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24 abril 2026 05h50
Fonte: Expresso

Consumo de combustíveis cresce apesar do disparo de preços

Expresso

Volume de gasóleo vendido em março atingiu o registo mensal mais alto em quase três anos


O disparo dos preços no primeiro mês do conflito do Médio Oriente não travou o consumo de combustíveis em Portugal. No caso do gasóleo as vendas médias por cada dia útil em março subiram 8% face a fevereiro. 



Combustíveis Procura de gasóleo em março foi a mais alta em quase três anos. Consumo médio por dia útil subiu 8% face a fevereiro


A crise do estreito de Ormuz fez disparar as cotações do petróleo e dos produtos refinados pelo mundo fora, e Portugal não escapou a subidas recorde no preço do gasóleo. Mas mesmo assim o consumo de combustíveis não se ressentiu. Na verdade, a procura de gasóleo e gasolina em Portugal no mês de março cresceu, tal como sucedeu com o jet fuel (combustível de aviação), mostram os dados da ENSE — Entidade Nacional para o Sector Energético e da Epcol, a associação portuguesa das empresas petrolíferas.


Os números da ENSE indicam que em março a colocação de gasóleo no mercado subiu 26% face a fevereiro, ao passo que a de gasolina avançou 23%. E os números das vendas efetivas aos clientes finais não andam longe disso: os resultados partilhados com o Expresso pela Epcol, com base em dados das suas associadas, indicam que o consumo de gasolina em março subiu 19% face a fevereiro, para 145 mil metros cúbicos, ao passo que as vendas de gasóleo aumentaram 25%, para 475 mil metros cúbicos. No caso do jet fuel, a subida foi de 28%, para 186 mil metros cúbicos.


Uma parte deste crescimento reflete o facto de março ter tido mais três dias úteis do que fevereiro. Mas mesmo descontando o efeito de calendário o consumo de combustíveis em Portugal cresceu no primeiro mês do conflito no Médio Oriente, o que pode espelhar um efeito de antecipação do abastecimento dos automóveis perante os sucessivos anúncios de agravamentos de preços. A variação do consumo foi suave na gasolina, mas mais acentuada no diesel. O consumo médio de gasolina por dia útil em março subiu 2,8% face a fevereiro, enquanto no gasóleo o consumo médio por dia útil cresceu 8,2%. No combustível de aviação o crescimento foi de 10,5%.


Já face ao ano passado, o consumo de gasóleo e gasolina em março engordou 10%, mas, descontando a variação do número de dias úteis, a procura média diária estabilizou (com uma subida residual na gasolina e uma descida marginal no gasóleo).


No que toca à procura de gasóleo, março teve o gasto mensal mais alto em quase três anos (é preciso recuar a maio de 2023 para encontrar um registo mensal superior na introdução de diesel em Portugal).


O secretário-geral da Epcol, António Comprido, sublinha que o mercado dos combustíveis "é muito pouco elástico”, porque se trata, na maior parte dos casos, de "um consumo obrigatório”. "Nem aumenta o consumo quando os preços baixam, nem baixa a procura quando os preços sobem”, realça o dirigente da associação das petrolíferas. "Não houve até agora uma retração da atividade económica”, acrescenta em declarações ao Expresso.


O indicador diário de atividade económica do Banco de Portugal (que desde a pandemia acompanha dados diários sobre o tráfego de veículos pesados, o consumo de eletricidade e gás e as compras efetuadas com cartões) revela sinais mistos desde o início do conflito no golfo Pérsico: a média semanal do indicador assumiu variações negativas entre 18 de março e 5 de abril, mas na semana seguinte voltou a terreno positivo. Na semana passada, um conjunto de economistas ouvidos pelo Expresso projetou uma quase estagnação do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre face ao trimestre anterior. Certo é que várias previsões têm assumido maior pessimismo, fruto do impacto da crise do Médio Oriente na economia global. Este mês, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu em baixa a sua projeção de crescimento de Portugal de 2,1% para 1,9%. E subiu a previsão da inflação em Portugal este ano para 3,1% (a anterior estimativa era de 2,1%).


Para diversas economias o impacto da crise no Médio Oriente no que toca aos combustíveis tem-se feito sentir sobretudo no preço, sem uma disrupção do abastecimento, mas o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, admitiu que no início de junho a Europa poderá ter problemas no que toca ao jet fuel.


Na terça-feira, a alemã Lufthansa anunciou um corte de 20 mil voos até outubro, o equivalente a cerca de 1% da sua oferta, para economizar no combustível, uma vez que o preço do jet fuel duplicou desde o início do conflito. Isto depois de a Air France/KLM ter duplicado, de €50 para €100, a taxa de combustível por cada voo de longo curso. Por cá, o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, afastou, para já, um cenário de cancelamento de voos da TAP. "Acreditamos que a oferta continuará a ser garantida.”


António Comprido, da Epcol, diz não antever "grandes problemas” no aprovisionamento de combustível de Portugal. Por um lado, porque "as refinarias ibéricas abastecem-se muito na bacia Atlântica e muito pouco da zona afetada pelo conflito”. E, por outro lado, porque a refinaria de Sines produz gasóleo que é "praticamente” o volume do consumo nacional, embora no jet fuel haja um défice, em especial nos meses de verão, com mais voos por causa das férias. "Francamente, não antevemos grandes riscos de rutura de abastecimento”, aponta.


Todavia, a Comissão Europeia está preocupada. Na quarta-feira apresentou um pacote de iniciativas para fazer face à crise energética, que inclui um novo "observatório de combustíveis” para acompanhar a produção, as importações e as reservas na Europa. O leque de opções para os Estados-membros mitigarem o impacto da crise é amplo. Mas Bruxelas acabou por recuar na ideia de impor um dia de teletrabalho por semana.


Guerra no Médio Oriente faz subir petróleo e fertilizantes. Preços já aumentaram e Portugal está mais exposto


O conflito no Médio Oriente está a voltar a pressionar os preços dos alimentos. Os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) mostram que o índice global de preços alimentares subiu pelo segundo mês consecutivo em março, com aumentos em quase todas as categorias: dos cereais aos óleos, passando pela carne, laticínios e açúcar.


A subida não resulta tanto de quebras imediatas na produção, mas do encarecimento do petróleo e do gás, que está a propagar-se ao longo de toda a cadeia alimentar (cerca de 20% do petróleo mundial passa pelo estreito de Ormuz, cuja circulação tem estado condicionada). Energia mais cara traduz-se em custos mais altos na produção, no transporte e na indústria alimentar, com impacto adicional nos fertilizantes, muito dependentes de energia.


São já alguns os produtos que dão sinais claros. Os óleos vegetais registaram a subida mais acentuada, refletindo o efeito do petróleo e da procura por biocombustíveis; o açúcar também aumentou, num contexto em que países como o Brasil podem desviar produção para etanol; nos cereais, o trigo subiu, pressionado por custos mais elevados e fatores climáticos, enquanto a carne e os laticínios registaram acréscimos mais moderados.


Ao contrário de 2022, quando o choque veio da quebra de oferta causada pela guerra na Ucrânia, o impacto atual é mais indireto. Trata-se de um aumento generalizado dos custos, com potencial para se prolongar no tempo. A própria FAO alerta que, se os custos elevados persistirem, os agricultores poderão reduzir a produção ou o uso de fertilizantes, o que terá efeitos nos preços futuros.


A economia portuguesa é particularmente exposta a este tipo de choques, devido à forte dependência de energia importada e de matérias-primas alimentares, como os cereais. Isso significa que o aumento dos custos internacionais tende a ser rapidamente transmitido ao longo da cadeia, chegando ao bolso do consumidor final.


Os sectores da agricultura e distribuição já vieram alertar para a pressão crescente sobre os custos e para o risco de perda de competitividade face a Espanha, defendendo medidas para mitigar o impacto da energia. O Governo, por outro lado, afasta o regresso do IVA zero e diz que a resposta deverá ser outra.


A política monetária está refém da Casa Branca. Juros do BCE e da Fed deverão manter-se na próxima semana


A próxima semana concentra quatro reuniões dos mais importantes bancos centrais do mundo e os mercados de futuros não antecipam qualquer movimento nas taxas de juro em Washington DC, Frankfurt, Tóquio e Londres. Nas reuniões da primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington DC dizia-se nos corredores que "o elefante na sala é a própria guerra”, ou seja, a geopolítica da Administração Trump, que deixa reféns os bancos centrais sobre a incerteza da duração e da profundidade dos estragos já feitos. O FMI recomendou, que não haja precipitações na política monetária. O efeito da geopolítica da Casa Branca parece obrigar a "congelar” os juros dos bancos centrais, apesar de Trump insistir, desde que tomou posse pela segunda vez, que quer as taxas em 1%.


Na próxima quarta-feira a Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) deverá manter uma maioria de apoio entre os seus governadores à manutenção dos juros no intervalo entre 3,5% e 3,75%. E na quinta-feira o Banco Central Europeu (BCE) não deverá mexer nos 2%. A fazer fé nas palavras de Christine Lagarde, esta semana, numa reunião da Associação de Bancos Alemães, "esperar para ver” continua a ser a melhor posição face à incerteza da geopolítica de Trump, em termos de duração do choque e na intensidade da sua transmissão à economia e pelos exageros de política orçamental que poderão ocorrer nos Gover-


Warsh promete mudar a Fed


Uma mudança de regime deverá chegar à política monetária, segundo Kevin Warsh, o indicado por Donald Trump para suceder em maio a Jerome Powell na chefia da Reserva Federal (Fed). Esta semana, na audiência perante a Comissão Bancária do Senado dos Estados Unidos, o ex-governador da Fed durante a crise financeira, avançou que o foco do seu mandato, se for nomeado será "fazer uma espécie de reinício (reset)” à máquina da Fed, conforme sublinha o analista Peter Cohan. No Senado Warsh negou ser uma "marioneta” de Trump. J.N.R.


A palavra de ordem, segundo os artigos do portal "Econostream” sobre os meandros da assembleia do FMI, é "calma”. "Mantenham a cabeça fria”, recomendou, esta semana, em Madrid, Luis de Guindos, vice-presidente do BCE, que deixa o lugar no final de maio.


Por isso, não é esperada uma surpresa em Frankfurt. "A decisão na próxima quinta-feira deverá ser de pausa. Mas não por ausência de risco. Pelo contrário, será uma pausa condicionada”, refere Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa. "O mercado acredita que o BCE permanece fortemente dependente da evolução do preço do petróleo. Em suma, se quer saber qual vai ser a evolução dos juros do BCE, olhe para a cotação do petróleo”, recomenda o economista, que sublinha que "as expectativas para a política monetária na zona euro têm seguido quase a papel químico a evolução do preço do Brent”.


O facto de os preços do gás e da eletricidade na zona euro "não terem replicado a crise energética de 2022 reduz a urgência de uma ação imediata por parte do BCE”, conclui Paulo Rosa. A probabilidade de uma primeira subida de juros em junho continua em aberto e o mercado de futuros projeta 2,25% no final do ano (a taxa atual é de 2%).


Em Tóquio, o governador do Banco do Japão, Kazuo Ueda, reconhece que "é muito difícil formular a política monetária” nas atuais circunstâncias e que o banco monitoriza a situação até "ao último minuto”. Os juros nipónicos estão em 0,75% e deverão subir para mais de 1% até final do ano, mas não na reunião da próxima semana. O mesmo com o Banco de Inglaterra, que deverá deixar a taxa em 3,75%, apesar de os mercados de futuros apontarem para uma subida até perto de 4% no final do ano.


No caso da Fed, Peter Cohan alerta que, com a volatilidade da geopolítica imposta pela Casa Branca, o risco de uma maior "fragmentação” de posições dentro do banco central norte-americano "deverá intensificar-se”, pois os riscos cada vez mais se projetam em direções diferentes, dificultando o consenso. Nos mercados de futuros, a probabilidade de não mexer nos juros é sempre superior a 60% até final do ano.


Diretor de Investimento Global em Ações da Allianz Global Investors


P Até que ponto é que os mercados estão atualmente a subvalorizar o risco geopolítico?


R A escalada do conflito com o Irão já abalou parte do posicionamento ideal do mercado: a crença de que a inflação está controlada, de que os cortes nas taxas de juro estão iminentes e de que o crescimento está novamente a acelerar. O risco é que os investidores ainda não estejam a precificar um cenário de estagflação total. Um conflito prolongado com o Irão, ou novos choques, como novas medidas tarifárias dos EUA, poderão obrigar os mercados a reajustarem-se drasticamente.


P Muitos investidores parecem ter-se ‘habituado’ à guerra. Isto é resiliência dos mercados ou uma complacência perigosa?


R Os mercados aprenderam, nos últimos 15 meses, que os líderes políticos reagem muito rapidamente aos sinais do mercado, especialmente em obrigações e ações. Isto cria um certo mecanismo circular de estabilização: os decisores políticos são cautelosos porque temem a turbulência dos mercados, e esta cautela, por sua vez, tranquiliza os mercados. Mas esta dinâmica funciona nos dois sentidos. O que parece ser resiliência do mercado pode refletir a sensibilidade política aos preços dos ativos, e isto pode tornar-se uma vulnerabilidade. O risco real não é apenas a complacência nos mercados. Pode ser a complacência entre os líderes políticos, que podem subestimar a rapidez com que o sentimento pode mudar se os erros políticos coincidirem com o stress geopolítico.


P Historicamente, os mercados tendem a recuperar rapidamente de choques geopolíticos. Há razões para acreditar que desta vez poderá ser diferente?


R Caso ocorram interrupções no fornecimento de energia durante vários anos, será um desafio para as economias adaptarem-se, particularmente aquelas com uma elevada dependência das exportações de energia, cujo fornecimento é interrompido. Ao mesmo tempo, o fornecimento de energia pode acarretar um prémio de risco mais elevado, mas a infraestrutura pode ser reorganizada de forma a favorecer as fontes de menor custo. Atualmente, o nosso cenário base é de que a economia global, e especificamente a economia dos EUA, consegue lidar com o impacto da guerra sem grandes prejuízos.