CONSUMO E PRR SALVAM A ECONOMIA EM 2025
Com o PIB a crescer entre 1,9% e 2% em 2025, após um crescimento de 2,3% no ano anterior, a economia nacional deverá ter melhor desempenho do que a média europeia.
Persistem algumas incertezas em relação aos valores que o crescimento da economia portuguesa poderá alcançar em 2025. Os números finais serão oficializados esta sexta-feira e as opiniões dos economistas contactados pelo Nascer do SOL divergem entre 1,9% e 2% do Produto Interno Bruto (PIB).
Para o conjunto do ano de 2025, o Governo inscreveu a previsão de um crescimento de 2% no Orçamento do Estado para 2026. Um número que vai ao encontro das estimativas do Banco de Portugal, que apontam para o mesmo valor, segundo o Boletim Económico de dezembro. Ligeiramente menos otimistas estão as previsões do Conselho das Finanças Públicas, da Comissão Europeia, do Fundo Monetário Internacional e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), ao projetarem um crescimento de 1,9% em 2025.
Ao nosso jornal, João César das Neves reconhece que as previsões "são variadas e não passam disso, até saírem os dados”. Ainda assim, admite que "em qualquer caso, a melhor antecipação é dizer que terá sido semelhante ao trimestre anterior, devido à propriedade da persistência das séries macroeconómicas”.
E, tal como tem se verificado ao longo do ano, o economista abre a porta à possibilidade de continuarmos a crescer a um ritmo superior em relação aos países da zona euro, mas acredita que esta tendência deve-se mais à "lentidão europeia do que à vivacidade portuguesa”.
Também Luís Aguiar-Conraria não antecipa grandes surpresas em relação ao desfecho do ano. "Os últimos dados que temos – e não me parece que venha a haver mudanças relevantes – é que a economia portuguesa em 2025, face a toda a conjuntura internacional que inclui o aumento de tarifas do lado dos Estados Unidos, está bem. O desemprego provavelmente fechou no ano passado abaixo dos 6%, continua muito baixo. A economia há de ter crescido mais do que a média europeia e estará seguramente no topo das que mais cresceram. Continuo a achar que grande parte do pessimismo sobre a economia portuguesa decorre de algum pessimismo crônico que os portugueses têm e que não está baseado verdadeiramente em factos”.
Um comportamento que tem levado a economia nacional a ser elogiada face aos seus pares. E, segundo o economista, isso não se deve só à publicação da The Economist, que chamou a atenção da Europa para Portugal ao sermos distinguidos como a economia do ano – tendo em conta cinco indicadores económicos: inflação, o desvio da inflação, PIB, o emprego e o desempenho da bolsa de valores –, como também resultará das verbas recebidas no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). "Se os fundos de coesão já beneficiam à partida os países mais pobres, como é o caso de Portugal, o PRR beneficiou ainda mais. É evidente que há muita coisa que se pode fazer na economia para melhorar, mas, para já, os grandes números não são desfavoráveis e isso é bom” (ver entrevista nas páginas 24/25).
Já Paulo Monteiro Rosa acredita que o PIB português tenha crescido entre 1,9% e 2% em 2025, após um crescimento de 2,3% em 2024. Esta desaceleração, de acordo com o economista do Banco Carregosa, "é justificada sobretudo pelo menor dinamismo das exportações e pelo crescimento mais moderado do emprego, afetado pelo abrandamento da população ativa; apesar disso, o mercado de trabalho ainda se mantém resiliente”.
E lembra que o crescimento económico em 2025 manteve-se assente na procura interna, sobretudo pelo consumo privado, suportado pelo aumento do rendimento disponível das famílias, e do investimento, em particular do investimento público associado à execução do PRR. "Estes fatores permitiram sustentar a economia portuguesa, mantendo um crescimento superior ao da média da Zona Euro, embora a um ritmo mais moderado do que no ano anterior”, diz ao Nascer do SOL.
ÚLTIMO TRIMESTRE TERÁ DESACELERADO
O Barómetro de Conjuntura Económica CIP – Confederação Empresarial de Portugal / ISEG confirma o abrandamento da economia portuguesa no quarto trimestre de 2025 e, em linha com as previsões dos economistas contactados pelo Nascer do SOL, fixa a estimativa para o crescimento do ano inteiro em 1,9%.
Na atualização dos indicadores feita pelo Barómetro na edição de janeiro de 2026, no último trimestre de 2025 a economia terá desacelerado ligeiramente em cadeia, de 0,8% para 0,7%, o que corresponde, em termos homólogos, a um crescimento de 1,9% – o mesmo valor previsto para 2025.
Este abrandamento no final do ano, de acordo com o documento, resultou da moderação do contributo da procura interna. "Apesar desta moderação, o consumo privado deverá ter mantido a dinâmica recente, sustentada no desempenho muito positivo do mercado de trabalho, em custos de financiamento moderados e no impacto das medidas orçamentais no rendimento disponível das famílias”, refere.
É certo que também se admite um reforço do crescimento do investimento, beneficiando da execução do PRR, que entrou em 2026 na sua reta final. Já o contributo da procura externa líquida terá estabilizado, refletindo um menor crescimento, quer das importações, quer das exportações.
Para Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP, o crescimento de 1,9% em 2025 vem confirmar que "o desempenho da economia portuguesa está a enfraquecer para um ritmo inferior ao dos anos anteriores à pandemia, correndo o risco de estagnar o processo de convergência com a União Europeia que estava a ser alcançado nos últimos anos”, referindo que "para relançar de forma sustentada a atividade económica é preciso alterar o padrão de crescimento, com um maior contributo do investimento e das exportações e uma dependência menor do crescimento do consumo”.
Números que convencem Paulo Monteiro Rosa, que considera esta possível desaceleração no último trimestre de 2025, após 0,8% no trimestre anterior, compatível com um crescimento anual de cerca de 1,9%, sobretudo num contexto de abrandamento das exportações e de menor dinamismo do emprego. Ainda assim, lembra que "apesar da ligeira perda de ritmo trimestral, a economia deverá ter mantido os contributos positivos da procura interna, em particular do consumo privado e do investimento apoiado pelo PRR, o que permite sustentar um crescimento anual próximo de 2%”.
E aponta para o facto de o crescimento da economia portuguesa ter-se mantido sobretudo assente em três pilares: o turismo, o aumento da população empregada, ainda que em desaceleração face aos anos anteriores, e o contributo do investimento estrangeiro.
Ao mesmo tempo, defende que o mais provável é Portugal registar um crescimento no último trimestre de 2025 acima da média da Zona Euro, à semelhança do que se verificou nos trimestres anteriores. "Este desempenho poderá ser explicado pelo maior dinamismo da procura interna, nomeadamente do consumo privado e do investimento apoiado pelos fundos europeus, bem como pela importância do turismo, que deverá ter continuado a contribuir positivamente para a atividade económica”, acrescentando que, do outro lado, as várias economias da Zona Euro deverão ter registado um crescimento mais contido, condicionado por um contexto industrial fraco e por maior exposição às tensões externas.
PRR COMO TÁBUA DE SALVAÇÃO
Tal como tem sido defendido pelos economistas, também a Comissão Europeia reconhece que o PRR funcionou como um balão de oxigénio para a economia portuguesa. E os números falam por si: ao todo, a 'bazuca' tem um valor de 22,2 mil milhões de euros, com 16,3 mil milhões de euros em subvenções e 5,9 mil milhões de euros em empréstimos do Mecanismo de Recuperação e Resiliência. Este montante representa 8,18% do PIB português e corresponde a 303 investimentos e 86 reformas.
Isso significa que Portugal está entre os países que deverão registar maiores ganhos em termos de PIB. Atualmente, já recebemos 10,41 mil milhões de euros em subvenções e 3,39 mil milhões de euros em empréstimos e a taxa de execução do plano é de 52%.
É preciso alterar o padrão de crescimento com um maior contributo do investimento e das exportações.