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02 janeiro 2026 06h00
Fonte: Expresso

Bolsa de Lisboa tem melhor ano desde 2009

Expresso

Principal índice nacional regista valorização de 29% em 2025, uma das maiores deste século


BCP quase duplicou de valor em ano de grandes ganhos no PSI e passa a ser a segunda mais cotada. Mota-Engil e Sonae subiram entre 70% e 80%. 


Bolsa nacional regista melhor ano desde 2009


Gonçalo Almeida


Valorização PSI regressou aos valores pré-troika em ano positivo para ações europeias. BCP brilhou e passou a ser a segunda maior cotada


O principal índice de ações em Portugal, o PSI, obteve o melhor ano desde 2009, em vésperas da crise da dívida que afetou sobretudo os países do Sul da Europa e que culminou com a chegada da troika ao país. Em 2025, a Bolsa portuguesa valorizou-se 29%, à boleia de pesos-pesados como o BCP, a Sonae e a Mota-Engil, com um brilho extra trazido pela construtora Teixeira Duarte, que integrou a primeira divisão da Bolsa na reta final do ano.


"A Bolsa portuguesa beneficiou de uma combinação virtuosa e benigna: vento macrofavorável e histórias micro ‘com tração’ num mercado pequeno, onde os fluxos de investimento fazem diferença e têm impacto. O PSI teve um desempenho muito acima do habitual para Lisboa, auxiliado por um quadro de inflação a normalizar, expectativa de taxas menos restritivas na Europa e, sobretudo, por resultados empresariais mais robustos do que o consenso assumia”, explica João Queiroz, analista do Banco Carregosa, ao Expresso.


Foi também o ano em que o PSI regressou aos valores pré-troika, tendo tocado nos 8500 pontos, um máximo de 15 anos, mas ainda distante dos primeiros anos eufóricos da Bolsa em Portugal. No ano 2000, o índice atingiu o seu pico nos 15.080 pontos, segundo a Euronext, empresa que detém a Bolsa de Lisboa.


A prestação de 2025 dá-se num contexto em que os índices europeus registaram ganhos de dois dígitos, igualando o dos Estados Unidos da América. Num ano agitado para a banca, com fusões e aquisições, o sector foi um dos que mais contribuíram para este desfecho, dando gás sobretudo ao país vizinho: a Bolsa espanhola foi uma das que mais valorizaram em 2025, com uma subida de quase 50%.


BCP brilha em Lisboa


As ações do BCP subiram mais de 90% em 2025, quase duplicando de valor, para os 89 cêntimos. "É o caso clássico de banca a funcionar num círculo de taxas de juro que ainda foram virtuosas, estabilidade das comissões e uma economia benigna. Enquanto o mercado acreditou que as margens financeiras se mantinham resilientes, com risco de crédito controlado (sem relevantes imparidades num mercado imobiliário muito promissor) e capital confortável, o título ganhou momentum”, continua João Queiroz. O banco tem-se destacado como um dos favoritos de algumas casas de investimento internacionais. O Goldman Sachs, por exemplo, elevou o preço-alvo do BCP na reta final do ano com uma recomendação para "comprar”, por considerar que irá crescer acima do sector até 2028.


À imagem dos rivais europeus, o banco tem dado bastantes "mimos” aos acionistas nos últimos anos, alimentando o círculo virtuoso em Bolsa do ano anterior, com aumentos de dividendos (a partir do ano passado passou a distribuir 50% dos lucros) e um programa de compra de ações próprias, estratégias que tendem a puxar pelo preço das ações.


A Sonae e a Mota-Engil também se destacaram, com ganhos de mais de 70%. No caso da dona do Continente, "o retalho alimentar/consumo essencial tende a aguentar bem quando o crescimento [da economia] é moderado”, nota o analista. E a Mota-Engil ganhou com "o ciclo de infraestruturas e obras públicas/ privadas e o apetite pela exposição internacional”.


E se o índice nacional arrancou o ano com menos uma empresa (após a saída da Greenvolt), terminou com um novo inquilino. A Teixeira Duarte registou um ano meteórico, com um disparo de quase 700% em Bolsa, beneficiando dos incentivos a obras públicas. Está cotada desde 1998 e já por várias vezes saiu e regressou ao principal índice.


Papel e cortiça perdem força


Por contraste, foi um ano difícil para a Corticeira Amorim em Bolsa. Mesmo depois de a cortiça ter passado a ficar isenta de taxas aduaneiras ao entrar nos EUA, após um acordo comercial com a União Europeia, a empresa sofreu com uma "quebra do consumo discricionário (vinhos premium)”, diz João Queiroz. A empresa tem estado a perder fôlego desde 2021. Em termos operacionais, apresentou uma quebra homóloga de 4% nos lucros até setembro.


A Altri e a Navigator sofreram com alterações na economia global e com a desvalorização do dólar face ao euro, uma vez que é naquela moeda que se fixam os preços internacionais da pasta e do papel. O analista fala numa difícil equação, que envolve "preço da pasta, procura global, energia/custos e variações cambiais adversas”. Até setembro, a Altri registou uma quebra homóloga de 86% nos lucros, ao passo que a Navigator viu os ganhos encolherem 51%. A perspetiva para os 12 meses não é muito diferente, segundo uma projeção dos lucros da associação de pequenos acionistas Maxyield.


Nos primeiros nove meses, as empresas do PSI apresentaram lucros de €4,2 mil milhões, com uma quebra ligeira face ao período homólogo. Mas, segundo a Maxyield, o número deverá ter acelerado até ao final do ano para os €5,7 mil milhões, um aumento de 32% face a 2024, superando também os números de 2023, ano dos últimos máximos.


À boleia destes números, há boas notícias para os acionistas: o mesmo estudo aponta para um reforço dos dividendos, que deverão atingir os €3,2 mil milhões face à atividade de 2025 e a serem entregues em 2026 (mais 5% do que no ano anterior). Prevê que todas as empresas aumentem o montante a entregar, com exceção da Altri e da Navigator. Os números ainda não incluem a Teixeira Duarte.


VALORIZAÇÃO DA BOLSA PORTUGUESA DISPAROU EM 2025


Variação anual do PSI, em percentagem


20 0 -20 -40


29


2009 11 13 15 17 19 21 23 25 *dados até 30 de dezembro


FONTE: INVESTING.COM E EURONEXT


TEIXEIRA DUARTE DISPARA EM ANO DE ENTRADA NO PSI


Variação desde janeiro, em percentagem


Teixeira Duarte 689,90 BCP 92,68 Sonae 78,99 Mota-Engil 69,53 Semapa 50,21 REN 41,45 CTT 36,85 Ibersol 32,35 EDP 26,40 EDP Renováveis 21,55 NOS 21,17 Jerónimo Martins 9,70 Galp -9,06 Navigator -12,37 Altri -16,42 Corticeira Amorim -17,52


*dados até 30 de dezembro


BCP GANHA MAIS QUE MÉDIA DO SECTOR


FONTE: EURONEXT


Variação do banco português e do índice Stoxx Banks, em percentagem


80 40 0


BCP 92,68 Stoxx Banks


JFMAMJ JASOND


79,73


*dados até 30 de dezembro


FONTE: INVESTING.COM


galmeida@expresso.impresa.pt


CMVM vê risco de correção no mercado


A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) considera que existe um risco elevado de uma correção dos mercados em 2026, motivada por choques externos ou por um desalinhamento entre cotações e fundamentos económicos. O atual contexto geopolítico surge como o principal catalisador desses choques, com potencial impacto na inflação e crescimento económico. Embora o índice português PSI tenha registado uma valorização, o supervisor sublinha que, em 2025, as empresas do índice apresentaram uma deterioração dos resultados por ação e das margens de lucro. No relatório "Risk Outlook 2026”, a CMVM aponta para um elevado risco operacional, focando-se sobretudo na cibersegurança. A crescente digitalização dos serviços financeiros aumenta a exposição a falhas tecnológicas e a ataques informáticos. Num contexto de maior instabilidade geopolítica, os ciberataques tendem a intensificar-se, podendo provocar interrupções nos mercados, perdas financeiras e danos na confiança dos investidores. Embora os riscos de liquidez e crédito sejam classificados como médios, a CMVM alerta que a atual perceção de estabilidade, refletida em níveis baixos de volatilidade, pode gerar complacência.


Mercados em alta, euforia nos metais


A disparar 147%, a prata foi campeã de 2025 nas valorizações dos metais, levando a melhor sobre o ouro


O ano 2025 ficou marcado por uma subida mais destacada nas bolsas de ações de economias que não são consideradas desenvolvidas, um aumento muito significativo nos preços dos metais e uma valorização do euro de 14% face ao dólar.


As bolsas dos mercados de ações considerados emergentes e de fronteira (mais pequenos e menos líquidos do que os emergentes) registaram ganhos entre 30% e 46% em 2025, muito acima da média mundial (21% até ao início desta semana). No ano anterior, aqueles mercados tinham subido apenas 5% e, no caso da América Latina, tinham-se afundado 30%.


O consultor Dan Steinbock, fundador do Difference Group, aponta uma explicação para os ganhos andarem acima da média mundial naqueles mercados na América Latina e na Ásia: a China está nos bastidores. "Os ganhos são, na verdade, impulsionados pela China, que está por trás do desempenho do Brasil e do México e, também, do sucesso do Vietname (sem mencionar os investimentos em semicondutores na Malásia), devido ao realinhamento das cadeias de fornecimento globais chinesas em resposta à geopolítica de tarifas dos Estados Unidos”, refere.


Globalmente, o mercado bolsista valorizou 21,2% em 2025, segundo o índice MSCI, uma aceleração em relação aos ganhos no ano anterior (15,7%) e fixou-se como o melhor nos últimos seis anos, depois de 24% em 2019.


Apesar da dimensão do mercado norte-americano e da euforia que transpira, o índice S&P 500 em Wall Street aumentou 17% e o Nasdaq 22%, longe do grupo de grandes vencedores nos mercados. Nas ‘Sete Magníficas’ destacaram-se a Google, com um ganho de 65%, e a Nvidia, com uma subida de 39%. A inteligência artificial (IA) e a computação em nuvem (cloud) foram os ‘motores’ destes ganhos. Um facto marcante nos EUA foi a ultrapassagem, desde junho, do índice NYSE (New York Stock Exchange) pelo Nasdaq.


Nos mercados de matérias-primas, as cotações dos metais registaram a subida mais destacada, perto de 60%, de acordo com o índice Rogers para o sector. Este aumento a pique contrasta com uma subida geral dos preços das commodities de apenas 8% e quebras nos sectores agrícola e da energia.


Em particular, alguns metais preciosos e estratégicos registaram aumentos de preços acima de 100%, como foram os casos da prata (que liderou com 147%), platina, paládio e cobalto. O ouro, o refúgio por excelência dos investidores, viu o preço da onça subir 66% em 2025 e fixar um novo máximo histórico de 4584 dólares na sessão de 26 de dezembro.


"Estes movimentos resultaram da conjugação de diversos fatores”, refere João Queiroz, responsável pela área de negociação no Banco Carregosa. "A procura industrial


Petróleo e gás recuaram em 2025, ao contrário de vários metais, como a prata e o ouro


intensificou-se com a expansão da energia solar, dos veículos elétricos, da eletrónica avançada e dos centros de dados ligados à inteligência artificial. Paralelamente, reforçou-se o papel destes ativos como proteção num contexto de incerteza geopolítica, défices orçamentais em crescimento e expectativas de políticas monetárias mais expansionistas”, acrescenta o economista. "A pressão foi ampliada por fluxos de investimento significativos, incluindo compras pelos bancos centrais e maior exposição através de fundos negociados em bolsa (ETF)”, conclui o analista do Banco Carregosa.


As matérias-primas críticas, estratégicas e raras estiveram em destaque em 2025, salienta ainda João Queiroz, em virtude do papel essencial que desempenham na transição energética, na digitalização, na defesa e, em geral, nas indústrias de alta tecnologia. São os pilares do que o físico Tessaleno Devezas designa por "dupla revolução” em curso. Com subidas de preços entre 40% e 120%, incluem-se o cobalto, enxofre, ródio, lítio e neodímio. A maioria deles é negociada hoje em dia em yuan em mercados chineses.


Em sentido contrário, beneficiando a descida no custo das importações e a baixa da inflação, estiveram as quebras de preços nos sectores da energia e da agricultura. Batatas, sumo de laranja, cacau, gás natural europeu (referência TTF) e manteiga lideraram a descida. O preço do barril de petróleo desceu 24% na Rússia (afetando seriamente o orçamento do Kremlin), 17,5% na Europa (variedade Brent), 19% nos EUA e 17% no cabaz da OPEP. O Brent estava a negociar perto de 62 dólares por barril na segunda-feira.


Jorge Nascimento Rodrigues


economia@expresso.impresa.pt


Analistas preveem ganhos nos EUA e na Europa em 2026


Ganhos bolsistas devem continuar, mas a um ritmo menor. Europa continua com desconto face aos EUA


Apesar dos receios de uma correção nos mercados acionistas, o otimismo paira na avaliação dos analistas para o ano que agora começa, apontando para novas valorizações nos índices de referência nos Estados Unidos da América (EUA) e da Europa.


Em Wall Street, depois de um ano muito volátil, com grandes quedas provocadas pela mudança de política comercial de Donald Trump e novos máximos históricos a terminar 2025, os maiores bancos de investimento em todo o mundo estimam que o S&P 500 (que agrupa as 500 maiores cotadas norte-americanas) se fixe nos 7500 pontos no final de 2026, o que representa uma valorização potencial face a 2025 a rondar os 9%.


De acordo com as notas de análise a que o Expresso teve acesso, o Deutsche Bank é o mais otimista (15,4% de valorização potencial), mas aconselha disciplina na hora de investir: "não ir atrás de todas as tendências, mas investir com base em critérios fundamentais”, sublinha o banco. Embora reconheça que a sua previsão é ambiciosa, explica que "as valorizações estão em níveis que antecipam um crescimento muito robusto dos lucros em 2026”. "Esperamos que a maioria dos sectores e empresas cumpra ou até supere essas expectativas”, acrescenta o Deutsche Bank, antecipando um crescimento sólido dos resultados nos EUA, Europa e Japão.


Já o Bank of America é o mais pessimista (2,4% de valorização potencial): "Esperamos um ciclo de investimento forte, mas estamos mais preocupados com o consumo.” Os analistas do Morgan Stanley, apesar de apostarem num retorno de 12,5% do S&P 500, lembram que "2026 é um ano de eleições intercalares e, historicamente, verifica-se uma correção significativa nesse ano”. Ainda assim, o banco mantém uma projeção otimista para o S&P 500, defendendo que eventuais correções deverão ser temporárias, num mercado estruturalmente em alta.


Caso se confirmem as projeções mais otimistas, seria


BANCOS APONTAM PARA MAIS GANHOS EM 2026 NOS EUA


Previsão para o S&P 500, em %


Deutsche Bank 15,4 Morgan Stanley 12,5 UBS 11,1 JP Morgan 8,2 HSBC 8,2 BNP Paribas 8,2 Barclays 6,8 Société Generale 5,3 Bank of America 2,4


FONTE: BANCOS DE INVESTIMENTO


o sétimo ano (em oito) de valorizações de dois dígitos, ainda que a um ritmo inferior ao registado em 2025.


Europa em alta


Na Europa, as perspetivas são favoráveis e, em alguns aspetos, até mais consensuais. Um inquérito da Reuters a analistas e gestores de ativos aponta para uma valorização de 11% do índice Stoxx 600 até ao final de 2026, impulsionada por uma melhoria gradual do enquadramento macroeconómico. O índice pan-europeu acumulou ganhos expressivos em 2025 (17%), mas continua a negociar com um desconto significativo relativamente aos pares norte-americanos. Um inquérito feito pela Bloomberg aponta para uma subida de 8%.


O JP Morgan reforça a importância de uma abordagem mais diversificada. "Acreditamos que a diversificação regional das carteiras de ações pode simultaneamente aumentar os retornos e proteger contra riscos de concentração, sobretudo se o sentimento em torno da inteligência artificial se tornar menos positivo”, defendem os analistas do banco, que identificam oportunidades específicas fora dos EUA, incluindo bancos europeus e


Maiores bancos de investimento apontam para uma subida de 9% do S&P 500


japoneses, empresas ligadas à defesa, beneficiários de estímulos fiscais e segmentos selecionados da tecnologia chinesa.


Apesar do tom globalmente otimista, o pano de fundo não está isento de riscos. O Fundo Monetário Internacional alertou recentemente que os preços dos ativos financeiros continuam, em muitos casos, acima dos fundamentos, aumentando a probabilidade de correções acentuadas. O Banco Central Europeu sublinha que ajustamentos abruptos nos mercados podem representar desafios relevantes para o sector financeiro não bancário.


Para já, contudo, o consenso dos analistas mantém-se firme: tanto nos EUA como na Europa, 2026 deverá continuar a oferecer oportunidades relevantes nos mercados acionistas. Mas a história mostra que as previsões podem falhar. O inquérito realizado pela Bloomberg indica que, pela primeira vez em oito anos, os analistas são unânimes quanto às subidas no mercado europeu para 2026. E a última vez que isso aconteceu foi em 2018, quando o índice de referência acabou por desvalorizar 13%.

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