Bem-vindo ao novo mundo do gasóleo a dois euros
O cidadão comum talvez já não se lembre da última vez que pagou menos de um euro por cada litro de gasóleo. Foi em junho de 2009, cumprindo um semestre de bonança, depois do cabo das tormentas que foi o ano 2008, quando os receios nos mercados globais atiraram o petróleo para a nunca antes vista marca de 147,5 dólares por barril, penalizando os consumidores de combustíveis. Esqueça agora esse sonho de abastecer o carro com gasóleo a 99 cêntimos. O mundo mudou. E o que pagamos para nos deslocarmos também.
Porém, algumas coisas não mudaram. Em 2009 já os portugueses pagavam mais que nuestros hermanos para atestar o depósito do carro. E não é porque tivéssemos depósitos maiores do lado de cá. Nesse verão de diesel barato, em Portugal pagava-se 99,4 cêntimos por cada litro de gasóleo, mais nove cêntimos do que em Espanha. Mas na gasolina o fosso era bem maior: do lado de lá cada litro saía por 1,03 euros, do lado de cá ficava por 1,28. Hoje, o consumidor português continua a pagar mais do que o espanhol. E paga, sobretudo, mais impostos, pois as cotações dos refinados permanecem próximas entre os dois mercados.
Os dados do "Weekly Oil Bulletin”, um registo que a Comissão Europeia atualiza semanalmente, mostram que hoje o valor dos impostos no gasóleo em Espanha só está cinco cêntimos por litro acima do de junho de 2009, enquanto em Portugal a carga fiscal em cada litro de diesel engordou em 30 cêntimos neste período. Na gasolina o quadro é um pouco diferente: Portugal continua a pagar um preço final superior ao de Espanha, com uma desvantagem praticamente em linha com a que existia há 17 anos (a fatia de impostos em cada litro de gasolina subiu 17 cêntimos em Portugal e 19 cêntimos em Espanha).
Mas o país vizinho é um mercado peculiar. Tirando Malta (que mantém um regime de forte subsidiação dos preços), Espanha tem o mais baixo custo de gasóleo na zona euro (cerca de 1,8 euros por litro), numa lista onde Finlândia, Países Baixos e Alemanha se destacam com as faturas mais altas. Os dados do "Weekly Oil Bulletin” revelam ainda uma outra coisa: embora os preços por cá sejam bem mais altos do que no início do ano, eles não estão desfasados da realidade europeia, e Portugal figurava na tabela, no início deste mês, com preços de gasóleo e gasolina abaixo da média da zona euro, apesar de conservar uma elevada carga fiscal (hoje o automobilista português paga 40% de impostos em cada litro de gasóleo e 46% na gasolina).
A guerra no Médio Oriente ameaça prolongar uma crise energética que vai somando recordes. Com as atualizações de preços da passada segundafeira, pela primeira vez o gasóleo acumulou cinco semanas seguidas a custar aos consumidores portugueses mais de dois euros por litro, batendo o anterior máximo, registado em abril, quando o gasóleo somou quatro semanas consecutivas com um preço médio de venda ao público acima daquele limiar, como mostram os dados da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG). E os números indicam igualmente que o gasóleo avançou agora para a oitava semana consecutiva com preços superiores aos da gasolina 95 (no ano 2022 houve uma situação similar durante 12 semanas seguidas).
O encarecimento do gasóleo penaliza a maior parte das famílias portuguesas, já que o parque automóvel no país é dominado por veículos alimentados a diesel. No entanto, nas vendas de carros novos esta motorização tem perdido popularidade, sendo superada pelos veículos a gasolina e pelos elétricos e híbridos. Os últimos dados da ACAP — Associação Automóvel de Portugal mostram que dos 169 mil ligeiros de passageiros vendidos no país entre janeiro e agosto os automóveis a gasóleo tiveram uma quota de apenas 3,6%.
E com isto como fica a carteira das famílias em Portugal? Com a atualização de preços desta semana, uma família em Portugal que faça um consumo médio de 60 litros de gasóleo por mês passa a suportar um encargo mensal com este combustível de quase 128 euros. Há um ano pagava menos de 94 euros. Considerando a remuneração média nacional, se há um ano a fatura do combustível absorvia 7,2% do rendimento líquido, agora "come” quase 9,5% (uma conta similar para Espanha indica que por lá a evolução foi de 5,2% para 6,6%).
Mas se o petróleo não chegou ao recorde de 147,5 dólares de 2008, porque é que hoje pagamos mais pelos combustíveis? Parte da explicação está na fiscalidade (pagamos mais impostos por cada litro de gasolina e gasóleo). Mas também subiu a cotação dos produtos refinados, fruto de uma mudança no quadro operacional da indústria petrolífera: o mundo nunca consumiu tanto petróleo como hoje, mas a capacidade global de refinação não cresceu ao mesmo ritmo da procura (e na Europa a capacidade até diminuiu). Juntemos-lhe uma novidade: há uma disrupção efetiva de fluxos de transporte, que apertou mais ainda o abastecimento global de hidrocarbonetos e dos seus refinados. Seja então bem-vindo ao mundo do gasóleo a dois euros. b
QUEM PAGA MAIS E MENOS PELO GASÓLEO NA ZONA EURO?
Preços médios em euros por litro, a 7/9/2026
Antes de impostos Preço final
Finlândia 1,46 2,48 Países Baixos 1,46 2,44 Alemanha 1,32 2,33 França 1,27 2,26 Bélgica 1,26 2,25 Itália 1,22 2,14 Zona euro 1,28 2,14 Lituânia 1,21 2,13 Áustria 1,25 2,13 Portugal 1,27 2,10 Grécia 1,23 2,05 Letónia 1,23 2,05 Luxemburgo 1,27 2,02 Irlanda 1,20 1,95 Estónia 1,12 1,92 Croácia 1,18 1,91 Eslováquia 1,14 1,91 Chipre 1,25 1,89 Eslovénia 1,19 1,88 Bulgária 1,18 1,81 Espanha 1,30 1,80 Malta 0,55 1,21
E QUEM PAGA MAIS E MENOS PELA GASOLINA? Preços médios em euros por litro, a 7/9/2026
Antes de impostos Preço final
Países Baixos 1,19 2,47 Alemanha 1,16 2,33 Finlândia 1,13 2,32 França 1,07 2,11 Zona euro 1,07 2,10 Grécia 0,97 2,09 Portugal 1,12 2,09 Itália 0,99 2,03 Letónia 0,99 1,94 Bélgica 1,00 1,94 Áustria 1,00 1,91 Lituânia 1,00 1,88 Luxemburgo 1,03 1,87 Irlanda 0,98 1,85 Espanha 1,08 1,82 Estónia 0,87 1,81 Eslováquia 0,89 1,77 Croácia 0,96 1,73 Eslovénia 0,90 1,63 Chipre 1,00 1,63 Bulgária 0,95 1,57 Malta 0,59 1,34
FONTE: WEEKLY OIL BULLETIN (COMISSÃO EUROPEIA)
UM CONSUMIDOR EM PORTUGAL QUE GANHE O EQUIVALENTE AO SALÁRIO MÉDIO E ABASTEÇA 60 LITROS DE GASÓLEO TODOS OS MESES VÊ HOJE O COMBUSTÍVEL ‘QUEIMAR’ 9,5% DO RENDIMENTO LÍQUIDO, ACIMA DOS 7,2% DE HÁ UM ANO
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Portugal financia-se a um custo mais alto do que Espanha
O perfil de rating das duas economias é similar, mas o Tesouro de Madrid ainda consegue pagar juros mais baixos
Espanha continua a financiar-se nos mercados internacionais a custos mais baixos do que Portugal, apesar de os dois vizinhos peninsulares registarem perfis similares de rating [avaliação da qualidade da sua dívida pública]. Este mês, a agência Fitch subiu a notação portuguesa para A+ e manteve o rating espanhol em A. Simultaneamente, a agência europeia Scope melhorou a notação espanhola para A+, acima da portuguesa.
Apesar deste equilíbrio de notações de crédito, Madrid continua a pagar um juro médio anual mais baixo do que Lisboa nas novas emissões de dívida. No ano passado o custo médio foi de 3,4% para Portugal e 2,7% para Espanha e este custo médio abrange toda a dívida colocada, de curto, médio e longo prazo. Esta dívida é colocada no "mercado primário”, onde os Estados se financiam diretamente junto dos investidores nacionais e internacionais. Desde o início do ano, o custo médio pago pelo Tesouro espanhol é 6 décimas mais baixo do que o pago pelo Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP).
Esta discrepância acontece mesmo com os juros da dívida portuguesa no "mercado secundário” (onde os investidores trocam os títulos entre si) em níveis ligeiramente mais baixos do que os espanhóis e com a expectativa de que, daqui a 12 meses, os juros das Obrigações do Tesouro a 10 anos de Portugal estarão a pagar 5,3% e os títulos espanhóis 5,5%, segundo as projeções do portal World Government Bonds.
"O rating não é o único determinante da taxa de juro para um Estado. Um fator importante é a liquidez. Mercados com dívidas maiores permitem, normalmente, comprar e vender títulos com maior facilidade e com menores spreads entre a compra e a venda. Essa maior liquidez tem maior valor para os investidores e pode permitir a Espanha financiar-se a uma taxa ligeiramente inferior à de Portugal”, refere Ricardo Nunes, economista português a dar aulas na Universidade de Surrey, no Reino Unido.
O economista espanhol Antonio Fatás, professor no INSEAD, em França, adianta, por seu lado, que "as notações de crédito são medidas imperfeitas do risco e não se correlacionam bem com os juros. No caso de Espanha, há o fator crescimento económico. Em Espanha as taxas de crescimento são mais elevadas, alimentadas por uma imigração massiva. Os mercados gostam desse crestuguesa desceu para 89,7% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a espanhola ficou em 100,7%. Portugal registou um excedente orçamental de 0,7%, enquanto Espanha apresentou um défice de 2,39% do PIB. Espanha compensa parte desta desvantagem nas contas públicas com outros fatores, como o crescimento mais acelerado entre as economias europeias, que melhora a capacidade de gerar receita fiscal. Além disso, o mercado da dívida é bastante maior e potencialmente mais líquido do que o português. As emissões são maiores, existe mais dívida em circulação e os investidores podem conseguir comprar e vender posições com maior facilidade.”
As notações de Portugal e Espanha situam-se atualmente no patamar A, o que já significa um investimento com boa capacidade de pagamento por parte do devedor. Distanciam-se das notações de triplo B (primeiro nível de investimento não especulativo), em que ainda se situam a Grécia e Itália.
A anomalia mais relevante é o que se passa na comparação das duas economias ibéricas com França, a segunda maior economia da zona euro, que tem um quadro global de rating melhor do que Portugal e Espanha. A economia francesa ainda tem três notações de duplo A atribuídas pela Moody’s, pela europeia Scope e pela canadiana DBRS, mas os juros que está a pagar nas emissões de dívida são superiores aos registados para os outros dois casos ibéricos.
Apenas usando, a título comparativo, uma emissão em julho para Obrigações a 10 anos, com prazos próximos, que foram colocadas pelos três países, Espanha pagou 3,157%, Portugal 3,439% e França 3,68%. "França é um exemplo para evidenciar como ratings e juros podem dar sinais diferentes sobre o risco de crédito. O mercado está a penalizar França antes mesmo de as notações de crédito refletirem totalmente essa deterioração. A dívida francesa atingiu cerca de 115,6% do PIB em 2025 e o défice foi de 5,1% do PIB. Para 2026 deve aumentar para 5,3%”, sublinha o economista do Banco Carregosa.
"No caso de França, a liquidez até deveria jogar a seu favor, mas isso não acontece. A perceção que o mercado tem sobre a trajetória orçamental é clara: défices elevados, dívida em trajetória ascendente, fragmentação política e dúvidas sobre a capacidade do país de implementar uma consolidação orçamental nos próximos anos. Acrescentam-se necessidades de financiamento e refinanciamento muito elevadas”, conclui Ricardo Nunes.
CUSTO DA DÍVIDA DE ESPANHA É MAIS BAIXO
Juro médio nas novas emissões em %
3,5 Portugal 3,4
3
Espanha 2,8
2,5 2023 2024 2025 2026 AGO.
2023 foi o primeiro ano em que o peso da dívida pública portuguesa no PIB passou a ser mais baixo do que o espanhol
FONTES: IGCP E TESORO ESPAÑA
cimento, que é fundamental para manter a dívida sob controlo”, refere.
Em 2024, Espanha cresceu 3,5% e Portugal 2,2%. Entretanto, o diferencial foi-se encurtando. No ano passado os crescimentos foram, respetivamente, de 2,8% e 1,9%. Nos dois primeiros trimestres de 2026 Espanha cresceu apenas 2 a 3 décimas mais.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa, faz uma análise mais ampla: "No ano passado a dívida pública por-
Juros da dívida dos EUA em alta
Com os mercados a aguardar subidas das taxas de juro pela Reserva Federal (e por outros bancos centrais de referência como o Banco Central Europeu), a dívida soberana dos EUA intensificou a tendência das últimas semanas de agravamento dos juros. A rendibilidade das obrigações do Tesouro norte-americano com maturidade a dez anos — que aumenta com a desvalorização dos títulos no mercado secundário — voltou a superar, na terça-feira, a barreira psicológica dos 5%. A última vez que as yields destes títulos de longo prazo superaram essa fasquia foi em 2023, e apenas por breves momentos; o último momento em que estiveram acima dos 5% de forma consistente foi em 2007, antes da crise financeira que acabaria por trazer as taxas diretoras a mínimos. As yields das obrigações de referência na Europa, os títulos alemães a 10 anos, também alcançaram máximos de 2009, influenciando por arrasto a rendibilidade dos títulos de longo prazo das congéneres europeias.
Pedro Carreira Garcia Jorge Nascimento Rodrigues