Depois do BCE, seguem Fed e Banco do Japão
Os bancos centrais estão cada vez mais hawkish, à medida que uma segunda vaga do choque energético de 2026 se agrava, ditada agora pelas margens de refinação, impulsionadas pelos stocks dos refinados abaixo do normal. A questão já não é saber se vão subir as taxas de juro, mas quantas vezes terão de subir e até onde poderão ir perante uma inflação que poderá acelerar ainda mais, impulsionada pelo forte aumento dos preços da energia, sobretudo dos produtos refinados.
O BCE já subiu os juros duas vezes este ano, ambas em 25 pontos base e nas duas últimas reuniões, colocando a taxa de depósito em 2,50%. A Euribor a 12 meses está nos 3,374%, refletindo a expectativa de novas subidas nos próximos meses, entre três e quatro subidas até ao final do verão do próximo ano.
Seguiu-se, na quarta-feira, a Reserva Federal norte-americana, que subiu a taxa das Fed Funds em 25 pontos base, do intervalo de 3,50%–3,75% para 3,75%–4,00%. Foi a primeira subida dos juros nos EUA desde julho de 2023. O Banco do Japão deverá igualmente subir a taxa de juro em 25 pontos base nesta sexta-feira, de 1% para 1,25%.
O mercado antecipa atualmente taxas de juro da Fed entre os 4,50% e os 4,75% até ao próximo verão (a yield da obrigação do tesouro norteamericano a 2 anos, um bom indicador das expectativas para a taxa de juro da Fed, está atualmente nos 4,61%), uma subida até aos 2% no Japão e quatro subidas do Banco de Inglaterra, dos atuais 3,75% para 4,75%, no mesmo período, ou seja, até ao verão do próximo ano.
Nos EUA, a subida das yields de longo prazo não resulta apenas da inflação. A deterioração das contas públicas, o aumento da dívida e a maior necessidade de financiamento também pressionam os juros. No entanto, a subida recente das taxas reais parece explicar grande parte do movimento. Desde o início de setembro, a yield nominal a 10 anos subiu cerca de 21 pontos base, enquanto a yield real aumentou 18 pontos base. A resiliência da economia norte-americana parece, assim, estar também por detrás da subida dos juros de longo prazo.
O crescimento continua forte, o mercado de trabalho permanece relativamente sólido, marcado por uma taxa de desemprego de 4,1%, bem abaixo dos 4,4% estimados pela Fed em dezembro do ano passado para o final de 2026, e o investimento associado à inteligência artificial continua a sustentar a atividade. Ao mesmo tempo, os elevados défices públicos aumentam a oferta de dívida e pressionam os juros, mas uma política orçamental expansionista também reforça a economia. O GDPNow da Fed de Atlanta estima atualmente um crescimento anualizado de 4,4% do PIB norte-americano no atual terceiro trimestre.
Na Zona Euro, a situação é diferente. A subida recente dos juros tem sido sobretudo impulsionada pelo choque energético, que voltou a acelerar a inflação e obrigou o BCE a tornarse mais hawkish. O crescimento permanece fraco e, ao contrário dos EUA, não parece existir neste momento uma pressão semelhante do lado da procura.
Um dos principais riscos para os bancos centrais está agora nos efeitos de segunda ordem. Na Zona Euro, apesar da aceleração da inflação, os salários ainda não dão sinais de uma nova espiral. Os custos laborais cresceram 3,1% no segundo trimestre, abaixo dos 3,3% anteriores e muito longe dos mais de 5% no pico da crise inflacionista de 2022. O indicador do BCE para os salários negociados aponta para aumentos entre 2,6% e 2,8% até ao primeiro semestre de 2027, ainda abaixo dos 3% que o banco central considera compatíveis com a meta de inflação de 2%. O mesmo sucede no Reino Unido. A inflação subiu para 3,1% em agosto, mas a inflação subjacente manteve-se em 2,6% e a dos serviços em 3,4%. Por enquanto, o choque continua, assim, muito concentrado na energia. O problema é a sua duração. As margens do gasóleo asiático ultrapassaram 87 dólares por barril, face a cerca de 22 dólares antes da guerra, enquanto a Shell e a Equinor alertam que os mecanismos que até agora absorveram parte do choque energético estão a perder eficácia. Quanto mais tempo os preços da energia permanecerem elevados, maior será o risco de transmissão aos restantes preços, salários e expectativas de inflação, obrigando os bancos centrais a apertar ainda mais a política monetária.
Paulo Monteiro Rosa Economista sénior do Banco Carregosa