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20 fevereiro 2026 01h00

Carvão ainda é baseload nos EUA

Vida Económica

As principais fontes de produção de energia elétrica nos EUA são o gás natural, a energia nuclear e o carvão, representando, respetivamente, cerca de 43%, 18% e 15% em 2024. Desde o início do milénio há uma alteração nas posições das principais fontes que compõem o mix de produção de eletricidade no país. O carvão, que no início dos anos 2000 representava mais de 50% da produção de eletricidade, caiu acentuadamente até aos 15% em 2024, evidenciando uma significativa transição energética em curso. Esta diminuição é quase um espelho inverso da evolução do gás natural, cuja utilização aumentou de forma consistente, tornando-se a principal fonte de produção elétrica e atingindo cerca de 43% em 2024.


Por sua vez, a energia nuclear manteve um contributo relativamente estável nos últimos 25 anos, registando apenas uma ligeira diminuição, passando de 20% em 2000 para 18% em 2024. A energia hídrica apresentou apenas pequenas variações anuais, sem alterações estruturais relevantes. Todavia, as energias renováveis mais recentes, sobretudo a eólica e a solar, tiveram o crescimento mais acentuado, sobretudo a partir de 2010, refletindo o aumento do investimento e da capacidade instalada nestas tecnologias. Atualmente, a energia eólica representa 10,3% da produção elétrica e a solar fotovoltaica 6,9%. O petróleo, que já tinha apenas um peso residual, é atualmente irrelevante na produção de eletricidade nos EUA.


Apesar das alterações estruturais no mix de produção elétrica norte-americano nas últimas décadas, episódios recentes evidenciam que o sistema elétrico dos EUA continua fortemente condicionado por situações excecionais de procura de eletricidade, nas quais a produção a carvão volta a assumir um papel determinante, sobretudo durante fenómenos climáticos extremos. A tempestade de inverno Fern, no passado mês de janeiro, é um exemplo elucidativo dessa realidade. Caracterizada por temperaturas extremamente baixas e neve, afetou vastas regiões dos EUA, ditando interrupções no fornecimento de energia elétrica a milhões de pessoas e evidenciando vulnerabilidades da rede elétrica perante picos de procura excecional.


Assim, em janeiro, a procura de eletricidade aumentou significativamente devido às necessidades de aquecimento, ao mesmo tempo que algumas fontes de produção dependentes das condições atmosféricas registaram limitações operacionais. Neste contexto, centrais térmicas convencionais, sobretudo a carvão, aumentaram a sua produção para responder aos picos de consumo, contribuindo para estabilizar o sistema elétrico em momentos de maior pressão. Durante o pico da tempestade Fern, a produção elétrica a carvão quase duplicou, passando de cerca de 70 GWh/dia para 130 GWh, enquanto a gás natural aumentou apenas 14%, evidenciando diferenças na capacidade de resposta. Apesar da redução do peso do carvão no mix energético nas últimas décadas, este evento climático mostrou que a sua capacidade de produção contínua e controlável assume uma importância crucial em emergências.


A tempestade Fern evidenciou que a prioridade de qualquer sistema energético deve ser, antes de tudo, garantir o fornecimento de eletricidade às populações em situações críticas. Se, em condições climáticas extremas, a produção a carvão contribuiu para evitar falhas prolongadas no abastecimento e assegurou aquecimento a milhões de pessoas, então o seu papel não pode ser ignorado. A transição energética deve assegurar um equilíbrio realista entre sustentabilidade ambiental e segurança energética, evitando que opções exclusivamente teóricas comprometam a proteção das populações em momentos de maior vulnerabilidade, sobretudo enquanto não existirem soluções de armazenamento de energia elétrica com capacidade suficiente para garantir abastecimento durante períodos prolongados, de meses ou anos.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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