Voltar
04 março 2026 00h10
Fonte: Observador

A tempestade Kristin, o PIB e a falácia da janela partida

Observador

O dinheiro que será gasto nas regiões afetadas para reparar o que foi destruído é dinheiro que deixa de ser investido noutras atividades que poderiam acrescentar riqueza à economia.


O PIB é um fluxo anual, correspondendo à produção total de bens e serviços finais realizada numa economia ao longo de um ano. O crescimento do PIB real tende a contribuir para o aumento do bem-estar da sua população, embora não o meça diretamente. Ao longo do tempo, parte da produção anual (PIB real, isto é, a riqueza medida em volume, eliminando o efeito da inflação) transforma-se em investimento, aumentando o stock de capital existente num país — infraestruturas, empresas, escolas, hospitais e restantes meios de produção — embora esse stock também sofra depreciação e possa ser destruído por catástrofes naturais, desde terramotos a tempestades.


Cada PIB anual representa a atividade económica gerada nesse período, à semelhança da atividade anual de uma empresa — as suas vendas, receitas e resultados — que, ao longo do tempo, vão aumentando ou diminuindo o balanço da empresa. Tal como o balanço representa o património acumulado de uma empresa, também numa economia a sucessão de anos de produção, investimento e criação de riqueza vai construindo o stock existente num país, isto é, o conjunto de infraestruturas, empresas, conhecimento e capital disponíveis para a população. É esse stock acumulado o verdadeiro património económico de uma nação que determina a quantidade de bens e serviços que podem ser produzidos e, em última análise, o nível de bem-estar das populações.


Assim, catástrofes naturais — como a tempestade Kristin, que fustigou o centro de Portugal na madrugada de 28 de janeiro, bem como as que se lhe seguiram — destruíram stock e reduziram a riqueza do nosso país, mesmo que a reconstrução posterior possa, até, aumentar temporariamente o PIB. Isto evidencia que variações anuais do PIB nem sempre refletem alterações reais no bem-estar das populações nem na riqueza acumulada de uma nação.


Por exemplo, o aumento da poluição pode gerar mais despesa em saúde e limpeza ambiental, contribuindo para o crescimento do PIB. Contudo, esse crescimento resulta da necessidade de reparar um dano previamente criado. À semelhança da falácia da "janela partida”, do economista francês Frédéric Bastiat, a atividade económica pode até eventualmente aumentar, mas a sociedade não se torna necessariamente mais rica — podendo, pelo contrário, ter perdido qualidade ambiental e bem-estar. Os recursos financeiros, o trabalho e o tempo mobilizados para reparar o dano deixam, assim, de estar disponíveis para outros fins, como investimento, inovação ou simplesmente para melhorar o nível de vida das populações através do consumo. Ou seja, o dinheiro que será agora gasto nas regiões portuguesas afetadas pelas intempéries do último mês e meio para reparar o que foi destruído é dinheiro que deixa de ser investido noutras atividades que poderiam acrescentar riqueza à economia. É verdade que algumas empresas, sobretudo da construção civil, poderão ter um ano melhor, mas isso não compensa o impacto global, havendo muitas mais que serão seriamente penalizadas em 2026.


Tal como nas guerras, também as catástrofes naturais, como a tempestade Kristin, podem eventualmente gerar mais atividade e até alguma inovação — a necessidade aguça o engenho —, mas isso não impede a perda de riqueza acumulada. Acresce que as tempestades que assolaram Portugal no início do ano ditaram a paragem de muitas atividades, com milhares de empresas afetadas, sobretudo numa região como Leiria, um importante polo industrial, com numerosas empresas paradas e sem faturação, salários em risco, menor consumo e encomendas por satisfazer, tanto para o resto do país como para o exterior.


A dívida pública tenderá a aumentar, tal como a dívida privada das famílias e das empresas junto dos bancos, podendo os excedentes orçamentais dos últimos anos dar lugar a novos défices. Assim, além de um esperado abrandamento do crescimento económico em 2026 — que nos últimos anos foi mais do dobro da média da Zona Euro — haverá também uma diminuição do stock acumulado de riqueza do país, com a destruição de infraestruturas públicas e privadas. O apoio a fundo perdido da União Europeia ajudará a mitigar parte destes efeitos e as dificuldades sentidas nas regiões afetadas — de Coimbra a Alcácer do Sal, passando por Leiria — poderão, assim se espera, a prazo, traduzir-se num processo de destruição criativa schumpeteriana, isto é, mais inovação, maior criatividade e o surgimento de empresas de maior valor acrescentado, capazes de impulsionar novamente a economia portuguesa, tornando-a mais tecnológica e mais diversificada. Nos últimos anos, o crescimento assentou sobretudo no turismo, no investimento estrangeiro e no aumento da população empregada. A atual crise ditada pelas tempestades poderá, espera-se, acelerar, pela força das circunstâncias, uma necessária diversificação do nosso modelo económico. Aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes. 


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior Banco Carregosa

Partilhe este artigo