China reforça poder económico mundial através da tecnologia, energia e autonomia financeira.
Notícia originalmente publicada em: Vida Económica, 22 de outubro de 2026
Os impérios nascem, crescem e morrem. Tem sido assim desde o início da civilização, há seis mil anos, mas a China promete ser uma exceção a essa regra milenar. O seu crescente poderio nas últimas décadas, sobretudo económico, mostra que até os impérios podem renascer, tal como se julgava impossível a existência de cisnes negros antes da sua descoberta na Austrália. A China caminha a passos largos para recuperar uma posição dominante na economia e na geopolítica mundial, comparável à que ocupou durante muitos séculos, antes de o seu império entrar em declínio no século XIX e desaparecer formalmente em 1912. O primeiro império chinês foi fundado 221 anos antes de Cristo. Pouco tempo depois, a Rota da Seda ligou a China ao Ocidente, sendo a seda chinesa um produto de luxo muito procurado pelas elites romanas. Ao longo dos séculos seguintes, a China atravessou períodos de divisão e reunificação, mas manteve a sua importância económica no mundo. Em 1820, tinha quase 400 milhões de habitantes, mais de um terço da população mundial, e a sua economia representava 32,9% do PIB mundial, segundo o economista britânico Angus Maddison. Contudo, as Guerras do Ópio, as invasões estrangeiras e o atraso industrial reduziram esse peso para apenas 4,5% em 1950. A recuperação começou com as reformas de Deng Xiaoping, em 1978, e ganhou força com a entrada na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Em 2013, Xi Jinping lançou a Nova Rota da Seda, recuperando a importância histórica do comércio internacional para a China. Os seus atuais 1400 milhões de habitantes são uma grande vantagem. Uma população alfabetizada e sobretudo qualificada nas tecnologias de vanguarda, formando anualmente 5 milhões de jovens nas áreas da ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), dez vezes mais do que os EUA, sustenta uma economia tendencialmente hegemónica. Além disso, a China é um dos maiores países do mundo em superfície. Vastas riquezas naturais, desde recursos minerais, tais como metais industriais e terras raras, aos terrenos agrícolas férteis. A dimensão territorial, populacional e capacidade tecnológica garantem primazia económica, embora o país continue dependente da importação de várias matérias-primas essenciais, sobretudo energéticas, tais como o petróleo. Assim, a China procura reduzir a sua dependência energética do exterior através da crescente e acelerada eletrificação da sua economia. Atualmente, produz quase 11 mil TWh de eletricidade, quase dez vezes a sua produção no início do século, e mais do dobro da dos EUA. Além da segurança energética, uma economia com energia abundante e a preços competitivos tem melhores condições para produzir bens e serviços a custos reduzidos, aumentando a sua competitividade. Afinal, a economia é a arte de transformar matérias-primas em bens e serviços competitivos e de qualidade, utilizando energia nesse processo, para satisfazer as necessidades humanas. Quanto menor for o custo da energia e maior a eficiência na sua utilização, maior será a capacidade de produção, criação de riqueza e maximização do bem-estar das pessoas. A China procura também reduzir a dependência do dólar norte-americano e dar maior respaldo à sua moeda, o renminbi, através do aumento das reservas de ouro, um dos ativos monetários mais importantes da história da humanidade e o único que acompanhou a ascensão e a queda de impérios sem nunca perder o seu estatuto. O ouro é um átomo, o átomo 79. Não se imprime nem se multiplica por decreto. Assim, a China é atualmente o maior produtor e importador mundial do metal amarelo, enquanto o Banco Popular da China continua a aumentar as suas reservas, embora ainda representem menos de um terço das dos EUA, que possuem 8133 toneladas. A acumulação de ouro permite diversificar as reservas internacionais e reforçar a autonomia monetária chinesa. É precisamente a conjugação destes fatores, população, educação, tecnologia, energia, recursos naturais, capacidade industrial e autonomia financeira, que explica a ascensão chinesa. Este país não procura apenas tornar-se a maior economia do mundo. Procura recuperar uma posição de poder económico e geopolítico que ocupou durante muitos séculos e que perdeu nos séculos XIX e XX. E é este detalhe histórico que permite percecionar a sua ascensão como o possível renascimento de um império, mais de 2200 anos depois da sua fundação.
Paulo Monteiro Rosa Coordenador do Gabinete de Estudos Económicos do Banco Carregosa