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01 outubro 2025 05h35
Fonte: ECO

Aliança verde da banca perde na credibilidade e ação coletiva. Regulação ganha pontos

ECO

A aliança da banca para a descarbonização quer largar caráter vinculativo e servir apenas de guia. Especialistas apontam perda na credibilidade e força coletiva, reforçando a importância da regulação.


A Aliança da Banca para a Neutralidade Carbónica (NZBA, na sigla em inglês), a maior coligação mundial de instituições financeiras com o objetivo de contribuírem para anular as emissões de carbono, anunciou em agosto uma "pausa”, com o objetivo de repensar a iniciativa . No início de outubro, diz a aliança ao ECO/Capital Verde, vão ser conhecidos os moldes nos quais a aliança poderá continuar, depois de uma debandada de vários membros , que incluiu vários gigantes da banca americana.


 Esta aliança, convocada pelas Nações Unidas e criada em 2021 com apenas 41 membros, chegou a integrar 150 bancos. Contudo, no momento da pausa, restavam apenas 125 instituições aliadas , afirma fonte oficial da organização.


JP Morgan Chase, Morgan Stanley, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo, Barclays, UBS, HSBC, Citi e Goldman Sachs foram algumas das desistências mais badaladas, embora tenham insistido que o respetivo afastamento da aliança não significaria interromper os seus esforços quanto à transição.


"Vamos continuar a trabalhar independentemente para avançar com os interesses da firma, dos nossos acionistas e clientes, e mantemo-nos focados em soluções pragmáticas para apoiar as tecnologias de baixo carbono ”, assim como "os nossos clientes que estão comprometidos com a transição energética”, afirmou um porta-voz do JP Morgan na altura da desvinculação, ou seja em janeiro deste ano , citado pelo ESG Today .


 Há dois bancos portugueses que fazem parte desta aliança, a Caixa Geral de Depósitos e a Caixa de Crédito Agrícola mas, contactados, preferiram não comentar.


Na nota na qual é anunciada a suspensão da aliança, a organização explica que está a considerar passar a ter o papel de apresentar guias ( frameworks ) e ferramentas que promovam o foco das instituições financeiras em atividades de baixo carbono, em vez de manter o sistema de membros.


" O grupo de coordenação considera que esta é a forma mais apropriada para continuar a apoiar os bancos de todo o globo a manterem-se resilientes e acelerar a economia em linha com o acordo de Paris ", lê-se no comunicado.


A mudança, explica Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, dita que a NZBA passe de uma aliança baseada em adesão formal e compromissos obrigatórios, para funcionar como uma iniciativa de linhas guia voluntárias.


Esta nova abordagem representa não só um retrocesso, mas constitui também um sinal evidente de que a capacidade do setor financeiro para se autorregular em matéria climática é limitada.   


 Este novo modelo, de acordo com o economista, evita riscos de litígio e aumenta a possibilidade de participação mais ampla, já que pode ajudar alguns bancos a manterem-se envolvidos, sobretudo em países onde há forte oposição às políticas ESG. Considera provável que a maioria apoie as mudanças propostas. Henrique Tomé, analista na XTB, vê como ponto positivo evitarem-se riscos de compliance ou perceções de concertação setorial.


 Por outro lado, a mudança levanta dúvidas quanto à eficácia da iniciativa , afirma Paulo Rosa. Na sequência, antevê menos pressão para que os bancos apliquem medidas reais de descarbonização, "o que pode abrir espaço a práticas de greenwashing” e a possibilidade de fragmentação de práticas, o que dificulta a comparação e pode criar um cenário desigual, sobretudo entre regiões. " A NZBA arrisca perder credibilidade e deixar de ser uma referência global na transição climática do setor bancário ", diz.


Em consonância, Henrique Tomé, analista da XTB, afirma: " o risco é que a NZBA perca relevância e se torne mais uma declaração de princípios do que um instrumento de transformação real ", saindo fragilizada a credibilidade da iniciativa.


Isto não é uma simples reestruturação; é um recuo significativo na ação coletiva, no preciso momento em que é mais crítica.   


Scott Kelly, economista e consultor de sustentabilidade, professor na Universidade de Cambridge, também é crítico, numa publicação na sua página de Linkedin: "Isto não é uma simples reestruturação; é um recuo significativo na ação coletiva, no preciso momento em que é mais crítica ". Para Kelly, o modelo de aliança criava um sistema de "pressão de grupo” e encorajava os menos proativos a avançarem. Ao abdicar da lógica de grupo, a NZBA permite que os bancos se guiem por pressões regionais e interesses comerciais, "deixando um vazio onde antes existia um esforço global unificado” .


O analista Henrique Valente, da ActiveTrades , entende que " com a saída em peso dos grandes bancos americanos, a NZBA perdeu relevância ", pelo que espera que seja aprovada a nova proposta, e crê que os moldes apresentados "fazem sentido” à luz da vontade dos bancos de "suavizarem” compromissos, mas não de os abandonarem completamente. "O resultado deve ser uma NZBA mais consultiva do que normativa, embora esta mudança fragilize a coerência global da transição financeira ", diz.


 Na mesma linha, Luís Pinho, CEO da Helexia, alerta que " sem capital orientado para projetos sustentáveis, dificilmente conseguiremos descarbonizar a economia à velocidade exigida ", acompanhando a opinião de que esta mudança " enfraquece a credibilidade e a força coletiva necessárias para acelerar a transição climática”.


Sem capital orientado para projetos sustentáveis, dificilmente conseguiremos descarbonizar a economia à velocidade exigida.   


 "A verdade é que, apesar de alguns esforços para limitar o investimento em energias fósseis e apoiar projetos verdes, os retornos nunca foram suficientemente atrativos para alterar de forma significativa a dinâmica dominante ", diz Henrique Valente.


Regulação surge como a melhor solução


"À luz destes desenvolvimentos, a convicção do setor bancário na promoção da transição energética e das finanças sustentáveis fica sob escrutínio ", afirma Henrique Tomé, embora reconheça que muitos bancos já integram critérios ESG e de risco climático na sua gestão de risco e nas carteiras de crédito, independentemente de compromissos multilaterais.


 "O fortalecimento regulatório surge como um caminho inevitável”, entende Henrique Tomé. Para o analista, seria preferível que a NZBA adotasse um modelo híbrido, que conjugasse mecanismos voluntários, regulatórios (com algum grau de obrigatoriedade em compromissos mínimos e flexibilidade consoante a região) e accountability externa, sofrendo pressão da sociedade civil e investidores.


Por exemplo, poderiam manter-se diretrizes abertas em termos de metodologias, mas exigir que todos os bancos apresentassem metas de descarbonização auditáveis e relatórios transparentes, comparáveis entre si.


O fortalecimento regulatório surge como um caminho inevitável.   


 Para Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, uma solução melhor que aquela apresentada pela NZBA seria manter a aliança tal como está, mas com metas graduais e ajustadas à realidade de cada banco : "assim, haveria flexibilidade sem perder a pressão para avançar”. "Esta nova abordagem representa não só um retrocesso, mas constitui também um sinal evidente de que a capacidade do setor financeiro para se autorregular em matéria climática é limitada ", considera.


O professor de Cambridge entende que as coligações setoriais "estão a mostrar-se muito vulneráveis a oposição política organizada” , pelo que são necessárias salvaguardas regulatórias para garantir os mesmos fins. O economista sénior do Banco Carregosa prevê que a nível internacional, e particular na União Europeia, a suspensão da NZBA possa servir "como um argumento adicional para reforçar as exigências legais obrigatórias , garantindo que os compromissos climáticos não fiquem reféns das políticas e estratégias tomadas pelas instituições financeiras”.


Na ótica de Luís Pinho, seria desejável implementar padrões mínimos obrigatórios, definidos e regulados , que assegurem transparência e comparabilidade, criando um mecanismo que permita colaboração técnica entre instituições, sem risco legal. O mesmo sublinha que estas mudanças não alteram "uma realidade”: "o ESG é cada vez mais materialmente relevante para as empresas, porque impacta diretamente a gestão de riscos, a confiança dos stakeholders , a eficiência operacional e até a atratividade de talento”.


 Em paralelo, a inovação e as novas soluções financeiras dão "esperança” ao analista da ActivTrades de que, a médio prazo, se resolvam ou atenuem algumas das questões mais preocupantes em termos de sustentabilidade.


A transição para uma economia mais verde continua, mas será necessariamente mais gradual e adaptada às realidades económicas e geopolíticas atuais.   


 " A transição para uma economia mais verde continua, mas será necessariamente mais gradual e adaptada às realidades económicas e geopolíticas atuais”, prevê Henrique Valente. A verdadeira convicção, para Henrique Tomé, será medida pela na prática pelo financiamento de projetos verdes, pela redução da exposição a ativos intensivos em carbono e pela integração dos riscos climáticos no pricing do crédito. 

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