Balanço do 3º trimestre e perspetivas até ao final do ano
Ao longo do terceiro trimestre de 2025, os principais indicadores de atividade da Zona Euro apontaram para uma recuperação muito frágil. O PMI compósito subiu de 50,4 pontos em julho para 51,2 em setembro, sinalizando uma expansão ligeira sustentada pelos serviços, enquanto o PMI manufatureiro recuou de 50,9 para 49,8 pontos, regressando à contração. Na Alemanha, o índice Ifo caiu de 88,6 em julho para 87,7 em setembro, refletindo o pessimismo da indústria, penalizada pela fraca procura externa e pelos custos da transição energética. O BCE interrompeu em julho o ciclo de descidas das taxas de juro, após o corte de 25 pontos base decidido a 5 de junho, que deixou a taxa de depósito em 2%. Desde então, mantém uma postura prudente e dependente dos dados, considerando que, embora a inflação esteja próxima da meta de 2%, continua elevada no setor dos serviços. O banco central estima um crescimento de 1,2% em 2025 e uma inflação média de 2,1%. Em França, o défice orçamental, em torno de 6% do PIB, reflete uma despesa pública rígida que dificilmente poderá ser compensada por aumentos de impostos, dado que o país se encontra provavelmente na fase descendente da curva de Laffer. Assim, a França, pilar central do eixo francoalemão e da integração europeia, revela sinais crescentes de fragilidade, a par da Alemanha, cuja economia, caso volte a contrair em 2025, enfrentará a terceira recessão consecutiva, algo inédito desde o período de 1932 a 1934.
Nos EUA, a economia tem recuperado significativamente após a contração registada no primeiro trimestre, impulsionada sobretudo por uma política orçamental fortemente expansionista, sustentada por défices públicos superiores a 6% do PIB, e pelo efeito riqueza decorrente dos máximos históricos consecutivos dos índices acionistas, que têm suportado o consumo e o investimento. O GDPNow da Fed de Atlanta antecipa um crescimento próximo de 4% no terceiro trimestre, confirmando a robustez da atividade económica.
No outlook de setembro, a Reserva Federal dos EUA reviu em alta a projeção de crescimento do PIB real para 2025, de 1,4% para 1,6%, sinalizando maior confiança na resiliência da economia norte-americana. A taxa de desemprego manteve-se em 4,5%, refletindo um mercado de trabalho em abrandamento, mas ainda sólido, enquanto a inflação PCE core permaneceu em 3,1%, um valor ainda elevado face à meta de 2% do banco central. O dot plot apontou para uma Fed Funds Rate em torno de 3,6% no final de 2025, face a 3,9% em junho, indiciando cerca de 50 pontos base adicionais de cortes após a descida de 25 pontos base em setembro, para o intervalo entre 4,00% e 4,25%, o primeiro corte em nove meses. Reiterando uma abordagem dependente dos dados, num cenário de crescimento moderado, a Fed adotou uma postura dovish, mas cautelosa, calibrando a política para travar o abrandamento sem perder de vista a inflação, que apenas deverá convergir para 2% em 2028.
Ao longo do terceiro trimestre, a economia chinesa manteve um ritmo de crescimento moderado, apoiado sobretudo pelo setor dos serviços, mas ainda condicionada pela fraqueza da procura interna e pelas dificuldades persistentes no mercado imobiliário. O PMI manufatureiro Caixin oscilou em torno do limiar dos 50 pontos, refletindo uma produção industrial praticamente estagnada, enquanto o PMI de serviços permaneceu acima, nos 52,9 pontos em setembro, sinalizando expansão moderada. O PIB deverá crescer cerca de 4,8% em 2025, segundo o FMI, em linha com a meta oficial de "cerca de 5%” estabelecida por Pequim, mas ainda abaixo do ritmo pré-pandemia. A inflação mantém-se muito baixa, próxima de 0%, refletindo pressões deflacionistas ainda presentes, sobretudo no imobiliário e nos bens de consumo duradouro. O Banco Popular da China (PBoC) tem recorrido a cortes seletivos nos requisitos de reservas e a medidas de apoio ao crédito, mas evita reduções mais agressivas das taxas de juro, para conter riscos cambiais e saídas de capitais. O governo chinês privilegia estímulos direcionados ao consumo e ao investimento tecnológico, mas o ajustamento estrutural do setor imobiliário continuará a limitar a recuperação nos próximos trimestres.
No último trimestre do ano, o ambiente financeiro global deverá continuar impulsionado pelos máximos históricos dos mercados acionistas, reforçando o efeito riqueza e alimentando o consumo, o investimento e os lucros empresariais — um ciclo virtuoso que começa a revelar sinais de exuberância associada a uma eventual "bolha da inteligência artificial”. Nos EUA, os défices orçamentais próximos de 7% do PIB sustentam a expansão económica, enquanto, na Europa, a fragilidade industrial alemã e as dificuldades orçamentais francesas permanecem como focos de vulnerabilidade. Na China, a persistência da deflação evidencia riscos de abrandamento em 2026.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa