A natureza imprevisível dos mercados financeiros
Os mercados financeiros, em particular os índices acionistas, raramente refletem com exatidão o valor real das empresas. Como é natural, oscilam em torno desse valor, mas, na maioria das vezes, excedem-no (títulos sobreavaliados). Tendem a subir mais frequentemente do que caem, antecipando os ganhos futuros das empresas e beneficiando do próprio efeito de riqueza, num ciclo de valorização que alimenta a economia e, ao mesmo tempo, dela se alimenta. Assim, no longo prazo, os mercados acompanham, de forma geral, o crescimento do PIB nominal, mas, na maioria das vezes, a um ritmo superior ao seu verdadeiro potencial. Este ciclo cria a ilusão de uma riqueza fácil, sustentando um otimismo que pode perdurar durante anos sob a aparência de estabilidade. São raros os momentos de descrédito total – como em 2002, no final do bear market, quando muitas empresas estiveram subavaliadas apesar da recuperação económica, ou em outubro de 2008, quando as bolsas desmoronavam e o DAX alemão chegou a cair cerca de 10% ao dia durante algumas sessões, enquanto o Nasdaq e o S&P 500 registavam quedas históricas. Foi nesse mês que muitas ações atingiram os seus mínimos, uma oportunidade de compra para quem soube manter a cabeça fria "quando o sangue corria nas ruas”. Os períodos de euforia superam largamente os de descrédito, mas é nos momentos de pânico, por mais breves que sejam, que se perdem fortunas.
No entanto, é mais fácil identificar mínimos, já que a economia tende sempre a crescer no longo prazo, enquanto prever máximos é uma tarefa difícil. Sair cedo demais pode significar perder a viagem antes de o comboio chegar à estação. Como os mercados sobem na maior parte do tempo, acompanhando o crescimento económico, os maiores ganhos pertencem a quem permanece investido. Então, o investidor deve seguir a estratégia de "buy the dip”? Quando os fundamentais das empresas estão muito acima das médias históricas – como um PER do S&P 500 de 24 –, e as cotações são impulsionadas pelo hype em torno da inteligência artificial (IA), o FOMO (Fear of Missing Out) pode toldar a decisão de compra. Assim, o investidor deve estar consciente da necessidade de reduzir a sua exposição ao mercado perante qualquer sinal de forte correção, como uma revisão em baixa das expectativas de lucro das Big 7.
Serão as recentes declarações de Satya Nadella, CEO da Microsoft, um sinal de alerta? Elas refletem uma visão realista sobre a IA, destacando a necessidade de avaliar o seu impacto económico concreto, em vez de se focar apenas no entusiasmo gerado pela tecnologia. Embora a adoção da IA esteja a crescer e os investimentos sejam significativos, ainda não há evidências claras de que esteja a impulsionar um crescimento económico relevante. Para Nadella, a IA só será verdadeiramente transformadora quando gerar um crescimento mensurável, apontando como referência um aumento de 10% no PIB global, algo que ainda não se verificou, ao contrário do que aconteceu com revoluções tecnológicas anteriores, como a internet ou os smartphones. Muitas empresas enfrentam dificuldades em adotar a IA de forma produtiva. Um exemplo disso é o Copilot da Microsoft, que algumas empresas percecionam mais como um custo adicional do que como uma ferramenta de valor acrescentado.
Neste contexto, a Microsoft e outras grandes empresas continuam a investir em IA, sem assumirem que a IA representa, desde já, uma revolução garantida. Para Nadella, a tecnologia pode estar sobrevalorizada no curto prazo, mas tem potencial a longo prazo, caso consiga impulsionar a produtividade e o crescimento económico de forma sustentada. O Bank of America alerta que o entusiasmo em torno da IA pode não corresponder totalmente à realidade económica, à semelhança do que aconteceu com as empresas tecnológicas no início dos anos 2000. Além disso, persistem desafios técnicos, como a precisão das respostas e a automatização de processos, especialmente em setores como o apoio ao cliente, onde a adoção da IA ainda está numa fase inicial, como demonstrado no caso da Klarna.
Durante longos períodos, os mercados parecem previsíveis e controláveis. Nos últimos 15 anos, a Fed tem adotado políticas monetárias expansionistas (QE e cortes de juros) sempre que surgem dificuldades nos mercados. No entanto, essa estabilidade pode ser ilusória. Nassim Nicholas Taleb alertou que muitos "cisnes negros” não são verdadeiros imprevistos, mas fragilidades latentes, invisíveis até serem ativadas, como na bolha das dotcom ou na Grande Recessão de 2008. A crença de que "This Time Is Different”, ou seja, a ilusão de que o mercado é inexpugnável, precedeu várias crises. Benoit Mandelbrot demonstrou que os mercados são estruturalmente instáveis e fractais, sujeitos a colapsos imprevisíveis. O otimismo excessivo gera ciclos de valorização insustentável, até que a realidade se imponha, forçando correções. Atualmente, o crédito para investir na bolsa, ou seja, as contas margem atingiram um máximo histórico de um bilião de dólares, representando 3% do PIB dos EUA, o mesmo nível registado no auge das dotcom e antes da queda de 2008 (esta percentagem tem sido o novo normal desde a enérgica expansão do balanço da Fed). Entretanto, enquanto a dança das cadeiras durar, o investidor deve manter-se no jogo, mas atento para não ser o último a ficar sem lugar.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco CarregosaOs mercados financeiros, em particular os índices acionistas, raramente refletem com exatidão o valor real das empresas. Como é natural, oscilam em torno desse valor, mas, na maioria das vezes, excedem-no (títulos sobreavaliados). Tendem a subir mais frequentemente do que caem, antecipando os ganhos futuros das empresas e beneficiando do próprio efeito de riqueza, num ciclo de valorização que alimenta a economia e, ao mesmo tempo, dela se alimenta. Assim, no longo prazo, os mercados acompanham, de forma geral, o crescimento do PIB nominal, mas, na maioria das vezes, a um ritmo superior ao seu verdadeiro potencial. Este ciclo cria a ilusão de uma riqueza fácil, sustentando um otimismo que pode perdurar durante anos sob a aparência de estabilidade. São raros os momentos de descrédito total – como em 2002, no final do bear market, quando muitas empresas estiveram subavaliadas apesar da recuperação económica, ou em outubro de 2008, quando as bolsas desmoronavam e o DAX alemão chegou a cair cerca de 10% ao dia durante algumas sessões, enquanto o Nasdaq e o S&P 500 registavam quedas históricas. Foi nesse mês que muitas ações atingiram os seus mínimos, uma oportunidade de compra para quem soube manter a cabeça fria "quando o sangue corria nas ruas”. Os períodos de euforia superam largamente os de descrédito, mas é nos momentos de pânico, por mais breves que sejam, que se perdem fortunas.
No entanto, é mais fácil identificar mínimos, já que a economia tende sempre a crescer no longo prazo, enquanto prever máximos é uma tarefa difícil. Sair cedo demais pode significar perder a viagem antes de o comboio chegar à estação. Como os mercados sobem na maior parte do tempo, acompanhando o crescimento económico, os maiores ganhos pertencem a quem permanece investido. Então, o investidor deve seguir a estratégia de "buy the dip”? Quando os fundamentais das empresas estão muito acima das médias históricas – como um PER do S&P 500 de 24 –, e as cotações são impulsionadas pelo hype em torno da inteligência artificial (IA), o FOMO (Fear of Missing Out) pode toldar a decisão de compra. Assim, o investidor deve estar consciente da necessidade de reduzir a sua exposição ao mercado perante qualquer sinal de forte correção, como uma revisão em baixa das expectativas de lucro das Big 7.
Serão as recentes declarações de Satya Nadella, CEO da Microsoft, um sinal de alerta? Elas refletem uma visão realista sobre a IA, destacando a necessidade de avaliar o seu impacto económico concreto, em vez de se focar apenas no entusiasmo gerado pela tecnologia. Embora a adoção da IA esteja a crescer e os investimentos sejam significativos, ainda não há evidências claras de que esteja a impulsionar um crescimento económico relevante. Para Nadella, a IA só será verdadeiramente transformadora quando gerar um crescimento mensurável, apontando como referência um aumento de 10% no PIB global, algo que ainda não se verificou, ao contrário do que aconteceu com revoluções tecnológicas anteriores, como a internet ou os smartphones. Muitas empresas enfrentam dificuldades em adotar a IA de forma produtiva. Um exemplo disso é o Copilot da Microsoft, que algumas empresas percecionam mais como um custo adicional do que como uma ferramenta de valor acrescentado.
Neste contexto, a Microsoft e outras grandes empresas continuam a investir em IA, sem assumirem que a IA representa, desde já, uma revolução garantida. Para Nadella, a tecnologia pode estar sobrevalorizada no curto prazo, mas tem potencial a longo prazo, caso consiga impulsionar a produtividade e o crescimento económico de forma sustentada. O Bank of America alerta que o entusiasmo em torno da IA pode não corresponder totalmente à realidade económica, à semelhança do que aconteceu com as empresas tecnológicas no início dos anos 2000. Além disso, persistem desafios técnicos, como a precisão das respostas e a automatização de processos, especialmente em setores como o apoio ao cliente, onde a adoção da IA ainda está numa fase inicial, como demonstrado no caso da Klarna.
Durante longos períodos, os mercados parecem previsíveis e controláveis. Nos últimos 15 anos, a Fed tem adotado políticas monetárias expansionistas (QE e cortes de juros) sempre que surgem dificuldades nos mercados. No entanto, essa estabilidade pode ser ilusória. Nassim Nicholas Taleb alertou que muitos "cisnes negros” não são verdadeiros imprevistos, mas fragilidades latentes, invisíveis até serem ativadas, como na bolha das dotcom ou na Grande Recessão de 2008. A crença de que "This Time Is Different”, ou seja, a ilusão de que o mercado é inexpugnável, precedeu várias crises. Benoit Mandelbrot demonstrou que os mercados são estruturalmente instáveis e fractais, sujeitos a colapsos imprevisíveis. O otimismo excessivo gera ciclos de valorização insustentável, até que a realidade se imponha, forçando correções. Atualmente, o crédito para investir na bolsa, ou seja, as contas margem atingiram um máximo histórico de um bilião de dólares, representando 3% do PIB dos EUA, o mesmo nível registado no auge das dotcom e antes da queda de 2008 (esta percentagem tem sido o novo normal desde a enérgica expansão do balanço da Fed). Entretanto, enquanto a dança das cadeiras durar, o investidor deve manter-se no jogo, mas atento para não ser o último a ficar sem lugar.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa