Crise económica global pode ser pior do que em 2022
> Bolsas mundiais perdem 10 biliões de dólares desde o início da guerra > Rússia e EUA entre os países que estão a ganhar com a escalada do petróleo > Banco de Portugal revê PIB em baixa e agrava inflação
Crise global pode ser pior do que a de 2022
Jorge Nascimento Rodrigues
Guerra Com o conflito no Golfo, Bolsas perderam quase €9 biliões e os preços das matérias-primas subiram 12%
E m menos de um mês de guerra generalizada no Golfo Pérsico, os mercados de ações já perderam cerca de 10 biliões de dólares (€8,7 biliões), segundo as estimativas do Expresso a partir do valor de capitalização bolsista mundial no final de fevereiro avançado pela The World Federation of Exchanges. O índice mundial MSCI caiu 6% desde 27 de fevereiro, na véspera do ataque dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel ao Irão. Essa quebra em menos de um mês representa já 38% das perdas anuais registadas em 2022, no primeiro ano da crise gerada pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Para o consultor Peter Cohan, esta guerra do Golfo trouxe uma novidade: "uma convergência sem precedentes num único teatro de guerra das seis principais dimensões de impacto de conflitos e eventos, desde a quebra económica, o choque energético, a disrupção geopolítica, o impacto humanitário, o risco de contágio e os efeitos em cascata”.
"Esta crise já pode ser colocada em terceiro lugar de gravidade, depois da crise financeira de 2008 e do choque da covid-19, mas pior que a crise provocada pela invasão da Ucrânia, pois tem o potencial de um choque energético mais global do que a disrupção provocada pela quebra de exportações de gás da Rússia para a Europa Ocidental”, refere o economista alemão Friedrich Heinemann. James K. Galbraith chama a atenção que para a Europa as contas têm de ser feitas de outro modo. "As consequências muito sérias para a indústria europeia, que perduram há quatro anos, colocam o choque da guerra entre a Rússia e a Ucrânia a par das crises de 2008 e da covid-19, e tornam a Europa muito vulnerável a mais este choque energético em curso”, nota o professor norte-americano.
O consultor Dan Steinbock, a partir da Ásia, vê uma crise tripla à escala mundial, o que considera uma característica "original” do que se está a passar: "Além de uma mistura explosiva de uma crise de energia e de segurança na navegação, de uma combinação de um choque massivo na oferta e de uma crise num dos estreitos mais importantes do mundo (Ormuz), há um efeito acumulado, que se junta às pressões persistentes de uma recuperação global falhada desde 2017, à estagflação pós-covid, até às guerras comerciais e da geopolítica.”
O impacto nos mercados financeiros foi assimétrico. James K.
Galbraith, destacado economista norte-americano da Universidade do Texas, diz ao Expresso que se registaram diferenças entre as Bolsas afetadas negativamente e um pequeno grupo de ganhadores. O impacto mais grave ocorreu na Ásia, com uma perda de mais de 4,8 biliões de dólares (€4,1 biliões), 50% do afundamento global neste período. A Europa e a China ficaram numa zona intermédia de quedas dos índices, e Nova Iorque, onde estão as duas maiores Bolsas do mundo, sofreu um recuo mais baixo nos índices, mas perdeu 2,7 biliões de dólares (€2,3 biliões), em virtude de a New York Stock Exchange e a plataforma Nasdaq, as duas maiores Bolsas do mundo, representarem 44% da capitalização mundial. As perdas em Nova Iorque foram o dobro das registadas em toda a Europa, incluindo a zona euro e o Reino Unido. Em Lisboa, a queda do índice PSI foi de 3,5%, longe da quebra geral de 9% na Europa.
Um punhado de ganhadores
"A Rússia é um dos grandes ganhadores e os EUA são um vencedor em termos líquidos”, refere-nos, por seu lado, Friedrich Heinemann, diretor no instituto alemão ZEW, o Centro de Investigação Económica Europeia, em Mannheim. As praças com ganhos destacam-se no meio da devastação: Tel Aviv, em Israel, com fortes ganhos nas cotadas do sector da defesa e do gás; Oslo, com o sector norueguês ligado ao petróleo em alta; Riade, na Arábia Saudita, fruto da estratégia de desvio de 70% das exportações da Saudi Aramco para o Mar Vermelho; e, finalmente, a Bolsa russa, em rublos, registando ganhos em duas das principais cotadas, a Gazprom e a Rosneft, os dois gigantes energéticos estatais.
No mercado de matérias-primas, as cotações subiram 12% em menos de 30 dias, segundo o índice Rogers, e o sector específico da energia viu os preços disparar 33%. As subidas acima de 50% registaram-se na cotação média do cabaz de crude da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) — onde se incluem os países do Golfo assolados por esta guerra —, que se situou em 89%, no barril russo dos Urais, que registou preços acima de 100 dólares em algumas sessões, e no gás natural de referência na Europa (TTF, negociado em Amesterdão).
O barril de Brent, que é o petróleo de referência na Europa, esteve acima de 100 dólares durante seis sessões este mês, chegando perto de 120 dólares durante a sessão de 9 de março, um máximo desde julho de 2022, aquando do choque inicial da invasão russa do vizinho.
Sinais de estagflação
No mercado de matérias-primas regista-se uma queda de preços nos metais preciosos e industriais. Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, considera essa tendência importante: "A divergência entre cotações da energia em alta e dos metais industriais em queda é típica de cenários de estagflação, com estagnação económica e inflação em alta.” O preço do cobre deslizou cerca de 9% desde 27 de fevereiro. Por outro lado, a cotação do ouro perdeu 13% e a da prata afundou-se 21%. Isto não significa que os metais preciosos foram descartados como "refúgios seguros” em tempo de crise e de guerra, mas que os investidores reorientaram a sua atenção para o dólar e para os juros da dívida pública "refletindo expectativas de inflação mais elevada e de políticas monetárias mais restritivas”, sublinha Monteiro Rosa.
Os juros da dívida alemã no prazo a 10 anos, que serve de referência na zona euro, subiram de 2,6% antes do conflito para perto de 3% agora e poderão chegar a 3,4% no final do ano, segundo o algoritmo do portal World Government Bonds. No caso das obrigações portuguesas, as taxas aumentaram de 3% para perto de 3,4% e poderão atingir perto de 4% em dezembro, um salto de quase um ponto percentual ao longo do ano. Nos EUA, a remuneração dos títulos do Tesouro deverá saltar de 3,95%, antes do início da guerra, para 4,6% no final do ano.
O euro desvalorizou-se face ao dólar, invertendo a trajetória de ganhos. Em relação ao pico cambial de 1,2 dólares por euro no final de janeiro, a depreciação já atingiu 3,2%, o que prejudica as importações faturadas em dólares por parte da União Europeia, em particular as de energia.
PARA O CONSULTOR PETER COHAN, HÁ UMA "CONVERGÊNCIA SEM PRECEDENTES” DE VÁRIOS TIPOS DE IMPACTO DA GUERRA
FRASES
"Especular sobre taxas de juros é mais do que prematuro. Neste momento, temos de manter a cabeça fria”
"A percentagem de portugueses a receber prestações sociais é maior do que nos imigrantes”
Álvaro Santos Pereira Governador do Banco de Portugal
COMO É QUE A GUERRA MEXEU COM AS COTAÇÕES DO PETRÓLEO E DO GÁS NATURAL?
Brent em $ por barril e gás (TTF) em € por MWh
100
96,5
90
O Brent escala até aos 112 dólares, Israel ataca o campo de fechando o dia perto dos 104 dólares,
80 PETRÓLEO | $ BARRIL Ataques a depósitos de combustíveis e o gás na Europa alcança um pico em Teerão provocam grande gás de South Pars e o Irão Tanto o petróleo como o gás voltam retalia destruindo parte de €74, o máximo desde o início da
70 a subir, com os mercados a digerir volatilidade no Brent, que num só guerra, antes de aliviar para os €68,5 dia vai dos $83,7 aos $119,5 dólares, de Ras Laffan, o maior o impacto dos ataques da véspera à terminal de gás do mundo
Menos crescimento e mais inflação em 2026
Banco de Portugal reviu em baixa a previsão do PIB deste ano e antecipa uma taxa de inflação bem mais alta
Depois das tempestades que deixaram para trás um rasto de destruição e com uma guerra que está a pôr os mercados energéticos globais de pantanas, era inevitável: o Banco de Portugal (BdP) reviu em baixa as suas previsões de crescimento económico para este ano e para o próximo. As novas previsões, apresentadas no "Boletim Económico” de primavera, antecipam um aumento de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 e de 1,6% em 2027. Em dezembro, o BdP previa crescimentos de 2,3% e 1,7% para 2026 e 2027, respetivamente. Os 2,3% antecipados também pelo Ministério das Finanças parecem estar definitivamente ameaçados pelas circunstâncias domésticas e internacionais.
"Esta projeção reflete a deterioração do enquadramento externo na sequência do ataque lançado pelos Estados Unidos e Israel ao Irão no final de fevereiro. A subida abrupta e significativa dos preços das matérias-primas energéticas tem um impacto negativo na atividade e positivo na inflação, sobretudo em 2026”, explica o banco no "Boletim Económico”, divulgado na quarta-feira.
Numa altura em que já se fala de um cenário de estagflação — o pior de dois mundos, inflação acelerada e baixo ou nulo crescimento económico —, os decisores de política monetária preferem esperar para ver. O governador do BdP, representante português nas reuniões do Conselho do Banco Central Europeu, não quer especular sobre eventuais cenários.
"Neste momento” a prioridade é "manter a cabeça fria” e "aprender as lições do passado”, estudando as diferenças entre o que acontece hoje” e outros períodos de choque energético e surto inflacionista, como os de 2022 ou de 1970, disse Álvaro Santos Pereira na quarta-feira, na conferência de imprensa de apresentação do "Boletim Económico”.
O BdP reviu ainda em forte alta as previsões para a taxa de inflação portuguesa, medida através do Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), que deverá terminar 2026 com uma média de 2,8%, um aumento de 0,7 pontos percentuais face à previsão de dezembro. Em resposta a um aumento acelerado do custo de vida, o Executivo já declarou estar a estudar "medidas estruturais” de apoio às famílias se o conflito se prolongar. Álvaro Santos Pereira insistiu na necessidade de, num contexto de aumento rápido dos preços, centrar os apoios do Estado nos mais vulneráveis, reivindicação do Banco Central Europeu, focado numa transmissão eficiente das medidas de política monetária. "Em 2022 muito poucos Governos fizeram isso”, argumentou, acrescentando que os Estados aprenderam "algumas lições” nessa altura.
Imigrantes estão cá para trabalhar
A palavra "reforma” e as suas variantes foi uma constante na conferência de imprensa do BdP. Não no contexto da controversa reforma que negociou com Mário Centeno, mas sim de reformas estruturais, às quais o país parece ser "alérgico”, disse o governador. Na conferência de imprensa, Álvaro Santos Pereira salientou reiteradas vezes a necessidade permanente dessas mesmas reformas, tal como a importância da imigração para o crescimento económico português.
Numa análise sobre a imigração em Portugal com dados de 2010 a 2024, com base em dados da Segurança Social, o BdP concluiu "muito claramente” que "os trabalhadores estrangeiros estão cá para trabalhar”, com 86% do tempo de permanência dos trabalhadores estrangeiros em situação de emprego por conta de outrem e 5% como trabalhadores independentes.
Os dados do BdP não são surpreendentes, mas aparecem mais detalhados e enfatizados no "Boletim Económico” e no discurso do governador. "Curiosamente, a nível de subsídio de desemprego e de prestações, a percentagem de portugueses a receber este tipo de prestações é maior do que os imigrantes. Os imigrantes praticamente não recebem pensões e recebem muito pouco subsídio de desemprego”, enfatizou Álvaro Santos Pereira.