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12 dezembro 2025 02h00

A China lidera energia verde

Vida Económica

A China pode não ser o país mais verde do mundo nem liderar os rankings ambientais globais, mas é, de longe, o maior produtor de energia verde e limpa do planeta. Em 2024, a China gerou cerca de 3 500 TWh (terawatt-hora) de eletricidade renovável — incluindo aproximadamente 1 260 TWh de energia hídrica, 834 TWh de solar, 1 050 TWh de eólica e 170 TWh de biomassa, e o restante veio de outras fontes renováveis (geotérmica e resíduos), segundo valores da IEA e da Ember. No mesmo ano, os EUA produziram apenas um quarto desse valor, aproximadamente 875 TWh, enquanto a União Europeia gerou perto de 1 000 TWh. Em termos absolutos, a China produz cerca de 3,5 vezes mais eletricidade verde do que cada um destes blocos económicos e quase o dobro da produção combinada dos EUA e da UE.


Esta diferença é tão grande que, só por si, coloca a China no centro da transição energética mundial. Basta recordar que a barragem chinesa das Três Gargantas, com 22,5 GW de potência instalada (quase 50 vezes superior ao Alqueva), gera perto de 100 TWh anuais, um valor que, isoladamente, representa o dobro da eletricidade produzida e consumida anualmente em Portugal.


E quando se inclui a energia nuclear — que acrescenta mais 450 TWh anuais ao mix elétrico chinês — passando da categoria ‘energia verde’ para a mais abrangente ‘energia limpa’, a vantagem chinesa torna-se ainda mais evidente. No total, a China produz cerca de 4 000 TWh de energia limpa por ano, um valor perto das necessidades elétricas totais dos EUA, comparável, assim, a toda a produção elétrica americana, mesmo considerando também os combustíveis fósseis na geração de eletricidade. A China tem expandido o seu programa nuclear, reforçando o peso das fontes de baixo carbono no seu sistema elétrico. No entanto, o carvão ainda representa quase 60% da produção de eletricidade, mas tem diminuído o seu peso, porque as necessidades adicionais anuais têm sido quase sempre supridas por energias limpas, enquanto o gás natural e os derivados de petróleo têm um papel quase irrelevante na produção de eletricidade, num país que produz e consome atualmente cerca de 10 000 TWh de energia elétrica (mais do dobro dos EUA).


A supremacia chinesa não se limita à quantidade total, mas também à capacidade deste país de adicionar, a cada 18 a 24 meses, mais 1 000 TWh de eletricidade, e sobretudo ao facto de esses aumentos serem maioritariamente baseados em energia limpa. Em 2024, o aumento líquido de produção de eletricidade foi de 623 TWh, dos quais 276 TWh vieram da energia solar, 168 TWh da eólica, 109 TWh da hídrica, 49 TWh da nuclear e cerca de 21 TWh de outras fontes renováveis menores, segundo a Ember. O carvão não contribuiu para este aumento, acabando mesmo por perder quota no mix elétrico. A China produziu mais eletricidade, mas a participação relativa do carvão baixou. Isto significa que, apesar dos desafios, os acréscimos de produção de eletricidade na China já são maioritariamente de baixo carbono. Em suma, existe uma clara tendência "verde” chinesa.


Segundo o relatório China Energy Transition Review 2025 da Ember, a China já atingiu o pico da utilização de combustíveis fósseis na produção de eletricidade. A rápida expansão das energias renováveis e da eletrificação está a travar o crescimento dos combustíveis fósseis, criando as condições para uma diminuição estrutural do uso global de carvão, petróleo e gás. A eletricidade é hoje a principal fonte de energia nos edifícios e, desde 2023, ultrapassou o carvão como principal fonte energética da indústria. O país avança também na eletrificação dos transportes, apoiado pela crescente adoção de veículos elétricos. O armazenamento da eletricidade em baterias triplicou nos últimos três anos, reforçando a integração das energias renováveis e aumentando a estabilidade da rede elétrica. A transição energética chinesa é também um fenómeno económico, e em 2024 o investimento e a produção associada à energia limpa representaram cerca de 10% do PIB, num setor que está a crescer três vezes mais depressa do que a economia como um todo. As empresas chinesas lideram a inovação mundial, sendo responsáveis por cerca de 75% das patentes globais em tecnologias de energia limpa (face a apenas 5% no ano 2000). Os avultados investimentos chineses estão a reduzir rapidamente os custos dos painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos, permitindo que muitos mercados emergentes ultrapassem países da OCDE na adoção de energia solar, eólica e eletrificação, fenómeno impulsionado pela queda de preços ditada pela extraordinária escala chinesa.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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