Cotadas distribuem €2,3 mil milhões em dividendos
Maioria das empresas que já divulgaram contas vai dar mais aos acionistas
Das nove cotadas que já apresentaram resultados, sete vão subir remuneração. Aumento médio é de 11%. Só a EDP irá distribuir mais de €800 milhões.
Cotadas portuguesas aumentam em 11% os dividendos aos acionistas
Nove empresas que já apresentaram resultados vão entregar €2,35 mil milhões
As empresas da Bolsa nacional estão mais generosas com os seus acionistas e estão a aumentar os dividendos que vão distribuir no decorrer deste ano, relativamente à operação do ano passado. Em alguns casos, o aumento desta remuneração ocorre em simultâneo com uma queda de lucros (ou mesmo prejuízos).
Nove empresas do índice PSI já apresentaram resultados anuais. Este grupo inclui EDP, EDP Renováveis, BCP, Mota-Engil, Galp, Navigator, Corticeira Amorim, Semapa e NOS, que no seu conjunto registam um aumento médio de dividendos de 11% face ao ano passado, distribuindo aos acionistas um total de €2,35 mil milhões de euros. Só duas empresas não anunciaram um aumento dos dividendos (a EDP Renováveis e a Semapa).
"Há uma clara pressão dos investidores para a manutenção e reforço das políticas de remuneração, pois muitos privilegiam empresas cotadas que oferecem um retorno previsível e atrativo. Este movimento também pode ser uma estratégia para reter investidores num contexto de elevada volatilidade dos mercados”, explica o diretor de trading do Banco Carregosa, João Queiroz, ao Expresso.
A EDP é uma das empresas mais generosas e entregará aos acionistas mais do que o lucro que obteve. Em 2024, o resultado líquido foi de €801 milhões (uma queda de 16% em termos homólogos, embora o resultado recorrente da elétrica tenha crescido 8%, para €1393 milhões). A empresa liderada por Miguel Stilwell de Andrade irá pagar 20 cêntimos por cada título (um máximo desde, pelo menos, 2013), o que perfaz um total de €837 milhões a distribuir pelos acionistas.
Entre eles está a China Three Gorges, com a maior fatia do capital da empresa (21,08%). A empresa estatal chinesa entrou na EDP em 2012. Desde então, arrecadou €1,9 mil milhões em dividendos, aos quais se somam €826 milhões em duas operações de vendas de ações, em 2020 e 2021, aproveitando o bom momento em Bolsa. Tudo somado, o Estado chinês arrecadou €2,77 mil milhões com a EDP, mais do que os €2,69 mil milhões que investiu na privatização da elétrica.
Já a EDP Renováveis anunciou um dividendo de 8 cêntimos por ação, um corte face aos 20,1 cêntimos do ano passado, depois de ter apresentado o seu primeiro prejuízo da história (-€556 milhões), influenciado por imparidades na Colômbia e por perdas reconhecidas nos projetos eólicos offshore nos Estados Unidos, ligadas à promessa de desinvestimento de Donald Trump nesta área.
BCP em alta
O banco BCP anunciou um "novo ciclo” em matéria de dividendos na empresa, durante a apresentação de resultados, após ter alcançado um lucro recorde de €906 milhões. Na conferência de imprensa sobre os resultados de 2024, Miguel Maya, presidente executivo do banco, anunciou que irá distribuir 72% do lucro pelos acionistas, sendo cerca de €480 milhões em forma de dividendo e o montante restante sob a forma de recompra de ações, estimulando o preço do título. Depois de ter distribuído um dividendo de 1,7 cêntimos por ação no ano passado (que já era o valor mais elevado desde 2009), espera-se que o montante quase duplique, para próximo dos 3 cêntimos, segundo os cálculos do Expresso. A concretizar-se, é um máximo desde 2007.
Mas há mais empresas a regressar ao passado no que toca à política de remunerações. A Galp vai-se aproximando dos valores pré-pandemia, com um dividendo de 62 cêntimos por ação, o que, tirando 2019 (70 cêntimos), se trata do melhor valor desde 2006, quando o dividendo representava mais de €1 por título. No caso da Corticeira Amorim, o dividendo de 32 cêntimos por ação atinge um máximo desde 2015. Todos estes valores serão ainda votados nas assembleias gerais de acionistas das respetivas empresas.
"O atual nível de dividend yields [taxa de remuneração] poderá captar o interesse de investidores focados em rendimento, incluindo fundos de investimento e de pensões, que valorizam empresas com um histórico consistente de distribuição de lucros. Num cenário global em que as taxas de juro podem voltar a ajustar em baixa, ativos com elevada rentabilidade por dividendo tornam-se alternativas viáveis para quem procura retornos superiores”, considera João Queiroz, do Banco Carregosa.
Histórico atrativo
João Queiroz explica que na Bolsa portuguesa "oferecer uma remuneração atrativa aos acionistas tem bases estruturais”. A presença dominante de sectores historicamente estáveis, como energia, telecomunicações e banca, contribui para um elevado payout (isto é, a relação entre os dividendos que a empresa paga e o lucro anual que obtém). "A estrutura acionista de muitas das atuais cotadas nacionais inclui grandes acionistas institucionais e estatais, que frequentemente convivem num mercado com distribuição regular e sustentada de dividendos”, continua João Queiroz.
E em 2025 as cotadas da Bolsa de Lisboa continuam a ser das mais "amigas” dos investidores este ano, de acordo com o "Dividend Study 2025”, realizado pela Allianz GI. A taxa de remuneração (a relação entre o dividendo por ação e a cotação) é de 4,8% entre as cotadas nacionais, prevê a gestora, mas o valor deverá ser ainda maior caso a tendência de subida se mantenha.
Este valor coloca a Bolsa de Lisboa na sexta posição das praças europeias com remunerações mais atrativas, numa lista que já foi liderada pelo índice nacional. Áustria, Noruega, Finlândia, Itália e Espanha tomam a dianteira desta tabela.
Remunerações mais generosas podem atrair investidores num contexto de queda dos juros