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26 março 2026 22h55
Fonte: Expresso

Crise global pode ser pior do que a de 2022

Expresso

Com o conflito no Golfo, Bolsas perderam quase €9 biliões e os preços das matérias-primas subiram 12%.


Em menos de um mês de guerra generalizada no Golfo Pérsico, os mercados de ações já perderam cerca de 10 biliões de dólares (€8,7 biliões), segundo as estimativas do Expresso a partir do valor de capitalização bolsista mundial no final de fevereiro avançado pela The World Federation of Exchanges. O índice mundial MSCI caiu 6% desde 27 de fevereiro, na véspera do ataque dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel ao Irão. Essa quebra em menos de um mês representa já 38% das perdas anuais registadas em 2022, no primeiro ano da crise gerada pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Para o consultor Peter Cohan, esta guerra do Golfo trouxe uma novidade: "uma convergência sem precedentes num único teatro de guerra das seis principais dimensões de impacto de conflitos e eventos, desde a quebra económica, o choque energético, a disrupção geopolítica, o impacto humanitário, o risco de contágio e os efeitos em cascata”.


"Esta crise já pode ser colocada em terceiro lugar de gravidade, depois da crise financeira de 2008 e do choque da covid-19, mas pior que a crise provocada pela invasão da Ucrânia, pois tem o potencial de um choque energético mais global do que a disrupção provocada pela quebra de exportações de gás da Rússia para a Europa Ocidental”, refere o economista alemão Friedrich Heinemann. James K. Galbraith chama a atenção que para a Europa as contas têm de ser feitas de outro modo. "As consequências muito sérias para a indústria europeia, que perduram há quatro anos, colocam o choque da guerra entre a Rússia e a Ucrânia a par das crises de 2008 e da covid-19, e tornam a Europa muito vulnerável a mais este choque energético em curso”, nota o professor norte-americano.


Para o consultor Peter Cohan, há uma "convergência sem precedentes” de vários tipos de impacto da guerra


O consultor Dan Steinbock, a partir da Ásia, vê uma crise tripla à escala mundial, o que considera uma característica "original” do que se está a passar: "Além de uma mistura explosiva de uma crise de energia e de segurança na navegação, de uma combinação de um choque massivo na oferta e de uma crise num dos estreitos mais importantes do mundo (Ormuz), há um efeito acumulado, que se junta às pressões persistentes de uma recuperação global falhada desde 2017, à estagflação pós-covid, até às guerras comerciais e da geopolítica.”


Como é que a guerra mexeu com as cotações do petróleo e do gás natural?

Brent em $ por barril e gás (TTF) em € por MWh

27 fev. | Trump dá ordem para o início da operação Fúria Épica, para atacar o Irão

2 MAR. | Na primeira sessão após o arranque do conflito o petróleo acelera para para 82 dólares, mas fecha o dia nos 77,7 dólares, subindo 7%. Maior foi o disparo do gás na Europa, fechando a segunda-feira a subir 39%.

3 MAR. | Tanto o petróleo como o gás voltam a subir, com os mercados a digerir o impacto dos ataques da véspera à refinaria saudita de Ras Tanura e ao complexo de gás de Ras Laffan, no Catar.

9 MAR. | Ataques a depósitos de combustíveis em Teerão provocam grande volatilidade no Brent, que num só dia vai dos 83,7 aos 119,5 dólares, fechando a sessão em quase 99 dólares.

12 MAR. | O Irão bombardeia dois petroleiros ao largo do Iraque e o Brent fecha a sessão a mais de 100 dólares, o que já não acontecia desde agosto de 2022.

18 MAR. | Israel ataca o campo de gás de South Pars e o Irão retalia destruindo parte de Ras Laffan, o maior terminal de gás do mundo.

19 MAR. | O Brent escala até aos 112 dólares, fechando o dia perto dos 104 dólares, e o gás na Europa alcança um pico de €74, o máximo desde o início da guerra, antes de aliviar para os €68,5.

23 MAR. | Trump anuncia uma suspensão dos ataques ao Irão, com o Brent a aliviar de imediato, afundando-se mais de 10%. Cotação do gás também recua.


O impacto nos mercados financeiros foi assimétrico. James K. Galbraith, destacado economista norte-americano da Universidade do Texas, diz ao Expresso que se registaram diferenças entre as Bolsas afetadas negativamente e um pequeno grupo de ganhadores. O impacto mais grave ocorreu na Ásia, com uma perda de mais de 4,8 biliões de dólares (€4,1 biliões), 50% do afundamento global neste período. A Europa e a China ficaram numa zona intermédia de quedas dos índices, e Nova Iorque, onde estão as duas maiores Bolsas do mundo, sofreu um recuo mais baixo nos índices, mas perdeu 2,7 biliões de dólares (€2,3 biliões), em virtude de a New York Stock Exchange e a plataforma Nasdaq, as duas maiores Bolsas do mundo, representarem 44% da capitalização mundial. As perdas em Nova Iorque foram o dobro das registadas em toda a Europa, incluindo a zona euro e o Reino Unido. Em Lisboa, a queda do índice PSI foi de 3,5%, longe da quebra geral de 9% na Europa.


Um punhado de ganhadores

"A Rússia é um dos grandes ganhadores e os EUA são um vencedor em termos líquidos”, refere-nos, por seu lado, Friedrich Heinemann, diretor no instituto alemão ZEW, o Centro de Investigação Económica Europeia, em Mannheim. As praças com ganhos destacam-se no meio da devastação: Tel Aviv, em Israel, com fortes ganhos nas cotadas do sector da defesa e do gás; Oslo, com o sector norueguês ligado ao petróleo em alta; Riade, na Arábia Saudita, fruto da estratégia de desvio de 70% das exportações da Saudi Aramco para o Mar Vermelho; e, finalmente, a Bolsa russa, em rublos, registando ganhos em duas das principais cotadas, a Gazprom e a Rosneft, os dois gigantes energéticos estatais.


No mercado de matérias-primas, as cotações subiram 12% em menos de 30 dias, segundo o índice Rogers, e o sector específico da energia viu os preços disparar 33%. As subidas acima de 50% registaram-se na cotação média do cabaz de crude da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) — onde se incluem os países do Golfo assolados por esta guerra —, que se situou em 89%, no barril russo dos Urais, que registou preços acima de 100 dólares em algumas sessões, e no gás natural de referência na Europa (TTF, negociado em Amesterdão).


O barril de Brent, que é o petróleo de referência na Europa, já esteve acima de 100 dólares durante sete sessões este mês, chegando perto de 120 dólares durante a sessão de 9 de março, um máximo desde julho de 2022, aquando do choque inicial da invasão russa do vizinho.


Bolsas perdem cerca de 10 biliões

Perdas em biliões de dólares (27/02 a 25/03)

Principais perdedores e ganhadores com a crise do Golfo

Variação do índice bolsista em % (27/02 a 23/03)

Choque energético

Variação do disparo das cotações em % (27/02 a 25/03)

Sinais de estagflação

No mercado de matérias-primas regista-se uma queda de preços nos metais preciosos e industriais. Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, considera essa tendência importante: "A divergência entre cotações da energia em alta e dos metais industriais em queda é típica de cenários de estagflação, com estagnação económica e inflação em alta.” O preço do cobre deslizou cerca de 9% desde 27 de fevereiro. Por outro lado, a cotação do ouro perdeu 13% e a da prata afundou-se 21%. Isto não significa que os metais preciosos foram descartados como "refúgios seguros” em tempo de crise e de guerra, mas que os investidores reorientaram a sua atenção para o dólar e para os juros da dívida pública "refletindo expectativas de inflação mais elevada e de políticas monetárias mais restritivas”, sublinha Monteiro Rosa.


Os juros da dívida alemã no prazo a 10 anos, que serve de referência na zona euro, subiram de 2,6% antes do conflito para perto de 3% agora e poderão chegar a 3,4% no final do ano, segundo o algoritmo do portal World Government Bonds. No caso das obrigações portuguesas, as taxas aumentaram de 3% para perto de 3,4% e poderão atingir perto de 4% em dezembro, um salto de quase um ponto percentual ao longo do ano. Nos EUA, a remuneração dos títulos do Tesouro deverá saltar de 3,95%, antes do início da guerra, para 4,6% no final do ano.


O euro desvalorizou-se face ao dólar, invertendo a trajetória de ganhos. Em relação ao pico cambial de 1,2 dólares por euro no final de janeiro, a depreciação já atingiu 3,2%, o que prejudica as importações faturadas em dólares por parte da União Europeia, em particular as de energia.

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