De crise em crise
Nos últimos 10 anos, o salário médio real (depois de descontado os efeitos da inflação) subiu mais de 20%. Não é brilhante, mas é substancial e, principalmente, é sustentado
Como vivemos em permanente crise, falta-nos o distanciamento para perceber o caminho percorrido pela nossa economia desde os tempos da troika. Mesmo eu, que conheço os números e me esforço por ser otimista, ao preparar uma apresentação que fiz aos clientes do Banco Carregosa, em Serralves, na semana passada, fiquei admirado com a nossa performance.
Vale a pena fazer um filme rápido. Desde a adoção do euro, estagnámos. Basta olhar para a evolução dos salários reais. Nem meio por cento ao ano cresceram na primeira década do século e até caíram em 2011 e 2012. Perdemos competitividade, o que se traduziu em contas externas muito desequilibradas. Défices externos constantes vão-se acumulando e traduzem-se em endividamento. O endividamento externo subiu de 20% do PIB em 2000 para valores próximos de 90% em 2010 (chegando quase a bater nos 110% entre 2014 e 2015). A esse problema adicionou-se o da dívida pública, que entre 2000 e 2010 subiu de 54% do PIB para 100%.
Como se percebe, estávamos mesmo a jeito para a crise de dívida que se seguiu à crise financeira. Batemos no fundo há 12 anos. Mais precisamente, e de acordo com o Comité de Datação de Ciclos Económicos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, no primeiro trimestre de 2013.
Não quero chamar milagre ao que se passou desde esse difícil trimestre de 2013, mas parece-me que não temos consciência do muito que fizemos até agora.
Depois de conseguirmos uma balança externa equilibrada em 2012, o ano que se seguiu foi de excedente considerável. Com exceção de um soluço em 2022, os excedentes têm sido uma constante, ao ponto de, em 2024, se ter chegado aos 3,3% do PIB, o nosso maior excedente externo de sempre (ou, pelo menos, desde 1953, os dados a que tenho acesso). Ou seja, é um facto que somos internacionalmente bastante competitivos. Com os excedentes, reduzimos a dívida externa, que, depois de atingir os 109% do PIB no fim de 2014, desceu, 10 anos depois, para 44%.
As contas públicas tiveram uma evolução mais lenta, mas igualmente positiva. Depois dos défices absurdos de 2009 e 2010, fomo-las reequilibrando, conseguindo um excedente em 2019. Essa tendência foi interrompida pela pandemia, mas os excedentes parecem ter vindo para ficar. Tudo indica que 2024, como 2023, seja um ano de excedente orçamental considerável. Já "só” somos o sexto país com a dívida pública mais elevada da União Europeia (ainda razoavelmente longe da Áustria, que está em sétimo). Os bons indicadores macroeconómicos traduzem-se na nossa capacidade de atrair investimento. Depois de valores ridículos no fim da primeira década do século, o investimento direto estrangeiro atingiu valores recorde em 2019, que voltaram a ser superados em 2024. E, se há uma década a nossa dívida pública era classificada como lixo, também a subida do seu rating é notável. A última ocorreu há dias, quando a agência de notação financeira Standard & Poor’s elevou o rating de Portugal de A menos para A.
Vão-me dizer que os portugueses não comem nem indicadores macroeconómicos nem ratings. Mas, se as pessoas não são números, os números são pessoas. A taxa de desemprego, que esteve acima dos 18% no fim de 2012, baixou dos 7% em 2019 e assim se tem mantido. Caiu para 6,2% no início deste ano. Para todos os efeitos, estamos praticamente em pleno emprego.
Tudo isto se traduziu em melhoria de condições de vida dos trabalhadores. Nos últimos 10 anos, o salário médio real (ou seja, já depois de descontado os efeitos da inflação) subiu mais de 20%. Não é brilhante, mas é substancial e, principalmente, é sustentado.
Não é razoável dizer que tudo isto se deve à conjuntura externa. Em março de 2020 tivemos uma pandemia que nos fechou em casa e pôs as economias aos solavancos até meados de 2021. No início de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia e os preços da energia, de muitos cereais e materiais dispararam. Ainda em 2022, a taxa de inflação disparou para valores que estavam esquecidos. Já as taxas de juro subiram a um ritmo inusitado depois de meados de 2022, tendo atingido um pico em setembro de 2023 e só começado a descer em junho de 2024.
O país aguenta mais uma nova crise política? Ai, aguenta, aguenta!, pelo menos se os últimos 10 anos servirem de referência.
Luís Aguiar-Conraria
lfaguiar@eeg.uminho.pt