Além da inflação, o risco volta a ditar as taxas de juro nos EUA
As taxas de juro são determinadas por vários fatores económicos, financeiros e políticos. A inflação é o principal motor: quanto mais elevada, maior tende a ser a taxa para travar e inverter a subida dos preços. O crescimento económico, a política monetária dos bancos centrais, as expectativas do mercado, bem como a procura por crédito e a oferta de dinheiro (através dos depósitos), influenciam igualmente as taxas de juro. Outros fatores importantes incluem o risco de crédito, o nível de dívida pública, a política orçamental e o contexto internacional. Quando o risco do país é elevado, pode ter tanto ou mais peso que a inflação. Em economias estáveis, os juros refletem sobretudo a inflação. Já em países endividados e menos previsíveis, perante um aumento do risco de incumprimento, os investidores exigem taxas de juro mais altas, mesmo com inflação baixa. O prémio de risco torna-se então determinante no custo do financiamento.
Nas últimas décadas, os EUA viveram um ciclo extraordinário de taxas de juro anormalmente baixas, sobretudo entre 2011 e 2022. Muitos investidores e analistas passaram a considerar esses níveis reduzidos como "normais”, mas, na realidade, poderão ter representado uma exceção histórica — especialmente no caso das taxas inferiores a 2% nas obrigações do Tesouro dos EUA a 10 anos, sendo estas uns dos principais indicadores das taxas de juro de longo prazo do mercado. Durante os 25 anos entre 1970 e 1994, as yields dessas obrigações soberanas a 10 anos situaram-se entre os 5,75% e os 8%. O atual regresso ao intervalo dos 4% a 4,2%, embora elevado face aos anos mais recentes, continua abaixo do que foi historicamente considerado normal ao longo do século XX, especialmente na segunda metade.
Entre 1960 e 2007, juros de 4% ou mais foram regra, coincidindo com décadas de crescimento económico robusto, valorização de ações e imobiliário. Durante 33 anos, entre 1967 e 2000, os rendimentos das obrigações do tesouro estiveram consistentemente acima dos 5,75%. Isto não só era considerado aceitável, como até eventualmente desejável, numa altura em que taxas de juro muito baixas eram vistas como um risco acrescido de inflação e de formação de bolhas especulativas, sobretudo no setor imobiliário e nos mercados acionistas.
O ciclo das taxas de juro tende a durar décadas. Após subidas até 1981, seguiu-se uma longa fase de queda até 2020, alicerçada por políticas monetárias expansionistas e crescente dependência de crédito barato. Hoje, esse ciclo inverte-se? Poderemos estar a entrar numa nova fase de taxas persistentemente mais altas e que poderá durar mais 20 ou 25 anos? A elevada dívida pública americana, em máximos históricos, e os persistentes défices orçamentais aumentam a perceção de risco dos EUA, pressionando as taxas de juro de longo prazo. Este novo ciclo já tem impacto visível nas contas públicas, alimentando um ciclo vicioso: mais dívida, juros mais altos, maior custo com o serviço da dívida e deterioração adicional das finanças públicas.
Os pagamentos de juros da dívida federal subiram acentuadamente, superando 1,1 biliões de dólares. Esta subida era previsível: durante os anos de dinheiro barato, o governo contraiu muita dívida. Com os juros agora mais altos, os encargos duplicaram. Nas famílias, o cenário é semelhante, com os pagamentos de juros pessoais a aumentarem consideravelmente desde 2022, ultrapassando os 560 mil milhões de dólares. Isto não se deve apenas à subida das taxas, mas também ao facto de muitas famílias terem aumentado a dívida em tempos de crédito fácil. Agora enfrentam prestações mais pesadas que comprimem o orçamento doméstico e reduzem a margem de consumo.
Este efeito é agravado por uma tendência estrutural que dura há décadas: a queda da fatia dos salários no rendimento nacional. A percentagem da remuneração do trabalhado no PIB caiu de 51,6% em 1970 para apenas 42,6% em 2025. Ou seja, enquanto os encargos com dívida aumentam, os rendimentos do trabalho perderam peso na economia. A globalização, a automatização e o enfraquecimento do poder negocial dos trabalhadores explicam parte desta tendência. Combinando estes fatores, temos uma equação preocupante: menos rendimento disponível, mais dívida e juros mais altos ‘equivalem’ a menos consumo e mais risco de recessão. As taxas de juro deixaram de ser apenas uma questão de inflação, passando também a refletir o risco — tanto o risco do devedor como o risco sistémico de bolhas de crédito e especulação.
Em suma, os EUA vivem hoje o início de um novo ciclo económico e financeiro, marcado por juros mais altos, menor margem para endividamento e uma possível correção dos excessos gerados pelas políticas monetárias expansionistas da última década. Os próximos anos exigirão maior prudência orçamental — tanto do Estado como das famílias — e poderão ser marcados por ajustamentos. Nesses contextos, os credores tornam-se mais exigentes, restringindo o acesso ao crédito sobretudo a quem tem menos capacidade financeira, como muitas famílias e pequenas empresas. Isso dificulta o financiamento da economia e torna a recuperação mais lenta.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa