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07 novembro 2025 02h50

A avalanche de parcerias de IA supera receios de uma bolha

Jornal de Negócios

As tecnológicas relacionadas com inteligência artificial estão em ebulição e o mercado está a mudar. Os investidores têm vindo a reagir de forma muito entusiasta a acordos estratégicos, mas têm mais dúvidas em discriminar os "vencidos" desta evolução tecnológica através dos resultados trimestrais.


Apesar de algumas sessões em que os investidores se afastaram das tecnológicas, um movimento pressionado pelos resultados positivos, mas abaixo do esperado, e receios de uma bolha na inteligência artificial (IA), os acordos entre empresas do setor estão a ser fortemente aplaudidos pelos investidores. Será este um sinal dos tempos ou da volatilidade?


João Lampreia, "country manager" da corretora Freedom24, opta pela primeira hipótese e sinaliza que os dois movimentos "podem coexistir [no mercado] tendo em conta o impacto profundo que a IA está a gerar". Assumindo que os ganhos de produtividade e de eficiência obtidos por esta nova tecnologia serão "alcançados de forma assimétrica, o mercado ainda tem dificuldade em separar os vencedores e os vencidos".


É por isso que "alguns dos


'players' que podem ficar para trás, - e que atualmente transacionam com avaliações excessivas-, podem ser alvo de pressão de venda algo indiscriminada quando o sentimento de mercado se deteriora", descreve. Por outro lado, "quando se verificam acordos entre 'players' importantes, o mercado interpreta com mais exuberância que estes poderão ser os vencedores do futuro na transformação que a IA irá propiciar".


Pedro Barata, gestor sénior de investimentos do GNB, alinha no segundo fator e acredita que as tecnológicas "estão na moda, as pessoas estão empolgadas e qualquer notícia é um catalisador para a ação". Alguns exemplos recentes são o acordo de 38 mil milhões de dólares entre a Amazon e a OpenAI, que vai permitir que a "startup" liderada por Sam Altman tenha acesso a centenas de milhares de processadores gráficos da Nvidia, aumentando a capacidade disponível à criadora do ChatGPT.


Fora das "sete magníficas" - Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta, Nvidia e Tesla - há também o exemplo da Snap, dona do Snapchat, que disparou mais de 15% em bolsa depois de ter anunciado um acordo de 400 milhões de dólares com a "startup" de IA Perplexity.


Além de ser um sinal de que estas empresas estão no "caminho certo", como descreve Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, "o comportamento dos investidores é fortemente influenciado pelo FOMO ("fear of missing out"), ou seja, o receio de ficar de fora de um possível novo ciclo de valorização semelhante ao das 'dotcom' nos anos 2000, ou ao das grandes tecnológicas na década passada".


Isto acontece "mesmo quando o contexto é de prudência" - com fatores de incerteza como a paralisação nos Estados Unidos, ou "a escassez de liquidez no mercado monetário dos EUA na segunda metade do mês de outubro (algo que não acontecia desde março 2020)", porque "o setor da IA é visto como uma exceção de crescimento e uma aposta segura' no futuro. Essa percepção alimenta reações eufóricas a qualquer sinal de avanço, ou parceria estratégica", acrescenta.


O economista do Banco Carregosa dá também importância a fatores de mercado "estruturais", como fundos de investimento e ETF tecnológicos que atribuem pesos significativos a empresas ligadas à IA e que geram fluxos automáticos de compra "que tendem a amplificar a valorização das ações, podendo por vezes a análise fundamental ser descurada, pelo menos no curto prazo". Resumindo, Paulo Monteiro Rosa diz que "o mercado parece valorizar mais o potencial do que os resultados concretos, premiando promessas de inovação em detrimento de lucros efetivos". Este comportamento, refere ainda, "é característico das fases iniciais de eventuais bolhas especulativas, em que a euforia tende a sobrepor-se à racionalidade financeira".


É isso mesmo que pelo menos parte do mercado teme, o que justifica a pressão sobre as tecnológicas no início da semana. Michael Field, "chief european market strategist" da Morningstar, defendeu, em resposta ao Negócios durante a Morningstar Executive Forum, em Lisboa, que "a concentração em si não é um problema, mas o facto de estas empresas estarem envolvidas no mesmo setor - numa economia circular gigante -, é obviamente um risco". A somar-se a isso, os resultados das maiores tecnológicas - cujo peso no índice de referência norte-americano S&P 500 ronda os 36% - foram mistos e deram pouca segurança.


Apesar de na última semana de outubro, a "earnings season" ter sido positiva para o índice fortemente tecnológico Nasdaq 100, houve empresas mais penalizadas. A Meta - dona do Facebook, Instagram e WhatsApp - teve o pior dia em três anos ao cair mais de 4%, com o crescimento das receitas no negócio de computação na "cloud" a ficar abaixo do esperado pelos analistas. "Os números da Meta (em resultado dos avultados investimentos em IA) já levaram a uma gradual compressão das margens operacionais", realça João Lampreia, que antecipa que "esta situação se possa generalizar, mas não é ainda o caso".


A prova de fogo serão os resultados do terceiro trimestre da Nvidia, que se tornou, no final de outubro, a primeira "five-trillion dollar baby" e que vai apresentar contas a 19 de novembro. Para já, a Amazon e a Alphabet registaram aumentos mais expressivos da faturação e, apesar de também anteciparem aumentos significativos do investimento em IA, foram beneficiadas em bolsa.


O mercado começa a ter a necessidade de "controlar mais a disciplina financeira" destas cotadas, disse à Bloomberg Kevin Gordon, responsável de "research" macroeconómico e estratégia da Charles Schwab. "A determinado ponto vamos ter de ter provas sobre que retorno pode vir deste investimento", referiu. Por outras palavras, o investimento em IA tem de vir acompanhado de um crescimento das receitas para que seja visto como sustentável. Com este conjunto de novos acordos, as empresas que desenvolvem ferramentas de inteligência artificial estão a tentar ganhar capacidade para aumentar o processamento de dados, tendo em conta o crescente número de utilizadores.


SNAP INTEGRA SISTEMA DE IA DA PERPLEXITY A Snap vai integrar o motor de busca de inteligência artificial (IA) da Perplexity. A "startup" vai pagar 400 milhões de dólares para estar presente no Snapchat durante o próximo ano. É uma das cotadas que está fora das "sete magníficas" e que também não quer perder o comboio da IA.


OPENAI INVESTE 38 MIL MILHÕES NA AMAZON O braço de "cloud" da Amazon, a Amazon Web Services (AWS), vai permitir que a OpenAI tenha acesso a centenas de milhares de processadores gráficos da Nvidia, aumentando a capacidade disponível à criadora do ChatGPT, num espaço de sete anos.


COREWEAVE FAZ PARCERIA ANTES DE IPO Antes de entrar em bolsa, a CoreWeave, uma startup apoiada pela Nvidia, realizou um acordo de 11,9 mil milhões de dólares para fornecer infraestrutura à OpenAI.


GIGANTES UNEM-SE PARA CENTROS DE DADOS Um grupo de investidores que inclui a BlackRock, Microsoft e Nvidia compraram a Aligned Data Centers, uma das maiores operadoras de centros de dados do mundo, com quase 80 instalações, num negócio de 40 mil milhões de dólares.


OPENAI ENTRA NO CAPITAL DA AMD? Nem todos os acordos são iguais. A AMD vai vender "chips" de IA à OpenAI. Em troca ficou aberta a possibilidade de a criadora do ChatGPT comprar uma posição de 10% na fabricante norte-americana. 


"O mercado parece valorizar mais o potencial do que os resultados concretos." PAULO MONTEIRO ROSA Banco Carregosa


Serviços ECONOMIA DE IA ESTÁ DEMASIADO CIRCULAR?


Investimento Acordos entre empresas do setor da inteligência artificial e capitalização de mercado/avaliação, em dólares Venture capital A par dos alertas de concentração na bolsa, crescem os receios de que o setor de IA esteja a ser autoalimentado. As opiniões diferem, mas caso o investimento abrande há empresas que podem ser duplamente penalizadas: menos receitas e menor valor dos seus avultados investimentos.


Não é pessimismo. É realismo. Os países ocidentais não estão preparados para absorver os impactos da inteligência artificial generativa (IA), nomeadamente ao nível do emprego, e a automatização de muitas áreas vai aumentar o fosso que separa as economias mais desenvolvidas das subdesenvolvidas, em particular as africanas.


Nesta medida, a IA, além de ir gerar uma onda massiva e transversal de desemprego estrutural que terá de ser suportado pelos serviços de segurança social dos Estados mais desenvolvidos, vai igualmente aprofundar o fosso entre países e continentes.


Em África, onde a industrialização continua a ser incipiente, argumentar que a IA será um fator indutor de oportunidades, entra no domínio do risível. Pelo contrário, o aumento da natalidade combinado com a debilidade das economias de cada país terá o condão de aumentar as tensões sociais e, também, os fluxos migratórios.


No Ocidente, obviamente, não vamos todos passar a ser auditores de sistemas de IA e ética, integradores de sistemas automatizados, designers de experiências digitais e de mundos virtuais, tradutores de algoritmos e engenheiros de "prompts", ou diretores de personalidade de IA, responsável pelo tom e pelo comportamento de inteligências artificiais, algumas das profissões que a própria IA (neste caso o Perplexity) aponta como oportunidades de trabalho por força da destruição de empregos. As estimativas apontam para que até 2030 sejam eliminados entre 400 e 800 milhões de empregos, "especialmente em funções administrativas, atendimento ao cliente, rotinas financeiras, e tarefas repetitivas", como esclarece a referida inteligência artificial.


A IA, que podia ser apresentada como a receita para a consolidação das sociedades do bem-estar, tem sido um instrumento criador de arritmias económicas e o centro de uma nova guerra política, sobretudo entre a China e os Estados Unidos, e o algoritmo transformou-se no general de todas as batalhas.


O mundo não está preparado para a IA. Nem política, nem económica, nem socialmente. O triunfo da desinformação (por vezes camuflada como desintermediação) é um exemplo paradigmático. O reconhecimento desta impotência é o primeiro passo para tentar escapar a um futuro que, no curto prazo, está longe de parecer promissor.


A IA tem sido um instrumento criador de arritmias económicas.

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