CHOQUE: O mundo virado do avesso
Donald Trump pode ser criticado por variadíssimas razões, mas ninguém no seu perfeito juízo acreditará que o anúncio das tarifas recíprocas, que podem ditar o fim da globalização económica, resulta de um mero ato irrefletido.
Trump ponderou a medida e acredita que ela terá efeitos positivos para os Estados Unidos, nomeadamente através de uma reindustrialização do país e da arrecadação de receita fiscal. O Presidente norte-americano conta ainda atrair investimento estrangeiro e aumentar o emprego.
A par deste putativo renascimento dos EUA, Trump ambiciona vergar a China, que classificou como a sua maior inimiga, por razões económicas, e também de natureza política, tendo como pano de fundo o equilíbrio de forças na região do Indo-Pacífico.
Esta estratégia é influenciada por Peter Navarro, conselheiro sénior de Trump. Navarro é o pilar desta arquitetura de nacionalismo económico e sempre teve a China no seu ponto de mira, argumentando que o país liderado por Xi Jinping faz batota no sistema de comércio mundial.
Naturalmente, o Presidente norte-americano acredita que vai ser bem-sucedido e este é, porventura, o calcanhar de Aquiles do seu plano.
Os Estados Unidos colocaram todos os países do mundo contra si, na crença de que estes se vão render em vez de lutar. Esta visão umbiguista é um erro. Os países ou blocos económicos com força para tal retaliarão e os que não o podem fazer diretamente vão tentar cortar os laços bilaterais.
O nacionalismo corresponde a um isolacionismo económico e os EUA deixarão de ser grandes se estiverem confinados ao seu mercado interno.
As empresas, os consumidores e as bolsas de todo o mundo vão ser penalizadas por esta opção de Trump. Os EUA não fogem a este diagnóstico e o facto terem grandes empresas e um mercado financeiro de enormes dimensões torna-os ainda mais vulneráveis.
No fim da linha, o aumento dos preços dos bens que resultará da imposição de tarifas será repercutido nos consumidores e isso inclui os norte-americanos. O unilateralismo de Trump tornará os EUA menos influentes à escala global. O nacionalismo económico, comandado pelo Estado, está bem mais próximo da ideologia comunista do que da doutrina capitalista que fez a América grande.
A radicalização gera ódios e torna o mundo um lugar ainda mais perigoso, mas talvez seja mesmo isso que Trump pretende.
Tarifas de Trump deixam mundo à beira de um ataque de nervos
Depois de semanas de incerteza, Donald Trump fez "all in” com as tarifas recíprocas: chegam a quase todos os países e são de dimensão elevada. Perspetivas de recessão alarmaram o mundo.
Há semanas que as tarifas "recíprocas” dos Estados Unidos (EUA) já eram esperadas, mas a dimensão e a abrangência, bem como a forma "pouco convencional” como a Administração Trump chegou a elas, estão a abalar o mundo.
Na quarta-feira, o Presidente dos Estados Unidos decidiu introduzir tarifas comerciais a um conjunto de 185 países, entre 10% e 50%. Na maioria das economias aplicar-se-á a taxa de 10%, já a partir de 5 de abril. Mas no caso da União Europeia (Portugal incluído) e da China, por exemplo, com quem os EUA têm maiores défices comerciais, as tarifas serão de 20% e 34%, respetivamente, e aplicar-se-ão a partir de dia 9 de abril. As novas tarifas "recíprocas” somam-se às já existentes (e das novas que a Casa Branca anunciou, de setores específicos, como as sobre a importação de automóveis, de 25%, ou de produtos farmacêuticos).
Embora a maioria dos analistas, governos e instituições internacionais já se mostrassem preocupados com o impacto de tarifas na economia global – e na própria economia norte-americana –, o anúncio deixou o mundo em choque. Com esta jogada, Donald Trump aciona o maior travão na política comercial da América num século, com o nível médio das tarifas exigidas pelos EUA à entrada de bens a subir de 8% para 22,5%, de acordo com os cálculos do Yale Budget Lab (e antes de Trump 2.0, no final de 2024, era de apenas 2%). O valor é semelhante ao da década de 1910.
O Presidente norte-americano acusou todos os países de "saquearem, violarem e roubarem” os EUA. "Este é um dos dias mais importantes da história do país”, indicou. No entanto, a história económica mostra que a diminuição de barreiras comerciais ajudou as economias a crescer e o chefe da Casa Branca está a ser criticado mundialmente por arriscar deitar esse consenso económico ao lixo.
"Ruination day”, ou dia da ruína, é o título da edição da Economist sobre o dia que Trump chamou de "libertação”. "Trump enlouqueceu no comércio”, considera por sua vez Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia. "Isto muda as regras do jogo, não apenas para a economia dos EUA, mas para a economia global. Muitos países provavelmente acabarão em recessão”, afirmou a Fitch Ratings. No caso da União Europeia, as estimativas apontam um impacto económico negativo em torno de 0,3 pontos percentuais, o que, embora pareça marginal, pode ser significativo perante o crescimento esperado – já muito constrangido por outros fatores.
A somar ao impacto está a forma como os países afetados podem responder. Embora a negociação ainda esteja em cima da mesa, a Comissão Europeia já anunciou que vai retaliar (os detalhes devem ser conhecidos nos próximos dias). A China, "player” internacional muito relevante, prometeu contramedidas. Mas vários economistas apelam à cautela. É o caso, por cá, de Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, que pede "tranquilidade”, alertando para o agravamento potencial dos custos com medidas de retaliação.
Forma de cálculo
O mundo também ficou em choque com a forma "pouco convencional” como os conselheiros de Trump chegaram aos valores das tarifas. Segundo o Presidente norte-americano, as tarifas "recíprocas” tinham um objetivo simples: fazer com que os produtos que entram nos EUA paguem à entrada o mesmo que os bens norte-americanos pagam à entrada nos territórios de origem desses produtos.
Mas em vez de considerar o custo pago na entrada do produto (chegando a um rácio do peso dos custos no valor exportado), o cálculo foi feito com base na divisão do défice comercial de bens dos Estados Unidos com cada um dos seus parceiros comerciais com o valor das exportações norte-americanas a cada um deles. Essa conta fez com que, por exemplo, as tarifas que alegadamente os produtos pagam à entrada da UE seja de 39%. Os conselheiros dividiram depois esse valor por dois – numa lógica que Trump apelidou de "desconto”.
O racional por trás destas tarifas foi avançado pelo Financial Times e pelo New York Times, entre outros, e obrigou a Casa Branca a emitir um comunicado a explicar-se. "Este cálculo pressupõe que os défices comerciais persistentes se devem a uma combinação de fatores tarifários e não tarifários que impedem o equilíbrio comercial”, diz a Administração Trump. Em causa estão elementos tão controversos como o IVA.
Mas a UE rejeita estar a cobrar tarifas de 39% sobre os produtos norte-americanos e aponta, em alternativa, um valor simbólico. Considerando os custos enfrentados pelos exportadores norte-americanos à entrada da UE e o valor das suas vendas, Bruxelas chega a uma tarifa média de "aproximadamente 1%”. Em 2023, a UE estima ter cobrado "aproximadamente 3 mil milhões de euros sobre as exportações dos Estados Unidos”, num total de 39,8 mil milhões de euros de trocas.
Em teoria, estas contas da Casa Branca colocariam Portugal a pagar uma taxa de 27%, considerando o desconto sobre o défice comercial de 2,9 mil milhões de euros e as exportações norte-americanas de 4,4 mil milhões de euros para este lado do Atlântico (dados do Eurostat). Na prática, aplicar-se-ão os 20% da UE.
No comunicado emitido após surgirem as primeiras dúvidas sobre o cálculo das tarifas, a Administração Trump argumentou que o défice comercial dos Estados Unidos é explicado por políticas tarifárias, regulamentares e fiscais cujo cálculo é complexo. Mas, se os défices comerciais forem persistentes, então "uma tarifa consistente com a compensação dessas políticas e fundamentos é recíproca e justa”.
"Embora os modelos de comércio internacional assumam geralmente que o comércio se irá equilibrar ao longo do tempo, os Estados Unidos têm registado défices persistentes na balança corrente nas últimas cinco décadas, indicando que a premissa central da maioria dos modelos comerciais está incorreta”, refere a equipa de Donald Trump.