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24 março 2023 09h45

Após crise bancária, recessão estará mais próxima?

Após crise bancária, recessão estará mais próxima?
PAULO ROSA

À medida que a crise bancária diminui, cresce agora o receio de uma eventual recessão mais cedo do que indiciado pelo declive negativo da curva de rendimentos norte-americana.

Na tentativa de tranquilizar e estabilizar os mercados monetários e o sistema bancário, a Reserva Federal dos EUA (Fed) imprimiu na semana passada 440 mil milhões de dólares, montante refletido no aumento da rubrica "reservas bancárias” no passivo do banco central dos EUA. Entretanto, o item das "reverse repos” do passivo do balanço da Fed diminuiu cerca de 140 mil milhões de dólares, tendo, assim, o ativo do banco central dos EUA aumentado 300 mil milhões de dólares. Contudo, foram empréstimos concedidos aos bancos e não compra de títulos da dívida pública ou títulos garantidos por hipotecas, não se tratando, deste modo, do início de um novo "quantitative easing”. A Fed continua o seu processo de "quantitative tightening”. Esta significativa liquidez manteve calmo o importante mercado de empréstimos diários, o denominado mercado de "repos”, principal "lubrificante da engrenagem monetária”, tendo a sua taxa de juro subjacente, a "overnight” dada pela SOFR, subido apenas ligeiramente de 4,55% para 4,58% e no 99º percentil de 4,62% para 4,72%, sempre dentro do intervalo das Fed Funds Rate de 4,50% a 4,75%.

Na Europa, também o Banco Nacional da Suíça alcançou no fim de semana passado uma importante fusão entre o UBS e o fragilizado Credit Suisse, afastando parte dos receios de uma crise bancária global. O franco suíço tem-se mantido estável nas últimas semanas, confirmando tranquilidade, apesar do desagrado de alguns investidores no que concerne à inversão das prioridades na liquidação do Credit Suisse, tendo os acionistas sido beneficiados em detrimento da dívida subordinada, nomeadamente de capital Tier 1. No entanto, ainda persiste alguma ansiedade, corroborada pela alta dos "credit default swaps” do UBS, agora sob um maior escrutínio dos investidores, fruto da incorporação de alguns negócios problemáticos do Credit Suisse.

Entretanto, parece que o cenário de recessão reaproximou-se novamente. Em janeiro as perspetivas de uma recessão tinham sido empurradas para final de 2023, meados de 2024. Contudo, na última semana o cenário central inverteuse e as expectativas de uma recessão nos EUA são agora já para depois do verão, no 3° trimestre, conforme refletido pela antecipação de descida de taxas de juro pela Fed já em julho.

O PIB dos EUA cresceu no 3º trimestre de 2022 impulsionado pelas contas externas, no 4º trimestre de 2022 pelo investimento, nomeadamente variação positiva dos stocks, agora está previsto um crescimento à volta de 3,2% do PIB no 1º trimestre de 2023, de acordo com o GDP Now da Fed de Atlanta, impulsionado pelo consumo. Todavia, os acontecimentos das últimas semanas podem penalizar substancialmente o consumo, sendo provável uma retração dos consumidores nos próximos meses, diminuindo o seu contributo para o crescimento já no 2º trimestre de 2023. Eventualmente, a inflação pode desacelerar mais rapidamente, indiciando recessão. Ou seja, um possível abrandamento mais visível da inflação nos próximos tempos vai deixar de ser visto como positivo (queda dos juros), mas como negativo, espelhando recessão. Sendo, talvez, os pedidos de subsídios de desempregos nos EUA, os denominados Jobless Claims, com alguma certeza, "o canário na mina de carvão”.

Existem várias razões que justificam os receios de uma recessão mais cedo do que o previsto anteriormente: 1) Os bancos regionais norte-americanos vão financiar menos a economia, quer pelas dificuldades apresentadas, quer pelo maior escrutínio das autoridades monetárias no futuro, empurrando a economia dos EUA para uma eventual recessão mais cedo do que o antecipado pelas curvas dos juros. 2) A crise bancária gera sempre uma crescente incerteza e redução do consumo. 3) As perspetivas para os juros dos bancos centrais têm diminuído substancialmente. 4) O diferencial entre os rendimentos a 10 anos e a 2 anos nos EUA diminuiu, sinalizando o início de uma recessão na maior parte das vezes quando o spread inverte novamente para terreno positivo. 5) Cotações do bitcoin e do ouro têm subido consideravelmente, apostando numa descida dos juros, antecipando e sinalizando mais uma vez uma possível recessão. 

Economista Sénior do Banco Carregosa

Nota: escrito a 22 de março, antes da decisão da Fed