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03 março 2026 15h30
Fonte: Expresso

Crise energética pode ser a pior desde 1979 se Ormuz ficar fechado

Expresso

O preço do petróleo de Brent já chegou a mais de 80 dólares esta terça-feira. Há analistas que apontam para cenários acima dos 100 dólares se a guerra contra o Irão se prolongar e se Teerão conseguir manter o estreito de Ormuz bloqueado, por onde não passou nem um navio desde segunda-feira


Jorge Nascimento Rodrigues

Jornalista


Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica


Pode ser o pior choque energético mundial desde a crise petrolífera de 1979, segundo admitiram esta segunda-feira logo na abertura dos mercados na Ásia os analistas Saul Kavonic, da MST Marquee australiana, ao canal CNBC, e Vandana Hari, fundadora da consultora Vanda Insights de Singapura, à Bloomberg. Esta previsão é corroborada por Peter Cohan, professor no Babson College em Boston, em declarações ao Expresso: "Se as projeções para a cotação do Brent chegarem a 120 a 130 dólares por barril, potencialmente este pode ser o pior choque energético desde a década de 70 do século passado”. O site GCaptain, especializado na navegação marítima, avisa os seus leitores, homens do mar, que o estreito de Ormuz se tornou "uma zona de guerra”.


Ironia da história, a crise de há 47 anos, que foi batizada de segundo choque petrolífero, ocorreu por causa da revolução iraniana em 1979 que fez cair o regime do Xá e trouxe o aiatolá Ruhollah Khomeini do exílio em Paris para o poder em Teerão. Agora, esta nova crise está em curso depois de uma operação militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão desencadeada no sábado passado e que já matou o sucessor de Khomeini, o aiatolá Ali Khamenei.


Frase de Trump e novos alvos de drones de Teerão

Os mercados globais foram sacudidos na segunda-feira pela conjugação de uma previsão de Donald Trump e uma mudança inesperada na estratégia de retaliação por parte de Teerão. O presidente norte-americano deu a entender ao The New York Times que a guerra contra o Irão poderá durar "quatro a cinco semanas” e acrescentou inclusive que "está preparado para que dure mais do que isso”. Estamos longe dos doze dias da guerra de julho de 2025 contra o Irão ou da operação cirúrgica norte-americana em Caracas para captura de Nicolás Maduro.


O Irão, por seu lado, colocou como alvos de guerra, para além das bases militares norte-americanas e de todo o território de Israel, aquilo que ninguém esperava. Os drones e mísseis iranianos atacaram, também, os principais hubs da logística aérea da região (como o Dubai, principal aeroporto do mundo em janeiro), os centros financeiros, turísticos e de imobiliário dos vizinhos e alguns pontos-chave do mapa do petróleo e do gás da região bem como petroleiros no estreito de Ormuz. Por esse ‘gargalo’ passam 31% do crude mundial, 20% do gás natural liquefeito, 19% dos fornecimentos de querosene para a aviação, 16% da gasolina e 10% do gasóleo.


Rutura geopolítica

"Os acontecimentos do fim de semana no Médio Oriente representam uma rutura qualitativamente distinta de episódios geopolíticos anteriores. A abertura dos mercados na segunda-feira refletiu imediatamente essa mudança. A discussão deixou de ser direcional e passou a ser de escala do conflito”, disse ao Expresso João Queiroz, responsável pelo trading do Banco Carregosa, que admite que um cenário de disparo do preço do petróleo para mais de 100 dólares por barril "não é um valor atípico, mas um cenário a ser trabalhado”


Ormuz assume um papel especial. Pelo estreito passaram 20 milhões de barris por dia em 2024 e 2025 e, numa jogada de antecipação dos importadores e exportadores, transitaram 21 milhões a 27 de fevereiro e 21,6 milhões no dia do próprio ataque israelo-norte-americano. No dia seguinte, o volume colapsou, caindo para 2,8 milhões de barris, segundo dados da Kpler, uma plataforma especializada no rastreamento em tempo real dos fluxos de petróleo e gás natural. De 72 navios que passaram a 28 de fevereiro pelo estreito, o número caiu para 19 a 1 de março. Segundo a Kpler já não passou nenhum navio na segunda-feira; o estreito está encerrado, de facto. A média num ano normal é de mais de 100 navios por dia.


"Um disparo do preço do petróleo para mais de 100 dólares por barril não é um valor atípico, mas um cenário a ser trabalhado", diz João Queiroz, do Banco Carregosa

Esta quebra abissal representa a maior crise de sempre na região, muito pior do que os efeitos do período da guerra entre o Irão e o Iraque com 500 petroleiros atacados entre 1984 e 1987 ou as sabotagens e capturas de navios em maio, junho e julho de 2019, após Trump, no primeiro mandato, ter imposto sanções a Teerão, intensificando o que chamou de "pressão máxima" após a saída unilateral dos EUA do acordo sobre o nuclear com o Irão de 2015.


Há um engarrafamento de 150 petroleiros e navios-tanque de gás natural liquefeito parados ou ancorados no Estreito de Ormuz e em áreas adjacentes mais uma centena ancorada fora dessa região e catorze parados no Qatar, segundo contas da Reuters. "O risco de disrupção simultânea no Golfo Pérsico e no Mar Vermelho forçaria a desvios das rotas ainda mais prolongados e aumentaria muito mais os tempos e os custos de transporte”, sublinha João Queiroz.


Petróleo que navega pelo estreito de Ormuz

Milhões de barris por dia



Um fator adicional é a subida dos seguros e dos fretes marítimos. "O cancelamento de coberturas de risco de guerra pelo sector segurador está a criar um bloqueio económico de facto, independentemente da capacidade militar no terreno”, acrescenta João Queiroz. Peter Cohan refere que os prémios de risco já duplicaram de 0,25% para 0,5% e que a mudança de trajeto com vista a contornar o Cabo na África do Sul, retomando a velha rota do Índico para o Atlântico criada pelos portugueses, vai aumentar em "10 a 15 dias o tempo da rota e subir os fretes em 25% a 30%”. Alguns analistas apontam para um custo adicional de 1 a 2 milhões de dólares só em combustível neste regresso à rota do Cabo.


Para a Ásia, o problema é ainda mais complexo. É muito insuficiente a capacidade de transporte das alternativas através de oleodutos atravessando a Arábia Saudita até ao Mar Vermelho, ou nos Emirados Árabes Unidos para o porto de Fujairah no Golfo de Omã já no Índico, ou do Iraque até ao terminal de Mu'ajjiz, no Mar Vermelho. A capacidade das três alternativas soma na conta mais otimista apenas 40% do que passa por via marítima em Ormuz.


Maiores subidas de preços de matérias-primas

Variação em % entre 27/02 e 3/03


Preços da energia são os mais vulneráveis

O principal efeito nos preços das matérias-primas fez-se sentir logo na segunda-feira no sector da energia. O preço do gás natural de referência europeia disparou 75% desde 27 de fevereiro, antes do ataque ao Irão, até esta terça-feira. A cotação dos futuros para abril está perto de 56 euros, quando na semana passada fechou abaixo de 32 euros.


O barril de Brent, referência na Europa, chegou perto dos 82 dólares durante a sessão de segunda-feira, um máximo de 14 meses. Esta terça-feira abriu acima de 81 dólares face a 72 dólares no fecho da semana passada. A subida neste período foi de 11%.


O índice Rogers para as commodities energéticas subiu desde o final de fevereiro 8,3%, muito acima da variação global de 3,6%. Alguns produtos agrícolas, como o café e o cacau, registaram subidas entre 3% e 4%, mas o índice Rogers para as matérias-primas agrícolas subiu ligeiramente 0,3%.


Nos metais preciosos, a cotação do ouro subiu 1,7% desde o final de fevereiro, mas a prata, a platina e o paládio tiveram quebras. A disrupção dos voos no Dubai afetou totalmente a exportação diária de ouro para Hong Kong, Índia e Suíça. No entanto, o preço da onça de ouro está em torno de 5300 dólares, longe do máximo acima de 5600 dólares quando Trump anunciou no final de janeiro que estava em andamento para o Golfo Pérsico uma "armada massiva”. O ouro terá atingido os 6000 dólares em negociações dark pool na China durante o fim de semana e os 5500 dólares no mercado de criptomoedas garantidas em ouro, segundo Brien Lundin da Gold Newsletter. As dark pool são plataformas de negociação privada, usadas principalmente por grandes investidores institucionais de forma anónima e sem exposição imediata ao mercado.


As duas regiões que já estão a sofrer o contágio deste conflito no Médio Oriente são a Ásia e a Europa. A China e a Índia surgem destacadas. "A Índia tem apenas duas semanas de reservas de petróleo e está a virar-se de novo para a Rússia, enquanto os refinadores independentes na China deverão fazer o mesmo, tornando a Rússia o maior beneficiário desta crise no Médio Oriente, com o Kremlin a vender o barril dos Urais já acima de 62 dólares, mas com um desconto de mais de 20% em relação ao Brent”, refere Peter Cohan. No final de fevereiro, a cotação do crude russo estava abaixo dos 60 dólares, a linha vermelha imposta pelas sanções ao Kremlin.


A Rússia é o maior beneficiário desta crise no Médio Oriente, com o Kremlin a vender o barril dos Urais já acima de 62 dólares, destaca Peter Cohan

O Qatar "fechou a torneira" da produção de Gás Natural Liquefeito desde domingo após os ataques iranianos com drones atingirem Ras Laffan e Mesaieed e isso lançou pânico imediato no mercado do gás europeu, apesar daquele emirado ser o quinto fornecedor depois dos Estados Unidos, da própria Rússia, da Noruega e da Austrália.


Cenários de crise para a inflação mundial em 2026

Variação de preços global em %



Cenários de crise para a desaceleração mundial

Variação do crescimento económico em 2026 em %



Crescimento mundial pode ser inferior a 3%

Os efeitos potenciais começam a ser contabilizados em vários cenários avançados pela Capital Economics, pela J.P. Morgan, pela Goldman Sachs e pela Morgan Stanley. Tomando como ponto de partida as previsões avançadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em janeiro, o crescimento mundial poderá descer abaixo de 3% este ano, face a uma previsão de 3,3%, e a inflação mundial poderá saltar de 3,8% até quase 5%.


O FMI só atualiza as suas previsões a 13 de abril. Esta terça-feira emitiu um comunicado onde sublinha que "ainda é muito cedo para avaliar o impacto económico na região e na economia global”, acrescentando que "esse impacto dependerá da extensão e da duração do conflito”. Mas admite que "até agora, observaram-se perturbações no comércio e na atividade económica, aumentos acentuados nos preços da energia e volatilidade nos mercados financeiros”.


"A energia persistentemente mais onerosa reintroduz a pressão inflacionista, limita o espaço para mais cortes das taxas de juros pelos bancos centrais e penaliza as margens industriais. A incerteza sobre a duração e extensão do conflito tende a travar as decisões de investimento”, sublinha o especialista do Banco Carregosa. Peter Cohan reforça esta linha de impactos: "O preço do petróleo e o aumento dos fretes vão impactar a inflação, forçando os bancos centrais dos EUA, Reino Unido e Zona Euro a manter uma pausa enquanto os governos vão enfrentar maiores défices orçamentais devido à necessidade de darem subsídios no campo da energia e terem de gastar ainda mais na defesa". "A inflação pode chegar a um novo pico daqui a 12 a 15 meses”, conclui o analista de Boston.

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