A inteligência artificial já molda os mercados
Paulo Monteiro Rosa, do Banco Carregosa, defende "A inteligência artificial já molda os mercados".
"A IA é hoje um fator central para compreender os mercados financeiros, os ciclos económicos e as novas dinâmicas entre política monetária, geopolítica e inovação” – afirma em entrevista à "Vida Económica” Paulo Monteiro Rosa, autor de mais de uma centena de artigos sobre a intersecção entre inteligência artificial, economia e mercados financeiros.
Na sua mais recente obra, "Mercados e economia nas mãos da IA”, o economista reflete sobre uma revolução em curso, comparável à massificação da internet, mas com efeitos potencialmente mais disruptivos.
Vida Económica - Quais foram os gatilhos – seja uma mudança recente nos mercados, uma experiência pessoal ou uma lacuna de informação – que o levaram a abordar a intersecção entre inteligência artificial, mercados financeiros e economia? Paulo Monteiro Rosa - A inteligência artificial, os mercados financeiros e a economia têm estado claramente interligadas nos últimos anos e a ideia de abordar a interação destes três temas surgiu da própria realidade que se impôs desde o final de 2022. A IA passou a ser um dos principais motores da valorização das bolsas nos EUA, criando um efeito riqueza visível, mesmo antes dos ganhos de produtividade se refletirem na economia real. A semelhança com a massificação da internet entre 2000 e 2005 tornou-se evidente e percebi que estávamos perante uma transformação de enorme alcance económico e social, ainda em fase inicial. A ascensão da Nvidia tem sido um dos principais epicentros desta mudança, com uma valorização notável e um posicionamento dominante no fornecimento de GPUs para data centers e aplicações de machine learning, à semelhança da Cisco Systems, fornecedora dos routers para a democratização da internet a nível global. Como cronista, este foi um dos temas mais recorrentes nos 120 artigos que escrevi ao longo dos últimos 16 meses. Como economista, senti a necessidade de reunir esses mesmos artigos numa obra, publicados ao longo de 2024 e no início de 2025.
VE - Desde o trading algorítmico até à análise preditiva, quais são, na sua opinião, os casos de uso mais disruptivos e como julga que irão evoluir no médio e no longo prazo?
PMR - O livro trata sobretudo da evolução das empresas ligadas à inteligência artificial. No entanto, o trading algorítmico e a capacidade preditiva dos modelos de IA são hoje ferramentas cada vez mais presentes e relevantes nos mercados financeiros. Apesar disso, o futuro não é óbvio. Continuam a fazer-se previsões, com mais variáveis e algoritmos mais sofisticados, mas a incerteza permanece. A IA pode ajudar a prever, mas não elimina o erro nem garante certezas. É possível que, no futuro, tenhamos algoritmos cada vez mais avançados a competir entre si, mas o futuro continuará a ser incerto. O que está a mudar não é tanto a capacidade de prever com exatidão, mas sim a rapidez com que se processam os dados e se tomam decisões. Mesmo com grandes avanços, a natureza imprevisível dos mercados, da economia e das relações e interações entre os seres humanos, continuará a colocar limites à capacidade preditiva de qualquer supermodelo.
Todavia, a análise preditiva com IA está a transformar a forma como se interpretam dados macroeconómicos e financeiros. O trading algorítmico entra numa nova fase com modelos generativos. No médio prazo, espera-se maior integração da IA com modelos económicos. No longo, a disrupção será transversal, com impacto na gestão de carteiras e na formulação de políticas, podendo mudar a dinâmica entre agentes económicos.
VE - A IA nos mercados pode reconfigurar a forma como investimos e regulamos; que riscos éticos (ex.: manipulação algorítmica) e que lacunas na legislação o livro destaca?
PMR - A inteligência artificial tem um potencial transformador profundo sobre a forma como investimos, regulamos e compreendemos os mercados. O livro alerta para a possibilidade de estarmos perante uma revolução com alcance muito superior ao de qualquer inovação tecnológica anterior — não só nos mercados, mas em praticamente todos os setores da economia. No entanto, esse avanço coloca questões éticas fundamentais. Uma delas é a crescente autonomia dos algoritmos. A possibilidade de termos modelos de IA altamente sofisticados a competir entre si, sem supervisão clara, levanta riscos de manipulação de mercado, decisões enviesadas ou ações que escapam ao controlo humano. O cenário em que algoritmos ajustam estratégias com base em sinais imperfeitos ou desinformação pode gerar instabilidade, reforçando ciclos de euforia ou pânico. A legislação tende a ser frequentemente reativa e vai-se ajustando com o tempo, mas torna-se cada vez mais urgente que passe a ser proativa. Contudo, o livro defende que a ética terá, nas próximas décadas, um papel tão ou mais relevante do que a própria regulação.
Assimetria no acesso à tecnologia
VE - Considerando que o acesso a tecnologia de ponta não é universal, quais são os efeitos potenciais na concentração de riqueza e no acesso entre pequenos e grandes investidores?
PMR - A assimetria no acesso à tecnologia é um dos pontos críticos da atual revolução da inteligência artificial. Os grandes investidores institucionais e as grandes tecnológicas têm recursos para desenvolver ou adquirir modelos avançados, contratar talento qualificado e aceder a quantidades incomensuráveis de dados — vantagens que dificilmente estão ao alcance de pequenos investidores ou empresas. Esta desigualdade poderá acentuar a concentração de riqueza e criar barreiras à entrada cada vez mais elevadas. No que concerne aos mercados financeiros, a IA, em vez de democratizar o acesso à informação e à análise de mercado, poderá, paradoxalmente, ampliá-lo neste domínio. Quanto mais sofisticados forem os modelos, maior será o fosso entre grandes institucionais e investidores de retalho. Há o risco de reforçar uma elite financeira e tecnológica com acesso exclusivo a ferramentas de decisão automatizada. Na verdade, as grandes empresas vivem dos seus clientes — e ninguém fica rico numa ilha deserta. Mas, se o trabalho humano se tornar verdadeiramente prescindível e puder ser facilmente executado por um humanoide, e se não houver uma regulação forte e cabal que o impeça, a IA tornar-se-á também um enorme paradoxo: pela primeira vez, uma tecnologia deixará de estar ao serviço do ser humano e da melhoria do seu bem-estar, passando a ser uma ameaça à sua própria existência. O livro alerta também para a atual tendência de concentração, visível na valorização das "Magnificent 7” e no peso crescente de poucos atores nos principais índices.
Há um risco real de a IA acentuar a desigualdade e concentrar poder
"A ética terá, nas próximas décadas, um papel tão ou mais relevante do que a própria regulação”, defende Paulo Rosa.