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02 janeiro 2026 07h45

Bitcoin e Oracle, canários da IA intensiva em capital. E 2026?

Vida Económica

Desde outubro, o setor da inteligência artificial tem evidenciado um desempenho mais fraco, apesar dc os principais índices acionistas terem continuado a registar máximos históricos. Meta, Microsoft e NVIDIA atingiram máximos no final de outubro e corrigiram posteriormente, enquanto a Alphabet foi a principal exceção, continuando a valorizar. Todavia, a correção foi muito mais acentuada nas empresas mais expostas ao consumo de IA, como a Oracle e vários AI pure plays (empresas cuja proposta de valor assenta quase exclusívamcntc cm aplicações ou infraest.ruturas de IA), acompanhadas igualmente pelo fraco desempenho da Bitcoin. Esta evolução evidencia uma clara divergência dentro do setor da IA, que parece não resultar de uma alteração no apetite pelo risco, mas de uma reavaliação dos modelos dc negócio que estão, ou não, a capturar efetivamente valor na cadeia da IA.


Até meados dc setembro, a valorização foi mais visível em empresas mais expostas ao consumo intensivo de IA. como a Oracle, as AI pure plays, como a C3.ai ou a SoundHound AI, fortemente dependentes de capacidade de computação (cloud, GPUs e infraestruturas de processamento), e cuja monetização está muito aquém dos avultados investimentos realizados, e as empresas de software "AI-wrapped”, como a Palantir ou a UiPath, que incorporaram IA em produtos já existentes (colocam a IA no centro da sua narrativa comercial). Estas empresas negoceiam com múltiplos elevados e cxpcctativas muito exigentes, apesar dc não existir melhoria dos fundamentos. A BTC tem acompanhado a evolução deste setor da IA a papel químico.


A partir de outubro, a pergunta do mercado deixou de ser "quanto pode o setor da IA crescer no futuro?”, mas "quem está a ganhar dinheiro com a IA atualmente?”. Muitas empresas passaram a ser avaliadas como modelos de negócio intensivos em consumo de capital, isto é, compram capacidade de computação, investem significativamente em capex, veem as margens pressionadas e prometem monetização mais à frente (adiam receitas). Quando o mercado começou a valorizar mais o cash-flow presente e menos a narrativa futura, estas ações corrigiram acemuadamentc, apesar dos índices acionistas continuarem em máximos históricos. Em contraste, grandes hyperscalers, como Microsoft, Amazon e Meta, conseguiram ainda valorizar até ao final de outubro, não por consumirem menos IA, mas porque conseguem monctizar esse consumo, vendendo capacidade computacional c cobrando pela sua utilização.


A divergência entre a Google e a NVIDIA evidencia a diferenciação no mercado da IA. Enquanto a Nvidia atingiu máximos no final de outubro e corrigiu depois, a Alphabet (Google) continuou a subir, refletindo a preferência do mercado por modelos que monetizam a utilização recorrente da IA. Enquanto, a NVIDIA vende hardware e depende de ciclos de investimento dos clientes, a Google utiliza chips próprios (TPUs) para gerar receitas recorrentes através de serviços e cloud, controlando melhor os custos c capturando valor de forma contínua. O mercado passou a penalizar quem aumenta o custo dt) ecossistema c a premiar quem transforma a IA em utilização efetiva e receitas. Numa fase inicial, quem vende as pás e as picaretas tende a liderar, mas numa fase mais avançada, quando esse investimento já foi realizado e os custos são elevados, o valor passa para quem controla a utilização da infraestrutura c consegue monetizá-la, caso da Google.


A divergência no setor da IA começou antes de outubro. Super Micro Computer deu o primeiro aviso ao cair cedo, sinalizando que o capex em IA estava a crescer muito acima das receitas geradas. A Arm mostrou compressão de múltiplos, a Oracle confirmou que até empresas sólidas estavam a ser penalizadas por consumir IA, e a NVIDIA apenas validou o movimento ao perder liderança. Em sentido oposto, a Alphabet destacotise como vencedora, mostrando que o mercado passou a premiar quem aluga e monetiza IA, não quem apenas promete retorno futuro.


A Bitcoin tem tido uma evolução semelhante às empresas "consumidoras de IA”, e não tanto como os hyperscalers. Desde os finais de setembro e início de outubro, o mercado passou a penalizar ativos que não geram cash-flow (a BTC não gera qualquer rendimento), que vivem sobretudo de uma narrativa futura, que já estavam priced for perfection e que dependem de entradas contínuas de capital novo para sustentar a cotação. Nesse contexto, a Bitcoin entra nesta história do mesmo lado que a Oracle, vários AI pure plays e empresas "Al-wrapped”, isto é, ativos que anteciparam demasiado o futuro e que, na atual negociação do mercado de maior escrutínio, têm ficado para trás face àqueles que conseguem monctizar valor no presente.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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