Chart of the Week - Rutura na correlação EUR/USD–yields: reflexo de uma nova ordem monetária?
O Chart of the Week é da autoria de João Queiroz , head of trading do Banco Carregosa .
A dinâmica recente entre o par EUR/USD e o diferencial de rendimentos a dez anos entre a Alemanha e os EUA revela um afastamento da tendência de acompanhamento observada em certos períodos de 2024.
Durante a maior parte de 2024, embora não de forma linear, a evolução da taxa de câmbio EUR/USD demonstrou, em alguns momentos, uma proximidade com as expetativas inerentes aos movimentos relativos das yields soberanas. Contudo, o início de 2025 trouxe uma inversão notável: o USD depreciou-se face ao EUR (conforme indicado pela subida do EUR/USD Index de aproximadamente 1.10 no final de dezembro de 2024 para cerca de 1.15 em meados de março de 2025), mesmo quando o spread entre as obrigações alemãs e as dos EUA continuou a favorecer a maior economia mundial.
Este afastamento sugere uma potencial mudança na perceção de risco e nas preferências dos investidores, manifestada, por exemplo, na possível recomposição de ativos de estruturas conservadoras com maiores alocações em ouro, euro ou CHF . No entanto, é crucial monitorizar se esta divergência representa efetivamente uma rutura estrutural de longo prazo.
Entre os fatores que podem estar a contribuir para esta dinâmica, destaca-se a crescente saída de capitais de ativos denominados em dólares dos EUA, possivelmente impulsionada pela intensificação dos défices gémeos dos EUA (despesa e balança de transações) e pelo nível de endividamento público, que muitos já consideram insustentável, agravado pelo crescente encargo do serviço da dívida. A confiança no USD como reserva global também pode estar a ser afetada pelo aumento da incerteza política interna dos EUA e pelo reposicionamento geopolítico de diversos blocos económicos, numa dinâmica que desafia a ordem internacional estabelecida no pós-guerra fria.
Estes elementos podem estar a contribuir para um euro aparentemente mais resiliente, num cenário onde a fraqueza do USD desempenha um papel significativo , mas onde fatores de suporte à moeda única também podem estar presentes. Assim, a valorização do euro pode ser resultado de uma combinação da pressão descendente sobre o USD e da própria dinâmica económica e política da Zona Euro, representando uma possível alternativa estratégica num sistema em transição.
É importante notar que a análise da relação entre o EUR/USD e os spreads de yields oferece uma perspetiva valiosa , mas incompleta da complexa interação de fatores que influenciam os mercados cambiais. Outras variáveis económicas, políticas e de mercado desempenham um papel crucial e devem ser consideradas numa análise mais abrangente. A evolução futura desta relação carece de acompanhamento atento para confirmar se a divergência observada no início de 2025 sinaliza uma mudança estrutural que pode ser duradoura .