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09 janeiro 2026 05h20

Defesa europeia a caminho do bilião com ajuda de Trump

Jornal de Negócios

O ataque à Venezuela e as ameaças à soberania de uma série de países estão a dar novo fôlego às ações de defesa, depois de já terem vivido um ano brilhante. 


Gronelândia, Colômbia, Cuba e Irão. Donald Trump, Presidente dos EUA, está a lançar os dados para escolher qual será o seu próximo alvo e os investidores aproveitam o compasso de espera, após a intervenção na Venezuela, para apostarem em força no setor da defesa. Depois de um 2025 de ganhos avultados, as cotadas do ramo militar preparam-se para mais um ano em grande - e, na Europa, caminham para atingir pela primeira vez na história a marca do bilião em capitalização bolsista.


Desde o arranque de 2026, o índice da Bloomberg que agrega 34 empresas do setor já valorizou mais de 13%, atingindo os 863 mil milhões de euros em "market cap”, com uma fatia considerável dos ganhos a acontecerem após a captura do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da sua mulher, Cilia Flores. E se, numa primeira reação, foi o ataque a dar ímpeto às ações, as promessas de uma nova investida - no caso de o atual regime não cooperar com os EUA - e as ameaças à soberania de outros países acabaram por criar o "cocktail” perfeito para o setor voltar a disparar em bolsa.


"Este comportamento do mercado evidencia uma tendência crescente de diversificação por parte dos investidores, que procuram reduzir o risco associado ao excesso de concentração nas grandes empresas tecnológicas norte-americanas, canalizando capital para outros setores e regiões, nomeadamente o setor europeu da defesa”, diz Ricardo Evangelista, CEO da Activtrades Europe.


A alemã Rheinmetall tem sido uma das principais beneficiárias deste reposicionamento, tendo escalado 153% em 2025 e ter conseguido entrar no seleto Euro Stoxx 50. A empresa negoceia agora bastante próxima dos máximos históricos atingidos em outubro, quando foi impulsionada pelas promessas de um reforço do investimento público no setor por parte do Governo germânico.


Entre 2025 e 2030, a Alemanha planeia investir 650 mil milhões de euros em defesa. É o dobro do orçamento dos últimos cinco anos e acontece numa altura em que a maioria dos países da NATO se prepara para aumentar exponencialmente os gastos estritamente militares para 3,5% do PIB até 2035, sob pressão da invasão russa à Ucrânia em 2022 e das ameaças de Trump de cortar o financiamento da aliança caso os seus membros não começassem a dedicar mais recursos ao setor. Os países comprometeram-se ainda a investir 1,5% do PIB em despesas relacionadas com a segurança, nomeadamente em infraestrutura. O mesmo aconteceu com a União Europeia, com o seu programa Rearmar a Europa no valor de 800 mil milhões de euros.


Ainda assim, há dúvidas sobre se as maiores economias da NATO vão mesmo conseguir atingir esse objetivo e se as empresas do ramo da defesa vão conseguir justificar as suas avaliações quase bilionárias quando começarem a apresentar resultados. "As perspetivas continuam a ser positivas, embora sem a mesma força do ano passado, e é provável que se assista a movimentos assimétricos. As empresas de grande dimensão devem conseguir absorver estes investimentos e apresentar logo resultados, mas as mais pequenas vão demorar um pouco mais a reagir”, diz João Queiroz, "head of trading” do Banco Carregosa, ao Negócios.


Trump agita águas de mercados "anestesiados”


No entanto, o comportamento das ações da defesa continua ao sabor dos ventos de Trump. Na quarta-feira, o Presidente dos EUA assinou uma ordem executiva para vetar empresas norte-americanas do ramo da defesa de contratos públicos caso estas não parem de distribuir dividendos e recomprar ações próprias, de forma a privilegiar o investimento em produção e investigação. O anúncio desencadeou perdas avultadas em Wall Street, mas as posteriores promessas de aumento dos gastos com defesa em mais de 50% para 1,5 biliões de dólares em 2027 valeram ganhos ao setor no dia seguinte.


As reações, para já, parecem ser de puro alarmismo, até porque, como explicam os analistas da Bernstein citados pela Bloomberg, "as restrições às empresas de defesa são muito difíceis de aplicar, principalmente porque não há alternativas imediatas para a maioria dos programas importantes”. Um orçamento dessa envergadura "é muito difícil de imaginar. Ainda assim, a tendência de aumentar os gastos é clara. E o escrutínio sobre as empresas será maior”.


Mesmo que Trump consiga aplicar estas condicionantes, João Queiroz considera "improvável” que as empresas europeias beneficiem com o corte de dividendos dos pares norte-americanos. Exclui ainda uma aversão ao risco pelos investidores, mesmo com maiores tensões geopolíticas, muito devido à "almofada monetária” que se está a criar nos EUA (os cortes de juros ajudam) e que deve "anestesiar” movimentos mais bruscos.


"As perspetivas [para o setor] continuam positivas, embora sem a mesma força do ano passado.", JOÃO QUEIROZ, Head of trading do Banco Carregosa

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