Voltar
23 março 2026 04h45
Fonte: Negócios

Bolsa de Lisboa parte para a guerra com lucros históricos

Como estão os países da UE a reagir à crise energética?


Governo em alerta com terceiro salto semanal dos combustíveis


Cotadas da bolsa de Lisboa partem para a guerra com lucros históricos


ÉPOCA DE RESULTADOS


Dez dias separam o início da época de resultados do PSI de uma nova guerra que está a gerar uma crise energética. A maior exposição a um robusto consumo interno nacional pode servir de almofada, mas várias empresas já antecipam impactos negativos para os negócios.


As principais cotadas da bolsa de Lisboa partem para um período de elevada incerteza devido à guerra no Médio Oriente com lucros recorde, depois de uma época de resultados do quarto trimestre que confirmou a tendência que se viveu nos primeiros nove meses de 2025.


A dualidade espelha "a natureza do tecido empresarial português cotado: resiliente nos setores que constituem o núcleo da economia nacional, mas claramente pressionado nos segmentos mais cíclicos e expostos à conjuntura global", explica João Queiroz, "head of trading" do Banco Carregosa.


Essa deverá definir a forma como as cotadas nacionais vão lidar com o impacto da guerra, sendo que um dos amortecedores identificados por Diogo Telhado, analista da Sixty Degrees, é "a exposição das empresas nacionais, como a REN, Sonae e Nos, ao ainda resiliente consumo interno".


Por outro lado, cotadas como a Jerónimo Martins poderão ter uma evolução menos favorável em função da sua forte exposição ao mercado polaco.


A "earnings season" de 2025 do PSI misturou-se com a guerra no Médio Oriente. A primeira começou a 19 de fevereiro e a segunda a 28 do mesmo mês e, por isso, a reação dos investidores é "largamente explicada pelo aumento da incerteza geopolítica e da maior apetência por liquidez do que de uma deterioração efetiva das condições económicas ou dos resultados das empresas", diz Diogo Telhado, com o PSI a acumular uma queda de 5,6% neste período, com duas cotadas em terreno positivo.


As 14 que já apresentaram contas — faltam apenas a Ibersol e Teixeira Duarte — lucraram 5,4 mil milhões de euros, o que não só supera 2024 em 28%, como ultrapassa o anterior recorde de 2023. A queda dos lucros foi, como se esperava, restrita ao setor da pasta e papel — Altri, Navigator e Semapa —, à Corticeira Amorim, que teve o terceiro ano consecutivo de queda nas vendas por via do menor consumo de vinho, e à Nos devido ao menor volume de resultados não recorrentes em 2025 face a 2024.


Mota-Engil e Galp podem sair beneficiadas


Depois de um ano que a Navigator classificou de "o mais exigente das últimas décadas para a indústria de celulose e papel", pressionada pela queda dos preços da pasta e papel, a subida dos preços do gás e do petróleo devido à guerra no Médio Oriente pode vir a complicar ainda mais as contas devido às necessidades energéticas, diz ao Negócios Carlos Pinto, gestor sénior de investimentos da Optimize. João Queiroz vai mais longe e aponta para uma "possível modificação do negócio da matéria-prima para uma vertente mais comercial e de marketing", uma vez que "o ciclo de papel e cortiça se encontra numa fase de contração mais prolongada do que muitos modelos de consenso projetavam".


Em sentido contrário, a Galp — que teve lucros recorde de 1.154 milhões de euros em 2025, os mais altos do PSI — é das que mais pode vir a beneficiar da subida dos preços do barril, numa altura em que tem vindo a aumentar a sua exposição ao segmento de "upstream", recordam Carlos Pinto e Diogo Telhado. Ainda assim, os efeitos da crise poderão ainda surgir através de uma subida dos custos operacionais, e a co-CEO, Maria João Carioca, já admitiu estar a preparar-se para eventuais perturbações.


Também a Mota-Engil já tinha antecipado, por um lado, um impacto negativo, por via dos preços da construção, mas um efeito positivo, devido a uma perspetiva de aceleração dos investimentos em países africanos produtores de petróleo e gás, onde opera. A construtora — que teve lucros históricos de 133 milhões — poderá ainda beneficiar de uma tendência de alta do dólar.


O "head of trading" do Carregosa identifica ainda a REN e a EDP Renováveis como beneficiárias de uma aceleração na tendência de recurso às energias renováveis. A gestora de redes nacionais foi, para João Queiroz, a grande surpresa desta época de resultados, que registou uma subida dos lucros dois dígitos acima do consenso para 160 milhões, "o que é notável para uma empresa tipicamente encaixada no arquétipo 'defensivo-regulado', onde raramente há espaço para grandes desvios".


A REN aproveitou para rever em alta o "guidance" para os últimos dois anos do plano de negócios. O investimento subiu para entre 450 e 550 milhões por ano, "refletindo um ambiente regulatório e fiscal mais favorável", ao mesmo tempo que o lucro é estimado entre os 150 e 160 milhões por ano, recordam analistas do Caixa BI, numa nota.


Mais dependentes da evolução do consumo e da inflação estão as duas retalhistas, a Nos, os CTT e o único banco cotado. Sonae e Jerónimo Martins já disseram que vão absorver a subida do custo dos combustíveis, mas que essa evolução vai depender da duração da crise energética. O BCP está mais dependente de mexidas das taxas de juro do Banco Central Europeu, por um lado, e do crédito a empresas, por outro, diz o gestor da Optimize. Já os CTT foram os mais penalizados pelos investidores, depois de o CEO ter avisado que espera resultados mais fracos no primeiro trimestre.


66


[A reação às contas é] largamente explicada pelo aumento da incerteza.


DIOGO TELHADO Sixty Degrees


66


[O papel poderá] modificar o negócio da matéria-prima para uma vertente mais comercial.


JOÃO QUEIROZ Banco Carregosa


TRÊS LUCRAM MAIS DE MIL MILHÕES


Lucros e dividendos das cotadas do PSI referentes aos resultados de 2025


Galp, EDP e BCP tiveram lucros recorde em 2025, acima dos mil milhões de euros e lideram a tabela do principal índice nacional. A energética beneficiou do seu braço para as renováveis, que passou de prejuízos a lucros. Do lado oposto, cinco empresas viram o resultado líquido cair.


Cotadas Lucros (em milhões de euros) Variação anual (em %) Dividendo (Valor por ação) Variação anual (em %)


Altri 21,4 -80%

BCP 1.018 12% 0,034 13%

Corticeira Amorim 55,6 -20% 0,35 9%

CTT 50,7 11% 0,19 12%

EDP 1.150 44% 0,205 2%

EDP Renováveis 216 0,13* 63%

Galp 1.154 20% 0,64 3%

Jerónimo Martins 646 8% 0,65 10%

Mota-Engil 133 8% 0,173 16%

Navigator 144,7 -50% 0,11248 -54%

Nos 246 -10% 0,45 13%

REN 160 5% 0,16 2%

Semapa 157 -33% 0,626 0%

Sonae 247 11% 0,0617 4%

Fonte: Comunicações das empresas à CMVM


GALP E NOS À TONA APÓS INÍCIO DA GUERRA


Evolução das cotadas do PSI desde o início da guerra no Médio Oriente, a 28 de fevereiro


As ações da petrolífera têm beneficiado fortemente da valorização do preço do Brent nos mercados internacionais e já ganham 17% desde o início da guerra. As construtoras têm sido as mais penalizadas pelo conflito.


Galp 17,01%

Nos 1,94%

REN -2,08%

EDP Renováveis -3,07%

EDP -5,40%

Altri -6,00%

Ibersol -7,42%

Navigator -7,92%

Jerónimo Martins -9,34%

Corticeira Amorim -9,53%

BCP -12,45%

Semapa -13,05%

Sonae -13,55%

CTT -19,64%

Teixeira Duarte -20,28%

Mota-Engil -22,19%


-25 -20 -15 -10 -5 0 5 10 15 20 Fonte: Bloomberg


Dividendos ficam inalterados ou sobem. Só Navigator desce


Entre as empresas do PSI que já anunciaram a remuneração acionista, Mota-Engil, Nos e BCP são as que registam o maior aumento.


Entre as cotadas do principal índice nacional que já apresentaram os resultados do ano passado (14 das 16), todas à exceção da Navigator, mantiveram ou aumentaram o dividendo, incluindo as que viram os lucros cair face ao ano anterior. Ou seja, "a política de remuneração acionista continua a ser um argumento sólido para estimular a exposição às cotadas portuguesas num ambiente de maior incerteza global", diz João Queiroz, "head of trading" do Banco Carregosa.


No setor da pasta e papel — o mais penalizado, com quedas do lucro de 80% na Altri e de 50% na Navigator —, a primeira só divulga o dividendo na convocatória para a assembleia geral, enquanto a segunda vai reduzir para metade. Aliás, os 0,11248 euros por ação são o valor mais baixo desde 2012.


Já a Semapa vai pagar aos acionistas o mesmo que em 2024: 0,626 euros. O resultado líquido da "holding" da família Queiroz Pereira, que caiu 33% para 156,6 milhões, já inclui o contributo da Secil, que foi vendida à Cementos Molins por 1,4 mil milhões de euros, o que terá ajudado a manter a remuneração acionista.


A Nos também viu os lucros recuarem 10%, depois de um ano de 2024 em que registou efeitos extraordinários, o que acabou por pesar na comparação das contas de 2025. A operadora tem habitualmente uma das "dividend yields" mais atrativas da bolsa de Lisboa e costuma ser uma favorita dos analistas. Este ano não é exceção. Diogo Telhado, da Sixty Degrees, elogia "um trimestre de redução significativa de custos operacionais e uma geração de cash flow acima do esperado, o que permitiu aumentar o dividendo total para 0,45 euros por ação", uma subida de 13%. Só a Mota-Engil supera a subida percentual da Nos, ao aumentar o dividendo em 16%.


Mais cautelosas estiveram a EDP e REN. As duas energéticas atualizaram a remuneração acionista em 2% para 0,2 e 0,16 euros, respetivamente, sendo que a gestora de redes paga em duas tranches. Já a Galp, à semelhança do BCP, aproveitou o lucro recorde para aumentar o dividendo para 0,64 euros por ação, considerando o dividendo intercalar de 0,31 euros por ação que já foi pago em agosto de 2025. A remuneração da petrolífera fica apenas abaixo da Jerónimo Martins, que vai subir em 10% o dividendo para 0,65 euros.


No caso do banco, além do dividendo, que deverá rondar os 0,034 euros, o BCP propõe-se a realizar um programa de recompra de ações e atualizou a remuneração acionista para 90% dos lucros até 2028. DMF


11,248 16%


NAVIGATOR A Navigator vai remunerar os acionistas com 11,248 cêntimos por ação, o dividendo mais baixo desde 2012.


MOTA-ENGIL A Mota-Engil é a cotada do PSI que mais sobe o dividendo em termos percentuais, em 16%.


A grande maioria das cotadas do principal índice da bolsa de Lisboa já apresentou resultados de 2025.


Miguel Baltazar


Como estão os países da UE a reagir à crise energética?


PAULO RIBEIRO PINTO paulopinto@negocios.pt


Mais modestos ou mais ambiciosos, os 27 estão a avançar com medidas para aliviar a pressão sobre famílias e empresas da subida vertiginosa dos preços do petróleo e do gás natural nos mercados internacionais. A maioria opta pela via fiscal, com cortes diretos nas taxas de impostos, sobretudo o IVA. Mas também há iniciativas para o mercado de trabalho.


Com o preço dos produtos energéticos a não dar sinais de acalmia, ameaçando novo pico na inflação que arraste toda a economia, os governos dos 27 estão a tentar amenizar o impacto nas famílias e empresas. Numa primeira fase, as opções dos países da União Europeia que já estão em campo têm passado pelo corte nos impostos ou devolução de receita, como em Portugal.


Até agora, Espanha avançou com o pacote de medidas mais ambicioso, que inclui redução do IVA na eletricidade e gás, mas também intervenções no mercado de trabalho para impedir despedimentos.


Portugal recuperou uma medida do período da crise inflacionista que se seguiu à invasão russa da Ucrânia, com um desconto direto no ISP, que é atualizado todas as semanas, sempre que o valor ainda esteja acima do nível da semana de 2 a 6 de março.


A Alemanha, onde as bombas de gasolina podem alterar o preço dos combustíveis várias vezes ao dia, só podem atualizar os valores uma única vez, às 12:00.


Mas se noutras geografias os apoios apenas dependem da vontade dos respetivos governos, no espaço comunitário, as medidas têm de ser coordenadas com a Comissão Europeia, que genericamente propôs medidas temporárias que vão desde a redução de impostos sobre a eletricidade, taxas de acesso à rede mais baixas e outros apoios públicos.¦


Aumento dos subsídios para energia destinados a famílias de baixos rendimentos.


Irlanda


Portugal avançou várias medidas para mitigar a crise. Destaca-se o desconto de 10 cêntimos por litro no gasóleo profissional, por três meses, e até 15 mil litros por viatura, a par de reduções do ISP. O apoio à botija de gás sobe para 25 euros, dirigido a famílias vulneráveis. Em paralelo, o Governo quer acelerar renováveis e autoconsumo, simplificar licenciamentos e criar mecanismos para limitar preços e proteger consumidores.


As bombas de gasolina apenas poderão aumentar os preços uma vez por dia, às 12:00. Está também a ser considerada a aplicação de um imposto sobre os lucros extraordinários às empresas petrolíferas ("windfall tax").


Alemanha


O governo de coligação pretende, à semelhança de Portugal, devolver aos consumidores a receita fiscal adicional obtida através do aumento do preço dos combustíveis. O desconto inicial é de 5 cêntimos por litro, mas a medida ainda terá de passar pelo parlamento.


Áustria


Croácia


Zagreb impôs limites ao preço dos combustíveis durante duas semanas, período que admite alargar. Os consumidores croatas pagam um máximo de 1,50 euros por cada litro de gasóleo e 1,55 na gasolina.


Portugal


Espanha


Grécia


Madrid anunciou um pacote de 5 mil milhões de euros, que inclui uma redução do IVA de 21% para 10% nos combustíveis, eletricidade e gás. O gasóleo profissional tem um corte de 20 cêntimos. O plano estará em vigor até "ser necessário".


Durante três meses, o governo impõe um limite para as margens de lucro dos combustíveis e de determinados produtos de supermercado.


Fonte: Oxford Economics e agências


Combustíveis deixam Governo em alerta com terceiro salto semanal


É a terceira semana consecutiva de aumentos. O Executivo avançou com nova redução do ISP para travar impacto e admite que Portugal pode estar "perto dos critérios" para declarar uma crise energética.


Os preços dos combustíveis sofrem nova subida significativa, prolongando uma sequência de aumentos que reflete diretamente a escalada do conflito no Médio Oriente. O gasóleo simples encarece entre 15 e 17 cêntimos por litro, enquanto a gasolina simples 95 sobe cerca de nove cêntimos.


É a terceira semana consecutiva de subidas expressivas, num contexto em que o barril de Brent — referência para o mercado europeu — negociava, no final da semana passada, acima dos 100 dólares, pressionado pela instabilidade geopolítica e pelos receios de perturbações no abastecimento, nomeadamente no estreito de Ormuz.


Mesmo com a intervenção do Governo, o impacto nas bombas será relevante. O Ministério das Finanças anunciou uma nova redução temporária do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP), equivalente a 2,6 cêntimos por litro no gasóleo e 1,4 cêntimos na gasolina. Ainda assim, a subida líquida mantém-se significativa.


Desde o início de março, quando os mercados reagiram ao agravamento do conflito envolvendo o Irão, o Executivo estima que os descontos no ISP tenham permitido uma poupança acumulada de 9,4 cêntimos por litro no gasóleo e 5,1 cêntimos na gasolina.


Portugal "perto dos critérios" para crise energética


A pressão sobre os preços está a aproximar Portugal das fasquias de Bruxelas que possibilitam a declaração de crise energética. "Estamos a ficar perto dos critérios", afirmou a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho.


Segundo as regras europeias, uma crise energética pode ser declarada quando os preços da eletricidade sobem mais de 70%, atingem níveis 2,5 vezes acima da média dos últimos cinco anos ou ultrapassam 180 euros por megawatt-hora.


A governante garantiu que o Executivo está a "analisar e quantificar" diferentes medidas de apoio, em articulação com vários ministérios, com o objetivo de proteger famílias, consumidores e empresas. Apesar disso, o Governo considera que ainda está longe de ativar mecanismos mais extremos, como a fixação de preços da eletricidade abaixo do custo.


O impacto na eletricidade tem sido mais limitado, devido ao peso das renováveis no sistema nacional, que já representam cerca de 80% da produção. Já nos combustíveis e no gás, a pressão é mais evidente. "Onde temos maior problema é [...] no diesel", sublinhou a ministra, alertando para os efeitos na indústria e na economia.


Até agora, não há sinais de disrupção no fornecimento de energia, sendo a pressão sobretudo ao nível dos preços. Ainda assim, o Governo admite que, caso o cenário se prolongue, poderá avançar com medidas de poupança energética.


"Temos um conjunto de medidas, desde a menor utilização dos carros ao domingo, o teletrabalho, o aquecimento e o arrefecimento nos edifícios públicos. Há um programa de poupança energética que temos preparado, caso venha a ser necessário", explicou.


A ministra recordou a crise de 2022 e alertou que uma escalada prolongada poderá ter efeitos semelhantes aos de uma crise de fornecimento. PVR


Publicidade


UNICRE - INSTITUIÇÃO FINANCEIRA DE CRÉDITO, S.A.


SOCIEDADE ANÓNIMA


Sede: Rua General Firmino Miguel, 6-B piso -1, Lisboa Freguesia São Domingos de Benfica


Capital Social: 10.000.000 Euros Pessoa Coletiva n.º 500292841 Matriculada na Conservatória do Registo Comercial de Lisboa sob o n.º de Pessoa Coletiva (anteriormente sob o n.º 47147)


Nos termos do disposto nos números 1 e 2 do artigo 110.º do Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 298/92, de 31 de dezembro, publica-se, para efeitos da Assembleia Geral de Acionistas, convocada para o dia 31 de março de 2026, a relação dos acionistas cuja participação excede 2% do capital social da Sociedade;


Acionistas


Millennium BCP Participações, SGPS, Soc. Unipessoal, LDA.

Banco Santander Totta, S.A.

Banco BPI, S.A.

Novo Banco, S.A.

Caixa Económica Montepio Geral, S.A.


Lisboa, 20 de março de 2026


Quantidade de Ações % no capital social


623.192 31,16

437.207 21,86

420.200 21,01

350.029 17,50

76.769 3,84


O CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO (Ass. ilegíveis)


Guerra segura preços do alumínio apesar de abrandamento económico


O conflito no Médio Oriente tem feito disparar os preços do alumínio, que estavam já a fortalecer devido aos baixos stocks nos principais mercados. E apesar da correção recente, a tendência de valorização parece ser para continuar.


CARLA PEDRO


cpedro@negocios.pt


O alumínio tem estado a viver um bom ano nos mercados, com um desempenho consideravelmente melhor do que outros metais industriais, como o cobre, níquel, chumbo e zinco. Com um ganho de 6,89% desde o início de 2026, só está a ser ultrapassado pelo estanho, que soma 7,36% no mesmo período. E o que tem sustentado o alumínio? Os baixos stocks já estavam a contribuir para o movimento positivo, mas foi a guerra no Médio Oriente que trouxe o maior impulso, já que há grandes produtores na região, além de que é pelo estreito de Ormuz que passa muito deste metal de base. Nas duas últimas sessões da semana passada, a tendência foi de queda — e estendeu-se a todos os metais industriais, mas por força dos crescentes receios de uma desaceleração económica global devido ao conflito no Irão.


Logo no arranque do ano, na sessão de 2 de janeiro, o alumínio atingiu o patamar dos 3.000 dólares por tonelada, o que não acontecia desde 2022. A sustentar esteve a perspetiva de uma menor oferta, a par com uma robusta procura de longo prazo. O teto imposto pela China à capacidade de produção e as condicionantes na produção da Europa — devido aos preços mais elevados da eletricidade — pesaram nos stocks mundiais, ao mesmo tempo que o "outlook" para a procura nos setores da construção e das energias renováveis se mantinha robusto.


Entretanto, a ofensiva lançada a 28 de fevereiro pelos EUA e Israel contra o Irão — que já retaliou contra vários países da região com bases militares norte-americanas — ajudou a impulsionar ainda mais as cotações do alumínio, que na sessão de dia 9 de março escalaram para máximos de mais de quatro anos, ao tocarem nos 3.545,50 dólares por tonelada.


Agora que a guerra já entrou na quarta semana, o seu impacto na produção e exportação de alumínio do Golfo Pérsico tem acelerado a disrupção numa cadeia de fornecimento físico já fragmentada.


Produção e refinação em risco no Golfo


O Irão atacou alvos em todos os países do Conselho de Cooperação do Golfo, levando os principais produtores a interromperem as atividades de refinação de alumínio e colocando em risco as operações na região — que produz 10% do abastecimento global. O Catar suspendeu a sua operação de alumínio com a Norsk Hydro no país, e a Alba do Bahrein declarou "force majeure" e suspendeu todas as entregas por enquanto.


Não se espera que o aumento da produção da China, o principal produtor mundial, chegue para colmatar estas faltas, uma vez que a sua oferta está limitada a 45 milhões de toneladas este ano, em linha com o objetivo do governo de limitar o excesso de capacidade em setores-chave de produção de bens — isto enquanto as fundições lutam para construir novas fábricas na Indonésia, num contexto de custos energéticos mais elevados e riscos regulamentares locais.


Todos estes desenvolvimentos surgem num momento em que os stocks no Mercado Londrino de Metais (LME) e na Bolsa norte-americana de Futuros e Opções de Metais (Comex) já se encontram em torno de mínimos históricos.


Embora o alumínio possa ser o metal mais abundante do mundo, é crucial para o funcionamento da economia mundial — a par com o cobre. O alumínio é essencial para a eletrónica, transportes e construção, bem como para outras indústrias, como a dos painéis solares e do embalamento.


Mas, apesar da valorização sentida desde a guerra, nas últimas duas sessões da semana passada os preços do alumínio caíram. Na quinta-feira, 19 de março, chegou a afundar mais de 8% no LME, naquela que foi a maior queda diária desde 2018, tendo no dia seguinte recuado em torno de 1,5%. E isto devido aos receios de que um prolongamento do conflito no Médio Oriente possa ter como impacto um abrandamento da economia mundial — que precisará, assim, de menos alumínio, já que a atividade económica desacelerará nesse cenário.


De qualquer das formas, a tendência de base do alumínio deverá continuar a ser de valorização — até porque, como referem os analistas da ANZ, citados pela plataforma Al Circle, as regiões compradoras de alumínio, como a Ásia, Europa e Estados Unidos, continuam a querer assegurar inventários deste metal industrial.


Segundo um "research" do grupo de informação sobre metais CRU, citado pela CNBC, os baixos níveis dos stocks e o potencial de uma disrupção adicional da oferta no Médio Oriente poderão atirar os preços do alumínio para a zona dos 4.000 dólares por tonelada.

Partilhe este artigo