dólares (1,46 biliões de euros).
De uma equipa de cinco ex-IBM até uma multinacional de 109 mil funcionários
A SAP nasceu em abril de 1972, formada por uma equipa de cinco engenheiros alemães saídos da gigante IBM. Dietmar Hopp (84 anos), Hasso Plattner (81 anos), Claus Wellenreuther (95 anos), Klaus Tschira (1940-2015) e Hans-Werner Hector (85 anos) tinham um objetivo claro: desenvolver um software que conseguisse integrar processos de negócio e permitir o acesso a dados em tempo real.
Na realidade, o nome da empresa é uma sigla para o extenso nome em alemão — SystemAnalyse Programmentwicklung , que pode ser traduzido por desenvolvimento de programa de análise de sistemas. O grupo instalou-se na cidade de Weinheim, a cerca de 75 quilómetros de Frankfurt, hoje em dia o centro financeiro da Alemanha.
Começaram por especializar-se num software que juntava informação sobre materiais e contabilidade, numa altura em que os computadores eram muito diferentes. O "MIAS”, como ficou conhecido, é considerado o primeiro sucesso do quinteto de engenheiros. A subsidiária alemã da Imperial Chemical Industries foi o primeiro cliente da SAP. Um ano mais tarde, já com um sistema apenas para contabilidade, chamado RF, a tecnológica expandiu a lista de clientes: passou a fornecer serviços à Knoll Pharmaceuticals e à fabricante de mobiliário 3K.
A procura pelas soluções da empresa expandiu-se a muitas outras indústrias e, com o passar dos anos, a SAP desenvolveu sistemas de faturação, de gestão e de compras. E já não eram só as empresas alemãs interessadas — em 1975, a tecnológica instalou a primeira filial na Suíça. Seguiram-se anos de expansão, novas filiais e várias aquisições e, já quase no fim da década de 80, a entrada em bolsa, integrando os índices de Frankfurt e Estugarda.
Hoje em dia, a SAP é uma tecnológica bem diferente, ainda que continue focada em soluções tecnológicas empresariais . Aos ERP, juntaram-se outros negócios, como IA e a transição para a cloud . O que começou como uma pequena empresa transformou-se numa gigante europeia da tecnologia, presente em 157 países. No total, segundo dados disponibilizados pela empresa, a SAP tem mais de 109 mil funcionários.
Ao longo dos anos, os quatro fundadores vivos foram gradualmente afastando-se das atividades diárias da empresa. Porém , só no ano passado é que houve efetivamente o corte do cordão umbilical com o "fim de uma era” resultante do afastamento de Hasso Plattner, após 21 anos na qualidade de " chairman ” da SAP. O engenheiro alemão esteve 52 anos ligado à tecnológica que ajudou a fundar.
Atualmente, a tecnológica é liderada por Christian Klein, de 44 anos, o executivo mais jovem de sempre à frente de uma das principais empresas do índice bolsista alemão, o DAX. Klein foi nomeado para o cargo de co-CEO da SAP, dividindo funções com Jennifer Morgan. Está a solo no cargo desde abril de 2020. O executivo entrou na SAP em 1999, quando ainda era só um estudante. Ao longo dos anos foi subindo degraus na empresa, passando por funções como diretor de controlo financeiro ou diretor de operações.
A chegada a Portugal e um novo máximo atingido em 2024
São mais de três décadas em Portugal. Em 1991, a SAP conquistou o primeiro cliente, a Petrogal (uma das empresas do grupo Galp) e dois anos depois abriu o primeiro escritório no país, com apenas três funcionários. Um número muito distante daquele com que conta agora: são cerca de 820 os trabalhadores. Mesmo em anos em que a SAP anunciou despedimentos, como aquele que afetou cerca de três mil pessoas em 2023, a equipa em Portugal continuou a crescer.
"Fizemos um programa de alteração de funções e, no caso de Portugal, tivemos a sorte de conseguir realocar as pessoas. Acabámos por não ter ninguém a sair”, disse Nuno Saramago , diretor-geral da SAP Portugal, em entrevista ao Jornal de Negócios em 2023. Nesse ano, a empresa tinha 682 trabalhadores no país, número que aumentou para 785 em 2024 (e que entretanto também já subiu).
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"Temos aumentado à volta de 100 novos colaboradores por ano”, afirmou o responsável na mais recente entrevista ao mesmo jornal , publicada no início deste mês, adiantando que em 2025 essa centena de contratações deverá ser ultrapassada. "Já estou a olhar para os quatro dígitos”, revelou, ambicionando chegar aos mil trabalhadores.
Neste momento, a empresa continua a ter apenas um escritório em Portugal, em Porto Salvo, Oeiras. Mas conta também, desde 2012, com um centro internacional de serviços (para exportação para clientes na Europa, no Médio Oriente e em África e que tem "permitido reter muito talento” no país) e, desde 2021, com um centro de desenvolvimento tecnológico e de inovação (que se foca em engenharia de software e no desenvolvimento de produto). Esse hub foi, no final do ano passado, alargado para integrar uma nova equipa, que se dedica à inteligência artificial.
Na primeira entrevista que deu quando chegou ao cargo de diretor-geral da SAP Portugal, ao Dinheiro Vivo em 2023, Nuno Saramago avançou que um terceiro centro estava nos planos. "Queremos atrair um novo centro de desenvolvimento da SAP para Portugal. Temos em Portugal todas as áreas do conselho de administração da SAP, seja desenvolvimento de produto, seja de engenharia. Todas as áreas têm alguns trabalhadores em Portugal, mas um centro como o que estamos a falar é um investimento mais estratégico e estrutural. É preciso estabelecer uma equipa com gestores locais, que reporta internacionalmente. Queremos fazer isso”, indicou o gestor, acrescentando que a janela temporal para a concretização do projeto eram os "próximos dois, três anos”.
Este mês voltou a falar no projeto, que deverá arrancar com até 50 trabalhadores. O calendário aparenta continuar a ser o mesmo: "Com o crescimento acelerado de colaboradores, eventualmente conseguiremos no futuro ter um novo centro de desenvolvimento. Chamam-se SAP Labs. Mantemos a meta de 2025”.
Impulsionada pela inteligência artificial e pela transição de negócios para a área de cloud , a SAP Portugal registou um volume de negócios de 192 milhões de euros em 2024, um novo máximo e um valor que está cerca de 10% acima do registado no ano anterior. Metade (50%) da faturação é feita através de vendas ao estrangeiro, quer seja a outras unidades da SAP, quer seja a outros clientes. "Por exemplo, a BP e a BBC são projetos SAP. Muitas vezes são contratados recursos portugueses para fazer essas implementações, através da própria SAP nesses países ou através do cliente final”, disse Nuno Saramago.
Durante a conversa com o Jornal de Negócios, o gestor indicou também que a instabilidade mundial, com guerras comerciais e o regresso de Trump à Casa Branca, não afetava as operações: "Há instabilidade relativamente aos desenvolvimentos a que temos assistido nos Estados Unidos, a eventuais mudanças regulatórias, a conflitos em várias regiões que afetam grande parte dos nossos clientes devido a alterações nas cadeias de logística. Mas a instabilidade económica internacional não se tem mostrado uma dificuldade para o negócio da SAP.”
Para o futuro, o diretor-geral da SAP Portugal destacou a necessidade de a subsidiária se manter nos "10% a 12%” de crescimento em termos de volume de negócio, tal como aconteceu de 2023 para 2024.
Quais são as restantes mais valiosas na Europa?
A SAP alcançou um "marco histórico” ao tornar-se na empresa cotada mais valiosa da Europa. Um feito que, segundo João Queiroz, do Banco Carregosa, tem "particular significado não apenas pelo seu valor de mercado, mas também pela raridade com que uma empresa alemã ocupa o topo da capitalização bolsista europeia — algo que só aconteceu por duas vezes nas últimas décadas: com a Deutsche Telekom, no auge da bolha tecnológica em fevereiro de 2000, e com a Volkswagen em 2008?. Para chegar ao topo, a tecnológica alemã teve de ultrapassar a Novo Nordisk, farmacêutica dinamarquesa que criou o Ozempic , medicamento para a diabetes que começou a ser usado como tratamento para emagrecer.
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As ações da Novo Nordisk caíram 2% na segunda-feira (queda que continuou nesta terça-feira com uma desvalorização de 1,78%). Mas a queda da empresa, avaliada em 306,644 mil milhões de euros (segundo dados da Bloomberg), vinha a consolidar-se nos últimos meses. Segundo a Euronews , as ações perderam quase metade do seu valor desde o verão do ano passado. O recuo acontece numa altura em que a firma tem tido dificuldades em convencer os investidores da eficácia do possível sucessor do Ozempic e do Wegovy (outro dos seus produtos) para a perda de peso: o CagriSema.
Vítor Madeira, da XTB, destaca que o que levou a Novo Nordisk a ficar "aquém da performance dos mercados mundiais em 2025 foi a apresentação de resultados inferiores às expectativas” do CagriSema . Nos últimos testes que foram divulgados, a tecnológica não conseguiu alcançar a meta (que tinha estabelecido) de uma perda média de 25% do peso corporal dos pacientes, ficando-se pelos 15,7%. "Estes resultados fizeram com que a empresa registasse um abrandamento no entusiasmo dos investidores, mesmo com o forte desempenho dos seus medicamentos para perda de peso, como o Ozempic e o Wegovy, que tem motivado o crescimento da empresa até aqui”, explica o analista.
A LVMH também é uma presença frequente na lista de empresas mais valiosas da Europa. O conglomerado francês, dono de marcas de luxo como a Louis Vuitton e do grupo de bebidas Moët Hennessy, fechou a sessão desta terça-feira a valer 299,835 mil milhões de euros, ocupando o lugar de terceira cotada mais valiosa a nível europeu. Durante algum tempo, em janeiro, a empresa também roubou o título de cotada mais valiosa da Europa à farmacêutica Novo Nordisk. Porém, a desvalorização do mercado de bens de luxo penalizou as ações da empresa, levando-a novamente até à medalha de bronze das mais ricas das bolsas do velho continente.
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No topo das mais valiosas da Europa está ainda a ASML , fabricante de semicondutores sediada nos Países Baixos que fechou a sessão desta terça-feira a valer 265,718 mil milhões de euros. Foi há cerca de cinco meses que foi ultrapassada pela SAP. Em outubro, a empresa enfrentou uma queda de 16% nas ações depois de ter revisto em baixo as projeções de vendas para o ano. De acordo com a CNBC , o tombo nas ações levou a capitalização bolsista da empresa a cair 48,7 mil milhões de euros num único dia.
À semelhança da conterrânea dos bens de luxo LVMH, também a Hermès , outra das empresas mais valiosas da Europa, é cotada na bolsa de Paris. O grupo que fabrica as conhecidas carteiras de luxo Birkin tem um valor em bolsa de 264,979 mil milhões de euros.