Desemprego, Bitcoin e os avanços tecnológicos
Tecnologia pode estar já a mudar o mercado do trabalho, com maior produtividade e menos empregos criados. E será que a Bitcoin está ultrapassada?
Nos últimos dois anos há uma divergência invulgar no mercado de trabalho dos Estados Unidos. Historicamente, existia uma relação muito estável entre os pedidos semanais de subsídios de desemprego (jobless claims) e a perceção dos consumidores sobre a facilidade em encontrar emprego, medida pela diferença entre jobsplentiful(empregos abundantes) e jobs hard to get (dificuldade em encontrar trabalho). Quando os norte-americanos entendiam que era mais difícil arranjar emprego, os despedimentos acabavam por aumentar algum tempo depois. Desta vez, porém, essa relação deixou de existir. A perceção dos consumidores, publicada pelo Conference Board, deteriorou-se, mas os jobless claims mantêm-se em níveis baixos, sem sinais de uma vaga de despedimentos.
Estará em curso uma mudança estrutural associada aos avanços tecnológicos e à crescente adoção da inteligência artificial (IA) pelas empresas? Em vez de reduzirem trabalhadores existentes, as empresas poderão estar a diminuir a necessidade de novas contratações. A IA aumenta a produtividade dos trabalhadores mais experientes e reduz a procura por novos, sobretudo jovens no início de carreira. Assim, não há destruição imediata de emprego entre quem já está empregado, mas há menos oportunidades para quem tenta entrar no mercado de trabalho. Surge uma espécie de mercado laboral em "K”, em que os trabalhadores mais velhos sobem, impulsionados pela adoção da IA, enquanto os jovens sem experiência descem. O ajustamento deixa de ser através de ciclos tradicionais de despedimentos e passa a fazer-se pela redução das contratações.
Neste contexto, olhar para a bitcoin (BTC) apenas como ativo financeiro pode ser insuficiente.
A evolução do seu preço tem sido explicada pela liquidez global, pela política monetária e pela forte correlação com o setor tecnológico, nomeadamente o Nasdaq. Todavia, a BTC é também uma tecnologia e, como tal, não está imune a tornar-se obsoleta. Se o mercado de trabalho está a mudar devido aos avanços tecnológicos acelerados, é legítimo questionar se esses mesmos avanços poderão, a prazo, suplantar a infraestrutura tecnológica que sustenta a BTC.
Perante chips cada vez mais próximos da escala atómica e o avanço da computação quântica, poderá a desvalorização de quase 50% da BTC em apenas meio ano estar a antecipar o surgimento de sistemas monetários digitais potencialmente mais eficientes ou mais seguros, capazes de a destronar? Se a BTC quebrar suportes estruturais, como a zona dos 15 mil dólares, poderá o mercado estar a antecipar grandes avanços tecnológicos? Isto não significa que a BTC esteja prestes a desaparecer. Tecnologias dominantes tendem a coexistir durante algum tempo com as suas sucessoras, mas a possibilidade de substituição futura não pode ser descartada. A BTC pode funcionar como um excelente barómetro do ritmo dos avanços tecnológicos.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa