BCE privilegia estabilidade: o que esperar dos próximos meses?
BCE fez recentemente uma pausa no corte dos juros e agora só o contexto econômico europeu dirá o que se pode seguir. Especialistas afastam nova descida em setembro. Dezembro será o momento mais provável para um novo ajuste.
Num ano marcado por sinais mistos na economia da zona euro, o Banco Central Europeu (BCE) tem optado por uma abordagem prudente na gestão das taxas de juro. Depois de uma série histórica de aumentos para conter a inflação, a instituição liderada por Christine Lagarde iniciou este ano uma trajetória de cortes graduais numa tentativa não só de equilibrar o combate à inflação como de apoiar o crescimento econômico.
Já passou mais de meio ano desde o início de 2025 e é preciso perceber o que se pode contar daqui para a frente, tendo em conta que o panorama europeu e mundial é de incerteza e está em constante mudança.
Para João Queiroz, Head of Trading do Banco Carregosa, a decisão do BCE de manter a taxa de facilidade de depósito nos 2% é uma decisão que se insere "num contexto de prudência, onde o Conselho do BCE privilegia uma abordagem dependente dos dados, optando por acompanhar e observar a evolução econômica antes de avançar com novas medidas". E recorda que, nas últimas semanas, a maioria dos membros do Conselho expressou "uma clara inclinação para manter as taxas estáveis no curto prazo, destacando a elevada incerteza global, nomeadamente que envolve o impacto do acordo comercial recente entre a UE e os EUA e do efeito diferido das tarifas sobre o crescimento da procura na Zona Euro".
Face a este cenário, João Queiroz adianta que "a perspectiva de uma nova descida de juros em setembro surge agora afastada, com a reunião de dezembro a constituir o momento mais provável para uma eventual flexibilização adicional". Ainda assim, defende que essa decisão "dependerá do grau de enfraquecimento econômico sentido no outono e do comportamento da inflação até lá", explicando que "o consenso do mercado sugere que a taxa terminal desta fase do ciclo possa estabilizar nos 1,75%, mas sublinha que os riscos permanecem enviesados no sentido de mais cortes, especialmente se se confirmarem os choques negativos na procura".
Questionado sobre se a inflação já está controlada, o especialista diz que na zona euro a inflação "favoreceu sinais encorajadores de moderação, regressando à meta de 2% em julho, o que foi considerado positivo pelo BCE". Já a taxa subjacente (núcleo ou core), "que exclui componentes mais voláteis como energia e alimentos, também cedeu, fixando-se nos 2,3%". E "esta evolução reflete uma tendência de desinflação gradual, particularmente visível no abrandamento da inflação dos serviços, que tem sido o setor mais dinâmico, que passou de 3,3% para 3,1%". Mas, como tem acontecido desde o início, é necessária alguma ponderação. "Apesar da trajetória descendente, os responsáveis da política monetária mantêm alguma cautela, sobretudo devido à rigidez estrutural dos preços em determinados segmentos e à incerteza sobre o efeito total das tarifas comerciais", diz João Queiroz, recordando que as projeções do BCE apontam para um crescimento dos preços de 2% em 2025 e 1,6% em 2026, "valores abaixo dos objetivos fixados pelo BCE, o que reforça a narrativa de que o impulso inflacionista está, em grande medida, ultrapassado. A manter-se esta tendência, o espaço para nova flexibilização monetária poderá alargar-se".
O Head of Trading do Banco Carregosa adianta ainda que, para o BCE, o controle da inflação está "intimamente relacionado com o recente acordo comercial entre a UE e os EUA, que impõe tarifas recíprocas de 15% sobre a maioria dos bens transatlânticos, trouxe algum alívio face ao cenário anterior de tarifas de 30%". No entanto, para o BCE, "este entendimento não elimina os riscos, apenas os redistribui" e "o principal foco de incerteza reside no potencial choque negativo sobre a procura externa dirigida à Zona Euro". Mesmo com o acordo, "a aplicação de tarifas adicionais a setores estratégicos, como o farmacêutico, pode ter um impacto considerável no crescimento do PIB. Adicionalmente, o BCE terá de gerir os efeitos colaterais de uma potencial reorientação do comércio global". Por exemplo, o desvio de bens chineses "originalmente destinados aos EUA para o mercado europeu, a um custo mais competitivo, poderá exercer pressão deflacionista adicional. Tal poderia comprometer o esforço do BCE para consolidar a inflação próximo dos 2%, sobretudo se a inflação dos serviços continuar a desacelerar".