Construção lidera na bolsa de Lisboa. BCP foi o único peso pesado no top cinco
Teixeira Duarte, BCP, Sonae, Mota-Engil e Semapa foram as cinco que mais valorizaram em 2025 no principal índice nacional, o PSI. No caso das duas construtoras os analistas destacam possíveis catalisadores para a continuação da tendência altista em 2026.
"Normalização de balanços e maior visibilidade de resultados" são os dois fatores comuns às maiores valorizações do ano no principal índice nacional, o PSI, que assinalou um ganho de 29,58% no ano, de acordo com a leitura de João Queiroz, "head of trading" do Banco Carregosa. O top cinco, que só conta com um peso pesado (empresas com maior capitalização bolsista), é liderado pela Teixeira Duarte, que regressou ao índice em setembro e somou 705,06% no acumulado do ano.
Os três dígitos da construtura não são acompanhados de perto por nenhuma cotada. No pódio estão ainda o BCP, a empresa com o maior "market cap" a constar desta lista, quase a duplicar o valor das ações num ano, com uma subida de 92,86%, seguido pela retalhista Sonae, que avançou 76,37%. A fechar as cinco maiores valorizações de 2025 houve negócios a baralhar as contas. A Mota-Engil cimentou o quarto lugar da lista, ao ganhar 69,80%, enquanto a Semapa e a REN lutaram até ao fim pela quinta posição e terminaram a registar um acréscimo de 47,39% e 41,01%, respetivamente.
O ano ficou marcado pelo regresso da Teixeira Duarte ao principal índice lisboeta oito anos depois, o que levou as ações a terem "muito mais visibilidade para a generalidade dos investidores" e merece elogios de Diogo Telhado, analista da Sixty Degrees: "Era um verdadeiro 'tesouro por descobrir', cuja maior exposição mediática 'obrigou' o mercado a valorizá-la de forma mais correta". Por outro lado, trata-se também de um "efeito base extremo, após anos de destruição de valor para os acionistas; a valorização reflete essencialmente redução de alavancagem, estabilização operacional e reavaliação de um ativo de risco elevado", acrescenta João Queiroz.
O potencial não parece estar esgotado para 2026, uma vez que a empresa anunciou que vai avançar com uma fusão por incorporação de quatro sociedades do grupo" o que deverá permitir "redução de custos, otimização de recursos e ganhos de eficiência operacional", diz o analista da Sixty. O ano foi de vento em popa para o setor da construção. A Mota-Engil, que ganhou uma rival cotada de menor dimensão, inverteu a tendência do ano anterior, à custa de uma "carteira internacional robusta, sobretudo em África e na América Latina", concordam o "head of trading" do Carregosa e o analista da gestora de ativos.
[A Teixeira Duarte] era um verdadeiro 'tesouro por descobrir', cuja maior exposição mediática 'obrigou' o mercado a valorizá-la de forma mais correta.
Diogo Telhado, analista da Sixty Degrees
Tal como no caso da Teixeira Duarte, 2026 também antecipa catalisadores positivos para a Mota-Engil. Se, por um lado, a carteira de encomendas na ordem dos 15,7 mil milhões de euros confere "boa visibilidade de receitas futuras nos próximos cerca de dois anos e meio de vendas", por outro, há vários fatores que deverão "permitir à empresa atingir já em 2025 os objetivos financeiros que tinha para 2026, abrindo espaço para a melhoria das suas perspetivas de médio prazo", explica Diogo Telhado.
Banca europeia brilha
Do lado do "head of trading" do Banco Carregosa, o BCP também merece destaque tendo em conta a "transformação estrutural do seu modelo de rentabilidade - um dos melhores exemplos de digitalização e incorporação de tecnologia nas soluções para clientes -, com criação de valor económico clara e reavaliação ainda moderada face a pares europeus". Já o analista da Sixty enquadra o único banco cotado em Lisboa num ano de sucesso para a banca europeia.
No Velho Continente, as 20 maiores cotadas do setor tem todos os elementos em terreno positivo, com retornos entre 25% e 146%. O BCP faz parte dessa história, ao capitalizar de juros mais altos por parte dos bancos centrais, que permitiram melhorias de rentabilidade. Apesar do início do ciclo de corte de juros, que está agora em pausa, "o mercado percebeu que as margens iriam normalizar de forma gradual, e não colapsar, sustentadas por balanços mais eficientes, menor concorrência por depósitos e maior peso de crédito a taxa variável", acrescenta Diogo Telhado. Por outro lado, o excesso de capital reforçou "a expectativa de dividendos elevados e programas de recompra de ações, o que tornou o setor particularmente atrativo num contexto de procura por 'yield'".
A Sonae é uma das favoritas do Banco Carregosa e da gestora de ativos Sixty Degrees.
Carregosa e Sixty Degrees juntam-se no aplauso à Sonae. A retalhista já tinha merecido elogios dos analistas e está entre as favoritas do ano. Diogo Telhado destaca "a resiliência demonstrada face ao crescimento muito agressivo do Mercadona em 2025, conseguindo, ainda assim, um aumento de volumes bastante expressivo", ao passo que João Queiroz salienta a "combinação rara de crescimento orgânico e inorgânico, através da rotação de insígnias e de aquisições estratégicas que se enquadram e capitalizam o seu modelo de negócio, aliada a resiliência e execução consistente, com métricas equilibradas de risco e retorno".
Secil dá "rally" de fim de ano à Semapa
O final do ano foi marcado por uma forte valorização da Semapa, depois de ter anunciado a venda do seu segundo maior ativo em termos de volume de negócio, a Secil, por 1,4 mil milhões de euros, da qual irá retirar uma mais-valia de 400 milhões. O mercado aplaudiu e as ações dispararam mais de 20%, com a possibilidade de uma nova aquisição em vista, ou um dividendo extraordinário. A analista do Caixa Banco de Investimento (BI), Rita Machado Belo, refere, numa nota, que "esta transação permite obter os recursos para dar continuidade à estratégia de diversificação dos seus negócios".
A subida das últimas sessões acabou por levar a Semapa a ultrapassar a REN. A energética é já conhecida como "uma história de estabilidade" para os analistas, tendo em conta "a 'dividend yield' atrativa e a perceção de um ativo defensivo num ano de elevada dispersão", justifica o "head of trading" do Banco Carregosa. No ano do apagão, as ações não foram beliscadas. Desconto face aos pares, regulação favorável e a decisão de reverter a Contribuição Extraordinária sobre o Setor Energético (CESE) são fatores dados como favoráveis pelo analista da Sixty Degrees.
Normalização de balanços e maior visibilidade de resultados [são os dois fatores comuns às maiores valorizações do ano no PSI].
João Queiroz, "head of trading" do Banco Carregosa
A par disso, "os retornos da empresa estão essencialmente ligados à base de ativos e à remuneração regulada pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE). O Capex - e consequentemente a base de ativos, bem como o 'guidance' para a continuação da expansão -, aumentaram mais do que o esperado, também impulsionados pelo crescimento da procura por eletricidade e pela necessidade de reforço da infraestrutura", diz ainda o analista.