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20 janeiro 2026 08h20
Fonte: FundsPeople

Da teoria à ação: desafios na implementação da Savings and Investment Union na UE

FundsPeople

A opinião dos participantes da terceira edição do Think Tank BNY Investments quanto à criação de um mercado único de capitais é unânime: trata-se de uma iniciativa muito relevante e que terá um impacto positivo. Como explica Bruno Minoya Perez, diretor de Banca Privada do Banco Carregosa, o objetivo da Diretiva Savings and Investment Union (SIU) é claro: transferir as poupanças, hoje em depósitos a prazo, para os mercados públicos de ações e obrigações para dinamizar os mercados e as economias. "Esta iniciativa segue um pouco a linha do que já havia sido proposto com a Retail Investment Strategy (RIS), sendo mais uma diretiva, mais uma norma”.


Partindo desta visão, Pedro Lobo, diretor de Banca Privada do Bankinter Portugal, reforça a pertinência do projeto ao sublinhar que, do ponto de vista conceptual, a criação deste mercado único de capitais "faz todo o sentido”, especialmente no que se refere à melhor canalização dos investimentos. "Passaremos todos a ter uma oferta mais harmonizada e transversal. Quer através de UCITS (Undertakings for Collective Investment in Transferable Securities), quer através de ELTIF (European Long-Term Investment Funds), os produtos tornar-se-ão mais padronizados”, observa. Considera, de igual modo, que esta evolução será positiva também para a indústria de banca privada: "O mercado ficará mais amplo e, provavelmente, assistiremos a uma deslocação do valor acrescentado, que deixará de estar tanto na estruturação dos produtos e passará a residir mais no aconselhamento”, afirma.


De igual modo, Ana Nobre, diretora de Banca Privada do ABANCA, considera que "a criação de um mercado único de capitais terá, sem dúvida, um impacto significativo”. Na sua opinião, este incentivo à padronização é bem-vindo, principalmente tendo em conta que a zona euro é uma das zonas do mundo com as maiores economias e onde os aforradores possuem um maior volume de riqueza per capita. "Estamos a falar de aumentar a escala e a dimensão do mercado, o que é benéfico para todos nós”, acrescenta.


A convergência de opiniões estende-se ainda a António Luna Vaz, diretor-executivo do Private Wealth do BPI, que classifica esta iniciativa como "inevitável” e "muito saudável”, antecipando um impacto positivo em todas as economias. Contudo, sublinha que existe paralelamente um movimento natural de maior apetite pelo investimento, independentemente dessa pressão, relacionado com as novas gerações e que já está a dinamizar o mercado. "As novas gerações estão a seguir um caminho diferente, são muito mais proativas”, assinala. Além disso, destaca a revolução digital e o acesso massivo à informação, que tornou as pessoas mais informadas e dinâmicas. "Atualmente, o número de pessoas com acesso a informação de elevado nível é impressionante”. Neste contexto, o mentoring e a literacia financeira das novas gerações surge como uma das grandes preocupações para o BPI: "O mundo precisa de jovens a pensar, a trazer dinamismo e, acima de tudo, a agir para fortalecer a nossa economia”, atesta.


As (possíveis) dificuldades de implementação da SIU


Apesar de considerar importante existir uma diretriz clara por parte da União Europeia, que dê continuidade ao que já foi estabelecido com a Retail Investment Strategy, Bruno Minoya Perez não acredita que "a implementação será feita de forma plena e universal”. Na sua opinião, está em causa uma questão de necessidade de preparação e formação dos aforradores, considerando essencial haver literacia financeira que permita às pessoas compreenderem que manter depósitos a prazo implicará uma deterioração do capital ao longo do tempo, não só pelo fator inflação, como pelo custo de oportunidade de melhores rentabilidades que outro tipo de aplicações podem proporcionar.



"Além disso, é preciso que a SIU permita a criação de produtos simples, flexíveis, com incentivos fiscais, para que sejam facilmente entendidos quer por clientes, quer por gestores bancários”, afirma. Neste capítulo, as novas gerações são mais propensas a aplicar as suas poupanças nos mercados de capitais, trazendo algum dinamismo, não visto nas gerações anteriores. Nesse sentido, o Banco Carregosa lançou recentemente a NextGen, um segmento de mercado criado com o objetivo de ajudar as gerações mais jovens a gerirem as suas poupanças e assim planearem o seu futuro.



Essa preocupação com a efetividade da SIU é igualmente partilhada por Pedro Lobo, que se mostra cauteloso quanto à sua implementação: "Não sei se esta transformação representará, de facto, uma mudança significativa, se avançará de forma efetiva, ou se acabaremos por ver apenas mais regulamentação sobre o que já está regulado”, afirma. Neste contexto, lembra que o caminho da regulação tem enfrentado algumas dificuldades. "A RIS (Retail Investment Strategy), por exemplo, tem quase dois anos, passou por várias consultas públicas, gerou inúmeras discussões, mas ainda não foi implementada”, observa. Desta forma, preocupa-o o facto de, apesar de não haver ainda nada em concreto do lado da RIS, já se estar a discutir uma terceira dimensão, no caso a Savings and Investment Union. "A meu ver, falta mais ação e menos teoria. É necessário avançarmos e começarmos a dar passos concretos e práticos”. Reconhece, porém, que "já muita coisa foi concretizada. A MiFID é um bom exemplo: foi uma mudança exigente e transformadora”, afirma.



Na mesma linha de preocupação com a eficácia das medidas, Ana Nobre acredita que este é um dos poucos casos em que as mudanças devem, efetivamente, ser definidas por decreto, de forma transnacional: "Não pode haver interpretações nem veleidades nacionais que se elevem a este desígnio supranacional e europeu”, afirma, alertando que, caso contrário, correremos o risco de afetar áreas muito importantes para a Europa, como o estado social e o segundo pilar. "Este pilar seria fundamental para integrar uma componente de poupança ligada ao aforro, num contexto demográfico desafiante”.



Apesar das reservas partilhadas pelos restantes intervenientes, António Luna Vaz mantém-se positivo: "A muito rápida evolução regulatória que se verificou nos últimos tempos na União Europeia não deve ser visto como um sinal de insucesso. Embora a MiFID II tenha demorado bastante tempo a ser implementada, foi uma medida que contribuiu para tornar o setor mais estruturado e organizado”, afirma.

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