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09 janeiro 2026 06h35
Fonte: Expresso

Bancos centrais estão a suavizar cortes de juros

Expresso

Mercado EUA, China e Brasil precisam de dinheiro mais barato, mas a época de grandes cortes nas taxas de juros ficou para trás.


Depois de um ciclo pujante de mais de 330 cortes de juros pelos bancos centrais nos últimos dois anos, os mercados de futuros destas taxas e os especialistas ouvidos pelo Expresso projetam para 2026 a continuação da trajetória de queda do custo do dinheiro, mas com um abrandamento do corte nas taxas a nível global e, em algumas regiões, uma estabilização dos juros, como na zona euro e na Índia.


O número de subidas de juros diminuiu em 2025 em relação ao ano anterior, mas o número de cortes nas taxas também caiu mais de 30% de um ano para o outro. O efeito final na taxa média mundial dos bancos centrais saldou-se no ano passado por uma redução ligeira, de apenas quatro décimas, quando entre 2023 e 2024 o juro médio se afundou 5,5 pontos percentuais. Depois de um pico de 14,3% em 2023, a taxa média desceu para 8,8% em 2024 e 8,4% em 2025, segundo as contas do Expresso com base nos dados do portal cbrates.com.


O aperto da política monetária não colhe a simpatia da maioria dos banqueiros centrais entre as grandes economias, pois a inflação ainda não dá sinais claros de querer levantar a cabeça de novo e o andamento da economia mundial parece estabilizar em torno do patamar de 3%. A exceção, nomeadamente, é o Banco do Japão, que só saiu do terreno de taxas negativas em março de 2024. Os decisores nipónicos subiram os juros para 0,75% no ano passado e as projeções apontam para 1% até final de 2026. O governador do banco japonês, Kazuo Ueda, frisou recentemente que a trajetória de subida dos juros é para continuar.


Entre as grandes economias, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Reserva da Índia (RBI) deverão manter os juros inalterados ao longo deste ano, em sentido contrário aos que querem ou precisam de continuar a fazer cair as taxas para embaratecer o custo do financiamento das economias.


No caso do BCE, a taxa de referência deverá manter-se em 2%, conservando, internamente, o compromisso entre não cortar mais nos juros e manter de lado qualquer subida, apesar da dança de algumas cadeiras a que vamos assistir ao longo do ano, incluindo a substituição do vice-presidente Luis de Guindos (para cujo lugar o português Mário Centeno, ex-governador do Banco de Portugal, é um potencial candidato) e dos governadores dos bancos centrais de Malta e da Estónia, mas que não deverá alterar os equilíbrios. Isabel Schnabel, tida como a atual chefe de fila dos ‘falcões’ dentro do BCE, colocou fora do "futuro previsível” qualquer subida de juros em declarações recentes ao jornal alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung”. Aumentar os juros agora é um risco muito sério: "Os bancos centrais enfrentam limites claros a uma subida das taxas, sob pena de comprometerem a sustentabilidade orçamental e a estabilidade financeira”, sublinha ao Expresso Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa. O banco neerlandês Rabobank projeta o regresso ao aumento dos juros pelo BCE para o período de março a junho de 2027.


"O BCE está confortável com a situação atual em termos de nível de inflação e de câmbio. Um novo corte de juros ou a expansão do balanço do banco só será discutida se o euro se valorizar muito ou se a política monetária da zona euro se tornar muito diferente da norte-americana. Ou, claro, se houver um evento extraordinário de agitação nos mercados, como, por exemplo, queda das Bolsas, afundamento da confiança por parte dos investidores, alguma crise de dívida, mas esse não é o cenário central”, diz-nos Filipe Garcia, presidente da consultora Informação de Mercados Financeiros. Há, no entanto, um problema crescente dentro da zona euro: "Há um desafio de uma divergência económica”, refere-nos o académico búlgaro Dimitar Zlatinov. A Bulgária, recorde-se, é o 21º membro do euro desde 1 de janeiro. "Enquanto a política monetária se mantém unificada, o desempenho económico divergirá cada vez mais. Gerir esta divergência será um dos desafios centrais para os decisores”, sublinha o professor da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade de Sófia. Luis Mah, professor do ISCTE, em Lisboa, acrescenta um outro problema: a 1 de janeiro entrou em vigor o Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço, que vai impor tarifas sobre todas as importações com alta intensidade de carbono, o que poderá ter um efeito inflacionista e tensões comerciais com as economias emergentes.


Apesar de o BCE se manifestar agnóstico sobre estes problemas ‘exteriores’ ao seu mandato, haverá um impacto na formação de consensos sobre política monetária.


Economia de guerra e eleições


No ‘clube’ dos que pretendem aliviar ainda mais a política monetária, reduzindo taxas, destacam-se a Reserva Federal dos Estados Unidos da América (Fed), o Banco de Inglaterra e os bancos centrais da Rússia e do Brasil. Este último vai mudar, inclusive, de pista: de quatro subidas no ano passado vai guinar para cortes das taxas este ano.


Para o consultor Peter Cohan, os EUA, o Brasil e a Rússia são exemplos dos sinais dos tempos. Nos EUA, os mercados de futuros apontam para uma descida dos juros em mais meio ponto percentual até final do ano, enquanto os analistas admitem que a pressão da Administração Trump, sobretudo depois da substituição da presidência da Fed, com a saída de Jerome Powell em maio, possa levar a um corte de juros acumulado de 150 pontos-base, empurrando as taxas para o patamar dos 2%, como defende Stephen Miran, o peão de Trump no Conselho de Governadores. Com eleições intercalares em novembro para o Congresso norte-americano, a Administração Trump não pode facilitar a rebeldia da Fed.


O caso da Rússia é de vida ou de morte: "A continuação do ciclo de cortes nos juros, que desceram no ano passado de 21% para 16%, é indispensável para manter a economia de guerra sustentável financeiramente para o Estado e prevenir uma recessão no sector industrial não militar, que não poderá sobreviver com taxas de juro elevadas”, argumenta Cohan. No Brasil, o ciclo de subida dos juros até 15% arriscava-se a minar a economia, agora que a inflação já está ancorada perto do objetivo da política monetária (4,5%). "O Brasil precisa de baixar as taxas até perto de 9% em 2027 para reacender o crescimento do crédito sem provocar inflação”, conclui o consultor. Recorde-se que a maior economia da América Latina terá eleições presidenciais e legislativas em outubro deste ano.

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