Atual cenário econômico mundial
A inflação tem recuado nas principais economias desenvolvidas, mas persistem riscos de reaceleração nos EUA, onde as tarifas comerciais e a incerteza política alimentam pressões inflacionistas. Na Zona Euro, a recuperação mantém-se frágil e desigual, travada por fatores internos e externos. Já na China, o contexto é marcado por pressões deflacionistas, refletindo uma procura interna enfraquecida. O panorama global continua condicionado por incertezas económicas e geopolíticas, que limitam o investimento, o comércio e a confiança empresarial.
A recuperação económica da Zona Euro enfrenta grandes incertezas, alerta o Banco Central Europeu (BCE), com impacto negativo no crescimento. Após um final de 2024 mais fraco do que o previsto, a instabilidade política e comercial deverá continuar a penalizar o investimento e as exportações, agravando os desafios de competitividade. A inflação abrandou para 2,2% na Zona Euro e na Alemanha em março, permitindo ao BCE prosseguir com o alívio das taxas de juro.. Noço, os índ PMI indicaram recupação na indústria, embora os serviços tenham registado uma ligeira queca.visão de crescimento paraapenas osctuais em a recuperação previstaa para 2026 continua dependente de reformas estruturais e de maior estabilidade política.
Nos EUA, no seu Outlook de março, a Reserva Federal (Fed) reviu em baixa a previsão de crescimento económico para 2025, de 2,1% para 1,7%. Ao mesmo tempo, reviu em alta a estimativa da inflação subjacente medida pelo PCE core, de 2,5% para 2,8%, o que alimenta receios crescentes de estagflação. Apesar disso, a Fed prevê apenas dois cortes nas taxas de juro ao longo de 2025, mantendo-se cautelosa quanto a um possível reacendimento da inflação, sobretudo devido às tarifas comerciais. Já os mercados antecipam quase quatro cortes, refletindo expectativas de uma maior flexibilização monetária. A curva de rendimentos nos EUA normalizou e a sua inclinação positiva tem aumentado, traduzindo-se em taxas de juro mais baixas no curto prazo, com perspectiva de estímulo à atividade económica, mas taxas mais elevadas no longo prazo — com os juros da dívida a 10 e 30 anos nos 4,50% e 4,90%, respetivamente — devido a receios em torno do agravamento das contas públicas. No primeiro semestre fiscal de 2025, o défice orçamental atingiu 1,3 triliões de dólares, cerca de 4,5% do PIB nominal. A política comercial errática da administração de Donald Trump tem aumentado a incerteza, travando decisões de investimento empresarial e afetando a confiança dos consumidores. Desde meados de fevereiro, os dados macroeconómicos têm-se vindo a deteriorar: o sentimento empresarial desceu tanto nos serviços como na indústria, segundo os índices ISM. O mesmo se verifica no lado do consumo, com o sentimento dos consumidores em queda, tanto do Conference Board como da Universidade de Michigan. As vendas a retalho revelam essa retração, sinalizando dificuldades futuras e receios renovados de inflação. A própria Universidade de Michigan estima uma inflação esperada de 6,7% a um ano. Apesar disso, o mercado de trabalho continua resiliente, com uma taxa de desemprego de 4,2% e cerca de 250 mil novos empregos criados em março. Contudo, sendo um indicador atrasado, o emprego tende a reagir com atraso a uma eventual desaceleração mais forte da economia — razão pela qual vários dos principais bancos norte-americanos já aumentaram a probabilidade de recessão nos EUA.
O sentimento empresarial chinês, tanto nos serviços como na indústria, melhorou gradualmente ao longo do primeiro trimestre, embora se mantenha ao nível do último trimestre de 2024. As autoridades chinesas continuam a apontar para um crescimento económico em torno dos 5% este ano, apesar de persistirem sinais de fraqueza na procura interna. A deflação nos preços do consumidor e do produtor reflete a fraqueza da procura interna e uma necessidade crescente para escoar produção para o exterior. Todavia, as tarifas comerciais impostas pelos EUA dificultam esse escoamento. Por isso, a China deverá acelerar os estímulos económicos e reforçar o seu mercado interno. O banco central da China (PBoC) tem margem para intensificar a sua política monetária flexível, enquanto o governo central poderá avançar com novos pacotes fiscais para apoiar a economia.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa