Crise do dólar e alta das yields impulsionam ouro e BTC
A confiança no dólar, durante décadas pilar da estabilidade financeira global, enfrenta uma crise sem precedentes. A combinação de défices orçamentais crescentes, políticas comerciais erráticas e pressões políticas sobre a Fed aceleram a desvalorização da moeda americana. Em abril, o dólar caminha para a maior queda mensal face ao euro desde 2009, alimentando receios de uma recessão associada a estagflação — estagnação económica e inflação elevada. Há uma erosão do ‘excecionalismo’ americano, ou seja, a ideia de que os EUA são estruturalmente mais robustos, inovadores e confiáveis do que qualquer outro país, e esse prestígio tem assentado em três pilares: confiança internacional na moeda, forte atratividade para investimento estrangeiro e capacidade de financiar défices com facilidade.
Atualmente, os investidores abandonam ativos denominados em dólar, migrando para refúgios tradicionais como o ouro — que ultrapassou os 3.500 dólares, atingindo máximos históricos — e para criptomoedas como a Bitcoin, acima dos 90.000 dólares. Paralelamente, moedas como o euro, o iene e o franco suíço beneficiam desta fuga de capitais, impulsionada pelos receios de inflação persistente, crescimento estagnado e interferência política na gestão monetária. A independência da Fed, pedra angular da credibilidade do dólar, está sob ameaça devido às críticas públicas de Trump, que exigiu a demissão Powell e pressionou para cortes de taxas de juro, ignorando os riscos macroeconómicos.
A situação agravou-se com políticas económicas erráticas, como as "tarifas do Dia da Libertação”, que impulsionaram as yields da dívida pública — um movimento que contrariou os interesses de Trump, cuja estratégia assenta precisamente na contenção dos custos de financiamento. Num recuo que recorda o caos orçamental do Reino Unido sob o consulado de Liz Truss, Trump adiou por 90 dias as tarifas recíprocas previamente anunciadas, aumentando a perceção de incerteza. No entanto, para além do "dito por não dito” com as tarifas (o adiamento de 90 dias), é bem provável que se possam repetir mais momentos ‘Liz Truss’. A Fed tem um mandato tripartido: garantir a estabilidade de preços, promover o pleno emprego e assegurar a estabilidade das taxas de juro de longo prazo. É neste último objetivo que as tensões mais se têm manifestado. Os rendimentos dos Treasuries a 10 e 30 anos continuam a subir, com os títulos a 30 anos perto dos 5%, refletindo o ceticismo sobre a dívida americana. O défice orçamental dos EUA no primeiro semestre fiscal de 2025 atingiu 1,3 biliões de dólares (4,5% do PIB), criando um ciclo vicioso: quanto mais o governo emite dívida, maiores são os juros exigidos pelos investidores, o que eleva o custo do serviço da dívida e agrava o défice.
Para evitar um colapso, discute-se informalmente a reintrodução das medidas emergenciais da pandemia, como a exclusão durante um ano da dívida pública do cálculo do Supplementary Leverage Ratio (SLR). Este rácio mede a relação entre o capital próprio (Tier 1) dos bancos — essencialmente composto por ações ordinárias — e a exposição total ao risco, que inclui tanto os ativos no balanço como fora dele, como empréstimos, derivados, títulos da dívida pública e reservas depositadas na Fed. O SLR mínimo é de 3%. Por exemplo, se um banco tem 10 mil milhões de dólares em capital Tier 1 e 200 mil milhões em exposição total, o rácio é de 5%. Mas, se adquirir mais 200 mil milhões em dívida pública, a exposição duplica e o rácio cai para 2,5%, ficando abaixo do limiar regulamentar e impedindo legalmente a compra dessa dívida. No entanto, se a Fed isentar novamente a dívida pública deste cálculo, como fez entre abril de 2020 e abril de 2021, o rácio manter-se-ia nos 5%, permitindo que os bancos absorvessem grandes volumes de dívida pública sem ultrapassar os limites prudenciais. Essa política teria o potencial de travar a subida das taxas de juro de longo prazo. Todavia, ao contrário do período pandémico, os bancos podem agora não estar tão disponíveis para desempenhar esse papel. Os bancos podem não querer assumir uma exposição significativa num contexto de incerteza e perda de confiança internacional. Neste cenário, ganha força a possibilidade de a Fed, manietada por Trump, forçar o sistema bancário a financiar diretamente o Estado. Trata-se de uma política que remete para os tempos da 2º Guerra Mundial, quando os bancos eram obrigados a comprarem dívida pública para manter a máquina governamental a funcionar. Este possível regresso da repressão financeira surge como resposta à crescente relutância dos investidores, especialmente estrangeiros, em financiarem a dívida dos EUA, num momento em que o ‘excecionalismo’ americano é posto em causa, a confiança no dólar vacila e as políticas imprevisíveis, como as tarifas comerciais agressivas, agravam ainda mais a perceção de risco. Se esta visão se concretizar, o ouro poderá recuperar o seu papel histórico como reserva de valor e a BTC ganhar relevância, enquanto a credibilidade do dólar e a capacidade dos EUA em gerirem a sua dívida são postas em causa.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa