Voltar
09 março 2026 17h40
Fonte: Expresso

Disrupção temporária ou para durar? Na dúvida, G7 negoceia libertação de 300 mil barris das reservas

Expresso

Com o quase encerramento total do estreito de Ormuz desde 1 de março, perto de 200 milhões de barris de petróleo provenientes do Golfo não entraram no mercado. O temor de uma guerra prolongada atirou as cotações do petróleo para perto de 120 dólares esta segunda-feira na abertura da sessão asiática. O G7 resolveu intervir. O Expresso falou com Barry Eichengreen, Peter Cohan, Dan Steinbock, Pedro Amaral, João Queiroz e Luis Mah


Jorge Nascimento Rodrigues

Jornalista


Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica


Iniciou-se ao princípio da tarde desta segunda-feira uma reunião virtual dos sete ministros das Finanças das sete economias desenvolvidas do G7 com o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia. O objetivo político é travar o pânico que se apoderou dos mercados na abertura desta segunda semana de guerra contra o Irão durante a sessão de abertura na Ásia. As cotações do petróleo europeu e norte-americano aproximaram-se de 120 dólares por barril, um máximo que já não se verificava desde junho de 2022 após a invasão russa da Ucrânia.


Desde 1 de março, os analistas estimam que cerca de 200 milhões de barris de crude provenientes dos exportadores do Golfo não entraram no mercado, o equivalente a dois dias de procura mundial. A ‘culpa’ é do bloqueio quase total do estreito de Ormuz por onde passaram detectados apenas nove navios até sexta-feira passada, alguns dos quais com o Sistema de Identificação Automática desligado para ficarem invisíveis ao rastreamento.


O aviso do Catar

O pânico alastrou-se depois de se tornar dominante nos mercados "a percepção de que a Administração Trump está disposta a tolerar preços elevados da energia no curto prazo enquanto o conflito prosseguir”, refere ao Expresso João Queiroz, responsável pelo trading do Banco Carregosa. Instalou-se o temor de que a guerra no Médio Oriente provoque "uma perturbação energética de maior dimensão e leve a uma disrupção prolongada da oferta”, acrescenta o especialista do Banco Carregosa. "A posição dos Estados Unidos sugere que as hostilidades continuarão até que a capacidade militar do Irão seja desmantelada ou o regime capitule. E Israel usará plenamente esta oportunidade para ampliar a sua doutrina de obliteração na região”, acrescenta, por seu lado, Dan Steinbock, fundador da consultora Difference Group sediada na Ásia. Ao ataque israelo-norte-americano somou-se uma retaliação iraniana em todas as direções.


Chris Wright, secretário da Energia dos Estados Unidos, assegurou à CNN que o disparo dos preços é um "prémio do medo temporário”. A Casa Branca insiste que a disrupção é "temporária” e que "no pior dos casos durará semanas, e não meses”.


No final da semana passada, o Qatar já tinha feito um aviso, chama a atenção o consultor Peter Cohan, professor em Boston no Babson College. "Espera-se que todos os produtores de energia do Golfo parem as exportações em poucas semanas e empurrem o preço do petróleo até 150 dólares por barril", disse, em resumo, o Ministro da Energia catari Saad al-Kaabi ao Financial Times. Cohan sublinha que os exportadores do Golfo poderão ter de "ser forçados a declarar força maior, uma cláusula legal que permite aos fornecedores suspender entregas devido a circunstâncias extraordinárias e interromper as exportações em breve, se o conflito continuar". O consultor norte-americano referiu ainda outra consequência que o ministro do Catar destacou: "Mesmo se a guerra terminasse hoje, Al-Kaabi afirmou que levaria ao Catar semanas a meses para restaurar as entregas normais de gás natural liquefeito devido aos danos causados por ataques de drones nas suas instalações. A situação no Estreito de Ormuz é excepcionalmente difícil de resolver. O transporte comercial essencialmente parou. Mesmo que os EUA disponibilizem escoltas navais, Al-Kaabi observou explicitamente que levar navios civis ao estreito agora é simplesmente muito perigoso”.


Exportadores do Golfo poderão ter de ser forçados a declarar força maior, uma cláusula legal que permite aos fornecedores suspender entregas devido a circunstâncias extraordinárias e interromper as exportações em breve, se o conflito continuar", diz Peter Cohan



"Ninguém sabe ao certo quanto vai durar esta guerra. Agora que os mercados de futuros que apostam nos mais variados eventos estão na moda, o Polymarket diz que só a partir de 30 de maio é que a maioria [dos apostadores] acredita num cessar fogo”, refere-nos Pedro Amaral, académico português a trabalhar na Universidade da Califórnia perto de Los Angeles.


A par da paralisação da exportação em virtude do alto risco de passar o estreito de Ormuz, onde na semana passada foram atacados dez navios e mortos sete tripulantes, os ataques cruzados a infraestruturas energéticas e cortes de produção voluntários por parte de produtores do Golfo completaram o cenário de pânico. A situação mais grave afeta o Catar, que procedeu a uma suspensão parcial de processamento (polímeros, metanol e alumínio) após ataques e paralisou temporariamente a produção de gás natural.


G7 discute injeção de 300 a 400 milhões de barris

Face à perda de 200 milhões de barris em apenas dez dias, o G7 discute com Fatih Birol, diretor-geral da Agência Internacional de Energia (AIE), a injeção no mercado, de um modo coordenado, de 300 a 400 milhões de barris de crude retirados das reservas estratégicas. As reservas estratégicas de petróleo mantidas pelos 31 países membros da AIE somam 1,2 mil milhões de barris, o equivalente a cerca de 90 dias de importações líquidas globais em condições normais.


Uma perda de 200 milhões de barris em apenas dez dias já igualou as perdas na crise do canal do Suez entre outubro de 1956 e abril do ano seguinte e está muito acima das perdas mensais registadas durante a guerra entre o Irão e o Iraque com os ataques a mais de 500 navios concentrados em 80% no Golfo Pérsico entre 1980 e 1988.


Dan Steinbock admite que "o choque desta guerra do Irão pode ser diferente no impacto potencial, que poderá revelar-se ainda pior quanto mais as hostilidades se prolongarem”, se comparado com as crises gémeas de 1974 e 1979, o choque de 2008 e o de 2022.


A perspetiva da intervenção do G7 e da AIE levou a uma desaceleração do disparo nas cotações do crude. Na abertura da sessão europeia desta segunda-feira, o preço do Brent já tinha descido para menos de 107 dólares e o da variedade norte-americana para 104 dólares. Entretanto, a variedade norte-americana já desceu abaixo de 100 dólares.


A operação da AIE em 2022, aquando do choque energético provocado pela agressão russa à Ucrânia, disponibilizou 240 milhões de barris em diversas etapas. Os Estados Unidos contribuíram com 180 milhões de barris e o resto dos membros da AIE injetou 60 milhões.


O impacto da crise não se reflete apenas no petróleo desde 27 de fevereiro. O preço do gasóleo no mercado londrino liderou as subidas com um disparo de 57%, mais do que o aumento da cotação do barril norte-americano (55%). O preço do gasóleo de aquecimento disparou 54% tanto como o barril dos Urais e mais do que o aumento da cotação do barril de Brent (47%). A cotação da ureia subiu 25%, da amónia 23% e do enxofre 16%. Estas três últimas matérias-primas são exportações importantes da Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Irão e Omã.


"A dependência de matérias-primas para fertilizantes é importante. O Médio Oriente tem uma grande peso de exportações de matérias primas de fertilizantes. Os EUA, por exemplo, têm uma indústria agrícola e pecuária de grande dimensão e importam 40% dos fosfatos da Arábia Saudita e 35% de nitrogénio do Catar”, refere-nos Pedro Amaral, um economista português, professor no Departamento de Economia da Universidade do Estado da Califórnia em Fullerton, perto de Los Angeles.


Essa é uma via de pressão que pode afetar politicamente o presidente Trump. "Os preços da comida são uma arma política muito forte e, se começarem a subir também, começa a subir a pressão para que Trump ponha fim ao conflito”, diz o académico português. Um dos preços sensíveis é o dos ovos, que duplicou - o preço da dúzia subiu trinta e sete cêntimos de dólar desde 27 de fevereiro, um aumento de 100%. Trump considerou o custo dos ovos como símbolo do controlo da inflação.


"Os EUA têm uma indústria agrícola e pecuária de grande dimensão e importam 40% dos fosfatos da Arábia Saudita e 35% de nitrogénio do Catar. Os preços da comida são uma arma política muito forte e, se começarem a subir também, começa a subir a pressão para que Trump ponha fim ao conflito”, sublinha Pedro Amaral



Quem já está a beneficiar com esta crise?

"Todos perdem no longo prazo, mas, no curto prazo, a história é diferente. Os principais beneficiários da disrupção no estreito de Ormuz são alguns outros exportadores como a Rússia, os Estados Unidos e, possivelmente, o Turquemenistão, o Cazaquistão e a Austrália, que podem fornecer clientes sem depender dos estreitos do Médio Oriente, através de oleodutos e de outras rotas marítimas”, sublinha Dan Steinbock.


O economista e historiador norte-americano Barry Eichengreen, professor na Universidade da Califórnia em Berkeley, junta a esse grupo de ganhadores "os produtores da África do Norte, como a Líbia e a Argélia, e os exportadores da América Latina, como o Brasil e a Guiana”.


O preço do barril de referência norte-americano liderou as subidas desde 27 de fevereiro até hoje, com um aumento de 55% na cotação, seguido do barril dos Urais russo, cujo preço subiu 54%. O barril russo saltou de menos de 60 dólares antes de 27 de fevereiro para cerca de 91 dólares esta segunda-feira. Este aumento de mais de 30 dólares permitiu ao Kremlin encaixar mais 170 milhões de dólares por dia, sobretudo através dos seus dois principais clientes, a China e a Índia.


Bolsas da Ásia fortemente abaladas

O índice global MSCI para a Ásia-Pacífico caiu esta segunda-feira 3,6%, a terceira maior queda diária desde 27 de fevereiro. As praças do Vietname, da Coreia do Sul e do Japão registaram quebras acima de 5%.


A Ásia é, por agora, o continente mais sensível ao que se passa no Golfo. Japão e Coreia do Sul registam uma forte dependência das importações de ouro negro do Médio Oriente: 95% e 70% respetivamente. Dan Steinbock chama a atenção para o facto de que os países fortemente integrados na grande estratégia chinesa regional de cadeias de produção, como o Vietname, a Malásia e a Tailândia, "enfrentam agora novos riscos e custos de operação mais altos”. A guerra do Irão "coloca também uma ameaça para a China, pois Beijing importa 90% do crude iraniano e 50% das suas importações de matérias-primas energéticas vêm do Médio Oriente”, refere-nos Steinbock.


Mas Luís Mah, professor no ISCTE em Lisboa, acha que há repercussões diferentes nas duas grandes economias da Ásia: "O aumento do preço do petróleo poderá ter um impacto menos negativo na China do que poderia acontecer em anos anteriores. O país tem vindo estrategicamente a acumular fortes reservas de petróleo (suficientes para três a quatro meses), a reduzir a sua dependência de petróleo transportado por via marítima e a diversificar as suas fontes energéticas, nomeadamente as renováveis. Pelo contrário, a Índia continua a ser uma economia fortemente dependente de importação de combustíveis fósseis e por isso poderá ser seriamente afetada. Talvez se assista à reversão da decisão de reduzir as compras à Rússia por pressão dos EUA porque o governo de Modi vai querer manter o atual momentum de rápido crescimento económico do país”.


A Europa abriu no vermelho com Budapeste e Viena de Áustria a cair mais de 2%. Lisboa regista uma descida de menos de 1%, tal como Milão, Varsóvia e Londres.


Nos Estados Unidos, a abertura foi também no vermelho, com o Dow Jones a destacar-se nas quedas, com uma descida de mais de 1%.


A praça ganhadora na Europa é Moscovo com os dois índices - em rublos e dólares - a subirem 1,3%.


No Médio Oriente, a bolsa de Tel-Aviv cai 3% e a de Riade, a mais importante da região, perde 1,6%.


Luís Mah está convencido de que este conflito vai trazer duas consequências em relação ao panorama energético: "Parece-me que a consequência mais interessante deste conflito será a aceleração da descarbonização das economias no Sul Global (incluindo as integrantes dos BRICS) e na Europa. Será - como tem sido - um processo difícil e complexo, mas a segurança energética é agora, sem dúvida, uma questão de segurança nacional”. O director do Mestrado de Estudos de Desenvolvimento no ISCTE, aponta o futuro inevitável para os BRICS (grupo que reúne 11 países, entre os quais Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) vulneráveis aos problemas energéticos e para a Europa: "Diversificação de fontes energéticas e maior autonomia energética são e serão cada vez mais prioritários".




A consequência mais interessante deste conflito será a aceleração da descarbonização das economias no Sul Global (incluindo as integrantes dos BRICS) e na Europa, diz Luís Mah




"A China poderá beneficiar não só como fornecedora de tecnologias e materiais mais acessíveis para se fazer essa transição económica, mas também como investidora em produção local, principalmente em países do Sul Global”, conclui Luís Mah.


Partilhe este artigo