BCE não quer repetir os erros de 2011 e 2022: nem subir juros à pressa, nem tarde demais
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O jornal britânico Financial Times confrontou a presidente do BCE com a memória de decisões que foram julgadas pelos analistas como erros quer de precipitação, quer de atraso.
Ficou na história a decisão do BCE sob liderança de Jean-Claude Trichet de subir as taxas de juro em abril e julho de 2011, o que incendiou ainda mais a crise das dívidas soberanas.
Os críticos de Lagarde consideram que foi um pouco tardia a decisão do BCE de começar a subir os juros apenas em julho de 2022 quando a inflação já estava em 8,6% na zona euro.
"Estaremos atentos nas próximas seis semanas”, prometeu a presidente do BCE. "Não queremos correr o risco de agir cedo demais, como fizemos em 2011, ou um pouco tarde demais, como em 2022”, acrescentou.
"Não queremos correr o risco de agir cedo demais, como fizemos em 2011, ou um pouco tarde demais, como em 2022”, disse Christine Lagarde na conferência de imprensa desta quinta-feira.
Inflação em 3% e crescimento mais fraco
A reunião do BCE em Frankfurt foi marcada por más notícias na frente interna e externa.
O Banco Central Europeu (BCE) manteve inalterados os juros de referência. Os governadores discutiram uma subida, mas para já decidiram adiar a decisão e os mercados antecipam agora um aumento das taxas de juro em junho.
Na frente interna, o Eurostat não deu boas notícias. A economia da zona euro desacelerou para 0,8% no primeiro trimestre deste ano e a inflação em abril subiu para 3%, o nível mais elevado desde setembro de 2023. Seis economias do euro registam taxas de inflação acima de 4%. Em Portugal, a inflação subiu para 3,4%, segundo o INE, e 3,3%, na métrica do Eurostat (Índice Harmonizado dos Preços no Consumidor) que permite as comparações dentro da União Europeia. Está acima da média na zona euro, mas, em termos de crescimento, a economia portuguesa está entre as três melhores na zona euro, juntamente com Espanha e Lituânia, com taxas acima de 2%. Todas estas variações são em termos homólogos, ou seja, em relação ao mesmo período do ano passado.
O BCE reconheceu, no comunicado desta quinta-feira, que "se intensificaram os riscos em sentido ascendente para a inflação e em sentido descendente para o crescimento”. E que "quanto mais tempo durar a guerra e os preços dos produtos energéticos se mantiverem elevados, mais forte será o provável impacto na inflação em geral e na economia”. Christine Lagarde chamou a atenção para o facto dos preços da energia serem o principal factor inflacionista em ação, embora ainda não se observem efeitos secundários, indiretos, por exemplo, numa subida de salários.
Inflação em alta e crescimento em baixa são um quebra-cabeças para o BCE: mais inflação empurra os decisores para apertar a política monetária (juros mais altos), estagnação pressiona para manter a pausa nos 2% ou mesmo regressar às descidas. É um dilema, mas a presidente do banco central recusou que se esteja nesse caminho por agora. A economia da zona euro nem está em estagnação - apesar de ter crescido apenas 0,1% entre o último trimestre de 2025 e os primeiros três meses de 2026 - nem caminha para estagflação (estagnação e inflação alta em simultâneo), que a presidente do BCE considerou ser parte da memória histórica dos anos 70 do século passado. Mas garantiu que o BCE "observa ambas as variáveis”.
Por ora, o mercado de futuros dos juros aponta para três subidas de juros em junho (na próxima reunião), em julho e em setembro, com a taxa de referência a atingir 2,75% no final do ano. A pressão inflacionista, sobretudo dos preços da energia (10,9% em abril), milita pelas subidas de juros.
Powell assegurou que ficará no conselho de governadores da Fed durante "um período determinado" que poderá ir até ao final do mandato em janeiro de 2028, até que o assunto de que é acusado fique definitivamente enterrado.
Duas ‘bombas’ na última reunião chefiada por Powell
A Reserva Federal (Fed), o banco central dos Estados Unidos, decidiu na quarta-feira manter as taxas de juro inalteradas no intervalo entre 3,5% e 3,75%, uma pausa que mantém desde dezembro do ano passado. O que era esperado. Aliás, os mercados de futuros não apontam para nenhuma mexida dos juros nos Estados Unidos até final do ano, apesar da vontade do próximo presidente, Kevin Warsh, em fazer uma "mudança de regime” dentro do banco central.
O que não era esperado é que a votação fosse 8 a favor e 4 contra. A primeira ‘bomba’ foi, de facto, o começo de afirmação de uma terceira tendência no conselho de governadores, com três presidentes de bancos regionais da Fed a votarem contra a decisão maioritária, alegando que a Fed não deveria deixar no ar a possibilidade de cortar juros, como pretende Stephen Miran, presidente do Federal Reserve Bank of New York, indicado por Trump. Miran, uma vez mais, votou por um corte de juros (de 25 pontos, um quarto de ponto percentual). A dissidência de Beth Hammack, presidente da Fed de Cleveland, Neel Kashkari, presidente da Fed de Minneapolis, e Lorie Logan, presidente da Fed de Dallas, é considerada premonitória por Peter Cohan, professor do Babson College, em Boston, e Pedro Amaral, professor de economia na California State University, em Fullerton, e que foi quadro da Fed durante 17 anos, ouvidos pelo Expresso. O novo presidente Warsh e Miran não vão ter a vida fácil para satisfazer o desejo de Trump de uma trajetória de corte de juros.
O segundo evento que agitou as águas teve a ver com o facto desta ser a última reunião de política monetária chefiada por Jerome Powell que termina o mandato como presidente da instituição a 15 de maio. O seu sucessor Kevin Warsh, escolhido por Donald Trump, já foi confirmado, à pele, pela Comissão Bancária do Senado, por 13 votos a favor contra 11, com todos os senadores republicanos a favor e os democratas contra, após o senador republicano Thom Tillis retirar a sua objeção, enquanto o Departamento de Justiça não desse como encerrada a investigação da procuradora Jeanine Pirro contra as obras num dos edifícios da Fed, de que foi alvo Powell. O Senado deverá confirmar Warsh ainda a tempo deste chefiar a próxima reunião de política monetária em meados de junho, onde são esperadas as novas projeções macroeconómicas e expetativas de juros.
No entanto, Powell "não parece ter ficado convencido com a declaração do Departamento de Justiça, porque este logo a seguir ressalvou que poderia reabrir o processo”, chama a atenção Pedro Amaral, que salienta a ‘bomba’ lançada por Powell na conferência de imprensa assegurando que ficará no conselho de governadores durante "um período determinado" que poderá ir até ao final desse mandato em janeiro de 2028, até que o assunto de que é acusado fique definitivamente enterrado.
Quem não gostou nada da reação de Powell foi o secretário do Tesouro Scott Bessent. Acusou-a de uma "ruptura com a tradição histórica" da instituição e um "insulto" aos novos indicados por Trump.
BCE não quer repetir os erros de 2011 e 2022: nem subir juros à pressa, nem tarde demais
O Banco Central Europeu (BCE) manteve inalterados os juros de referência. Os governadores discutiram uma subida, mas para já decidiram adiar a decisão. Os mercados antecipam agora um aumento das taxas de juro em junho.
O Banco Central Europeu (BCE) não mexeu, esta quinta-feira, nos juros e manteve a taxa de referência em 2%. A decisão foi, uma vez mais, por unanimidade, mas a hipótese de subir os juros já foi discutida com posições nos dois sentidos, adiantou Christine Lagarde na apresentação aos jornalistas das conclusões da reunião de política monetária.
A presidente do banco central admitiu que "a decisão se baseou em dados ainda insuficientes, mas que após análise de várias opções, incluindo mesmo uma subida de juros, acabou por ser tomada por unanimidade”, sublinha Paulo Monteiro Rosa, coordenador do Gabinete de Estudos Económicos do Banco Carregosa.
Há sinais de ‘desvio’ do cenário base do BCE
Apesar de sinais negativos por parte da estratégia de guerra no Médio Oriente da Administração Trump logo pela madrugada e das más notícias dadas pelo Eurostat - mais inflação em abril e uma desaceleração no primeiro trimestre deste ano na zona euro -, o banco central dirigido por Christine Lagarde continua a achar que "permanece bem posicionado para navegar a atual incerteza”.
No entanto, a presidente do BCE confirmou que o quadro macroeconómico na zona euro está "a desviar-se do cenário base” apresentado em março. Recorde-se que esse cenário apontava para um crescimento de 0,9% este ano e uma inflação de 2,6%. No entanto, os economistas do banco apresentaram dois cenários alternativos, mais pessimistas, com o crescimento a não ir além dos 0,4% e a inflação a subir para mais de 4%. Sem responder à pergunta sobre qual é a dimensão do ‘desvio’, Lagarde deixou a avaliação para a próxima reunião a 10 e 11 de junho, onde serão apresentadas novas projeções e revistos os cenários.