A guerra e o nosso dinheiro
Nada mexe tanto com os mercados como a ansiedade. Já nos habituámos a senti-los nervosos, já os vimos colapsar pelo pânico, quando o medo comanda o impulso é o de procurar um lugar seguro. Assim funciona a economia, mas, na verdade, não há aqui nenhuma entidade abstrata a agir debaixo de alto stresse – quem fica nervoso somos nós.
"Os mercados e as empresas são feitos de pessoas e a economia necessita do que se chama previsibilidade do investimento. Eu preciso de saber que economicamente está tudo bem, para saber se tenho condições de comprar uma casa, se consigo manter os meus compromissos financeiros… A incerteza não é boa para ninguém”, diz Bárbara Barroso, especialista em finanças pessoais, fundadora do laboratório de literacia financeira Money Lab.
Não temos mísseis a voar por cima das nossas cabeças porque a guerra está do outro lado do mundo? Ela já cá chegou. A semana começou com um significativo aumento no preço dos combustíveis e já na semana pas-sada os condutores faziam filas para atestar o carro. O gasóleo aumentou acima dos 20 cêntimos por litro nas bombas da BP, da Galp e da Repsol, e a gasolina teve subidas na ordem dos oito cêntimos.
O que se segue? "O petróleo tem impacto nos combustíveis que as empresas vão utilizar para transporte e, naturalmente, se o custo de transporte fica mais caro, isso irá afetar todos os outros produtos. Se o conflito se prolonga, significa que vamos ter preços mais elevados, o que vai significar uma inflação mais alta. Havendo um aumento da inflação, o Banco Central Europeu terá necessidade de a controlar, mexendo nas taxas de juro, o que afeta o valor das prestações dos créditos, seja o da habitação ou o do crédito ao consumo”, explica Bárbara Barroso.
"Quando o barril de Brent ultrapassa os 100 dólares, é o descalabro”, adianta Daniel Rocha, especialista em investimentos, economia e geopolítica.
Na segunda-feira, dia de fecho desta edição, o preço do barril de petróleo ultrapassou os 118 dólares, tendo subido mais de 30% depois de o Irão ter encerrado o estreito de Ormuz, por onde passam mais de 20% da produção global de petróleo e quase 20% do gás natural liquefeito (GNL).
Se o Brent serve de referência ao mercado europeu, o barril de petróleo West Texas Intermediate (WTI) é a referência nos Estados Unidos da América. No domingo, o seu valor ultrapassou os 100 dólares, coisa que não acontecia desde julho de 2022. "É um pequeno preço a pagar pela paz e a segurança dos Estados Unidos e do mundo. Só os tolos pensam o contrário”, escreveu Donald Trump na sua rede social.
Esse "pequeno preço” todos sabemos quem são os tolos que o pagam. Ainda temos bem presente o que aconteceu depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia em fevereiro de 2022, lançando uma crise económica que, em Portugal, se traduziu numa inflação alta (7,8%, o valor mais elevado em 30 anos), num afundamento do mercado de ações e na subida dos juros. As consequências das guerras, mesmo estando longe, sentem-se bem na pele.
A BOLA DE NEVE
"Tudo vai depender da duração deste conflito, se a guerra ultrapassa ou não aquele ponto em que temos stocks e inventários durante uma determinada janela de tempo”, nota João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa. No início do mês, Donald Trump revelou que os ataques contra o Irão poderão durar "quatro ou cinco semanas”. Também Vladimir Putin disse acreditar que a sua "operação militar especial” na Ucrânia iria durar 72 horas e já lá vão quatro anos.
"Relativamente à Ucrânia, há um ponto aqui em comum que tem a ver com o impacto dos preços de energia, mais concretamente na parte do gás natural. Como, entretanto, já aprendemos com a questão da Ucrânia, a resposta pode ser diferente. Relativamente às reservas energéticas, os países europeus diversificaram as fontes de energia. Por um lado, o consumo de eletricidade depende agora mais das fontes renováveis e híbridas do que do petróleo e, com as barragens cheias depois das chuvas que tivemos, não precisamos de recorrer tanto às centrais de ciclo combinado para manter a potência da rede. Por outro lado, Portugal já vai buscar mais crude à Nigéria e aos Estados Unidos e menos, por exemplo, ao Médio Oriente. Já os nossos vizinhos espanhóis têm alguma exposição relativamente ao Médio Oriente na parte do gás natural”, continua João Queiroz.
Talvez isso ajude a explicar as posições políticas tão diferentes assumidas pelos primeiros-ministros de Portugal e de Espanha em relação à guerra no Irão. Luís Montenegro colocou-se totalmente do lado dos EUA, "aliado incontornável”. Pedro Sánchez é, por sua vez, um exemplo europeu de afirmação contra uma guerra que viola o direito internacional. "Não vamos ser cúmplices”, garante. Mas no cinismo da geopolítica, há sempre um barril de crude a carburar as ideologias.
Nas redes sociais, uma frase lapidar do escritor e jornalista italiano Michele Serra tornou-se viral: "Os EUA têm sempre muita sorte, aonde quer que vão para levar a liberdade encontram sempre petróleo.” Embora os consumidores americanos não se safem do aumento do custo de vida com a guerra no Irão, um país produtor de petróleo ganha sempre com o aumento do barril do crude.
"Sendo os Estados Unidos, neste momento, uma das maiores potências mundiais a nível energético, seja de extração, de produção ou de exportação, não será dos mais afetados com o preço do petróleo. Os mais afetados são claramente os países da Europa, que têm uma forte dependência energética, não só do Médio Oriente, mas de vários pontos do globo. Depois temos a questão asiática e ficámos a saber que algumas refinarias em vários países asiáticos já estavam a parar a distribuição com medo de que haja alguma falha na produção. Há tomada de medidas na China, no Japão, no Bangladesh, na Coreia do Sul… Quanto mais tempo durar o conflito, pior, quer para os países asiáticos, quer para os europeus. Os Estados Unidos, de uma maneira ou de outra, acabam por passar pelos pingos da chuva porque são exportadores de energia”, sublinha Daniel Rocha.
E acrescenta: "Na Europa temos uma taxa de inflação a rondar os 1,9%/2%. Por cada aumento de dez dólares no preço do barril de petróleo, isso pode gerar mais inflação na ordem dos 0,7% a 0,9%. Quer dizer que nos próximos tempos podemos já ver uma inflação na casa dos 3% e o Banco Central Europeu será obrigado a subir as taxas de juro. Com isso aumenta o peso do crédito à habitação... Isto depois é uma bola de neve.”OS TRÊS CENÁRIOS
Os analistas trabalham sempre com três cenários quando a questão mete guerra: o menos mau, o mau e o péssimo. Na situação ideal, o conflito com o Irão demorará realmente umas breves semanas e em pouco tempo tudo voltará ao normal. "Se houver uma contenção do conflito e uma normalização da questão energética, o mercado pode aliviar rapidamente e o petróleo tentaria estabilizar ou corrigir os preços. As bolsas recuperariam parte das perdas e o foco aqui voltaria a ser o crescimento e os resultados empresariais”, prevê Bárbara Barroso.
Também a análise do BNP Paribas vai no mesmo sentido. "Com o tráfego marítimo a voltar ao normal, os preços do petróleo e do gás recuarão até aos seus níveis normais e estabilizarão à volta dos 60/65 dólares o barril e o gás nos 25/20 por megawatt-hora. No entanto, haverá um pico de 50/MWh no segundo trimestre de 2026 devido à suspensão temporária da produção no Catar.” Segundo cenário: a guerra prolonga-se num clima de incerteza. "Os preços do petróleo continuarão altos e só começarão a reduzir-se gradualmente a partir do verão. Haverá também acentuadas reduções da oferta devido a um declínio da produção no Irão”, continua o BNP Paribas. O impacto sente-se na inflação e os bancos centrais terão de equacionar uma mexida nos juros.
Terceiro cenário: uma escalada na guerra que leva ao encerramento prolongado do estreito de Ormuz, atirando o preço do barril para os 130 dólares. "Agora no início e durante um período, as empresas ainda conseguem acomodar o aumento dos custos dos combustíveis, não o traduzindo nos preços do produto final, mesmo esmagando um pouco a sua margem. Depois deixam de poder e tudo fica mais caro. Com o mesmo salário, as pessoas deixam de ter o mesmo poder de compra e haverá uma menor procura. Começa a pairar um cenário de recessão, com crescimento fraco e inflação mais agressiva. São penalizadas ações e obrigações, há queda das bolsas”, refere Bárbara Barroso.
"No pior cenário, o crescimento económico na Zona Euro deverá cair 0,5 pontos percentuais em 2026 e 0,7 em 2027. No entanto, os mecanismos de crescimento esperados na Zona Euro (como os planos de rearmamento europeus e os programas de investimento na Alemanha) deverão atenuar parte do choque, embora com um multiplicador menor do que o inicialmente previsto”, refere a análise do BNP Paribas.
"A nível setorial, a indústria será mais afetada devido à sua sensibilidade cíclica e à forte dependência energética. Assim como em 2022, o impacto na confiança das famílias deverá ser imediato, com as taxas de poupança a cair no curto prazo (e a inflação a reduzir o rendimento real das famílias)”, diz ainda.
Menos poupança, menos investimento. Menos crescimento, mais desemprego. Sim, há razões para nervosismo, mas a pior coisa que se pode fazer quando estamos frente a frente com um "animal selvagem” económico é entrar em pânico, levantar poupanças e PPR e esconder tudo debaixo da almofada. Até porque, no meio das grandes incertezas e dos enormes riscos, há muitas oportunidades.
BOA ALTURA PARA INVESTIR?
Os setores do turismo e da aviação estão em forte queda nas bolsas, assim como o setor automóvel, o retalho e a construção. A tecnologia também. Em tempos mais suaves, investe-se alegremente na Inteligência Artificial, apesar de se saber que existe o sério risco de estar a colocar dinheiro numa bolha que pode rebentar a qualquer momento. No entanto, enquanto não rebenta, também se pode ganhar muito dinheiro. Já em tempos de incerteza, ganha-se aversão ao risco e empresas como a Nvidia, a Alphabet e a Microsoft estão a sofrer correções de preço, arrastando índices onde as big tech têm um peso considerável, como o Nasdaq 100 e o S&P 500.
Por outro lado, estando a Europa tão dependente da importação de petróleo, os juros das suas dívidas soberanas dispararam nesta segunda-feira, sendo que a taxa da dívida portuguesa a dez anos aumentou 6,7 pontos base para 3,348%.
Qual é o lugar seguro para onde todos querem ir quando a trovoada estoura? O mesmo de sempre, o rei dos "ativos refúgio”, o ouro. No entanto, se nas primeiras horas do início da guerra o ouro ganhava balanço, tendo ultrapassado os 5380 dólares a onça, poucos dias depois já o preço estabilizava porque os investidores viram uma oportunidade de ganhar ainda mais dinheiro com o dólar e o petróleo.
Este modo pânico desnorteado veio fortalecer a moeda norte-americana que esteve em baixa durante o ano passado. E também os rendimentos das obrigações dos EUA a dez anos cresceram na segunda-feira.
"Num cenário de incerteza, há uma tendência para os investidores procurarem o ouro e também investimentos em dólares. Embora as rentabilidades passadas não sejam garantias de rentabilidades seguras, a verdade é que a economia é cíclica e os cenários mudam. Mesmo que entrássemos numa recessão, a seguir vem a expansão. Portanto, é muito importante manter a cabeça fria e, acima de tudo, perceber que também estes cenários trazem oportunidades de investimento, mas é preciso, sobretudo, controlar as emoções. Nestas alturas, os maiores danos nas carteiras e nas poupanças das famílias não vêm necessariamente destes momentos de queda, porque depois há recuperações; vêm das más decisões emocionais”, avisa Bárbara Barroso.
O maior erro que as pessoas podem fazer é estar a alterar a sua estratégia. Isto sendo um investidor de risco médio, pouco agressivo. "Somos milhões de investidores pelo mundo inteiro, uns mais tristes, outros alegres, outros ansiosos, outros com medo, outros a pensar que o mundo vai acabar amanhã. Uns metem dinheiro nas empresas de armamento e nas bitcoins; outros querem levantar o dinheiro todo e enfiar-se com ele num bunker”, exemplifica Daniel Rocha.
Mas atenção: até podem fazer-se agora grandes negócios, comprar ações a preço de saldo de empresas que estão em queda, e vendê-las quando voltarem a estar em alta. Mas, para isso, é preciso ter estômago. "Aguentar a pressão emocional. Ver o dinheiro a desaparecer hoje, mas ter sangue-frio para esperar que ele volte amanhã, não desatar a vender tudo ao desbarato”, aconselha o especialista.
Uma coisa é certa: para quem não pode andar nos jogos bolsistas e a única roda-viva em que anda é de casa para o trabalho e dos transportes para o supermercado, a vida vai piorar se esta guerra durar muito. Para mal da nossa ansiedade. acorreia@visao.pt
O QUE PODEMOS FAZER?
Primeiro: cabeça fria. As dicas dos especialistas para lidar com a economia em tempos de guerra
DESPESAS MENSAIS
Convém fazer uma revisão do nosso orçamento mensal, aconselha Daniel Rocha, especialista em investimentos, economia e geopolítica. Exemplo: rever as subscrições de streaming que pagamos, ver se podemos cortar em alguns destes gastos dos quais até muitas vezes nem usufruímos. Depois partir para a renegociação de contratos de telecomunicações e internet, e de seguros, sejam de vida, de saúde ou automóvel. "Mesmo que se poupe apenas cinco ou dez euros por mês, pode ser esse dinheiro que vai colmatar uma subida do preço da gasolina, da luz e até dos próprios alimentos.” Em caso de grande aflição, vale também renegociar os contratos dos créditos que tem, sejam de habitação ou consumo.
INVESTIMENTOS
Com tantas ações em queda, este pode ser um bom momento para fazer investimentos, mas não convém alterar o seu perfil de investidor. Se é conservador, provavelmente não terá estômago para aguentar as oscilações do alto risco. Mantenha a sua estratégia inicial. "Os períodos de queda e de ajuste de correção são mais abruptos e duram, em média, dez, 12 meses. Os ciclos de subida são mais lentos e são maiores, duram aproximadamente dez, 11 anos”, explica João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa. "Ou seja, quem tem poupanças não precisa de as desmobilizar no curto prazo, se conseguir aguentar uma janela de dois ou três anos. Se observarmos as crises dos preços de energia desde 1970, por exemplo, os preços do crude subiram bastante, tiveram um impacto relevante, mas depois corrigiram.” Essencial é não meter os ovos todos no mesmo cesto e ter "carteiras diversificadas, distribuídas entre várias geografias e com vários tipos de setores”. Os ganhos de uns compensam as perdas de outros. No fim, uma certeza: "Os maiores danos nas carteiras e nas poupanças das famílias não vêm destes momentos de queda, porque depois há recuperações, vêm das más decisões emocionais”, conclui Bárbara Barroso, especialista em finanças pessoais. O QUE APRENDEMOS EM 2022
Paralelismos e lições da guerra na Ucrânia
A Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, estava o mundo acabadinho de sair da pandemia de Covid-19. Ainda convalescente dos anos em que o coronavírus parou o planeta, a indústria sofreu um rude golpe com o aumento abrupto dos preços da energia, sobretudo do gás natural, e houve cortes na distribuição e suspensão da produção em certas áreas (caso dos fertilizantes na União Europeia). Muita procura e pouca oferta, choque de preços na energia e o resultado viu-se na inflação galopante que, em Portugal, se fixou nos 7,8% nesse ano, o valor mais elevado em três décadas. Para tentar controlar a inflação, o Banco Central Europeu aumentou as taxas de juro (medida que faz retrair o consumo) e as famílias pagaram mais pela prestação da casa. O BCE é lento e precavido antes de reverter a situação e só dois anos depois, em junho de 2024, começou a descer de novo as taxas de juro.
E a Europa aprendeu alguma coisa? Estamos de novo com uma guerra no centro do furacão energético. A União Europeia reduziu em 95% o petróleo que importava da Rússia e quer libertar-se do gás natural liquefeito vindo desse país até 2027, o que fez com que os Estados Unidos se tornassem o seu principal fornecedor. Além da Noruega, outros importantes fornecedores da Europa são o Iraque e a Arábia Saudita, através do estreito de Ormuz. E aqui temos um novo problema.
Já Portugal importa petróleo sobretudo do Brasil, dos EUA e da Argélia, e gás da Nigéria e dos EUA. Ainda que mais protegido nas fontes de abastecimento, há um fator a que o nosso país não consegue escapar: o preço. Com as cotações do crude a serem definidas nos mercados de futuros, tendo por base decisões da OPEP e os movimentos de oferta e procura mundiais. Ninguém se safa do aumento do preço dos combustíveis.
"O petróleo tem impacto nos combustíveis que as empresas vão utilizar para transporte e, naturalmente, se o custo de transporte fica mais caro, isso irá afetar todos os outros produtos”
Bárbara Barroso, especialista em finanças pessoais "Nos próximos tempos podemos já ver uma inflação na casa dos 3% e o Banco Central Europeu será obrigado a subir as taxas de juro. Com isso aumenta o peso do crédito à habitação... isto depois é uma bola de neve”
Daniel Rocha, especialista em investimentos, economia e geopolítica
Incerteza Mercados nervosos, investidores em pânico e as bolsas a afundar. A guerra beneficia muito poucos Lições "Há um ponto em comum com a guerra na Ucrânia, que tem a ver com o impacto dos preços de energia, mais concretamente no gás natural”, diz João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa Turismo Este é um dos setores mais afetados pela guerra contra o Irão, uma vez que o preço do petróleo impacta grandemente os custos das viagens