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05 agosto 2025 06h00

Dólar deve cair no médio e longo prazo mas inflação pode “desencadear movimento significativo” na relação com euro

Jornal Económico

Desde o início do ano, a moeda norte-americana já caiu mais de 11% face ao euro. Os próximos dados económicos vindos da UE e EUA serão determinantes no comportamento das duas moedas, defendem os analistas consultados pelo JE.


Na semana passada, o euro teve uma queda que chegou a atingir os 2,8% face ao dólar, na sequência do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos (EUA), alcançado a 27 de julho, que estabeleceu uma tarifa de 15% aos produtos europeus .


Apesar das boas novas para o lado norte-americano, os analistas consultados pelo Jornal Económico (JE) antecipam que se pode assistir a um prolongamento do enfraquecimento do dólar. A curto prazo pode trazer volatilidade no par cambial euro/dólar. A divulgação de dados como os da inflação, que devem ser conhecidos a meio de agosto, tem o potencial de desencadear um "novo movimento significativo” na relação cambial entre dólar/euro, revelam os analistas.


Ao JE, o analista da XTB, Henrique Tomé, defende que a médio e longo prazo pode existir um "prolongamento do enfraquecimento” do dólar devido a uma combinação de vários fatores macroeconómicos e monetários.


"Apesar das fortes quedas [já caiu 11% face ao dólar desde o início do ano], o dólar permanece próximo dos máximos de 2021. No entanto, o aumento da probabilidade de cortes nas taxas de juro por parte da Reserva Federal norte-americana (Fed) deverá intensificar a pressão de baixa sobre a moeda”, afirma o analista da XTB, Henrique Tomé, ao JE.


Este analista diz ainda que a evolução das yields do tesouro a dois e 10 anos "reforçam” essa perspetiva de queda do dólar, face ao euro, e também sinaliza uma "expectativa de flexibilização monetária que reduz a atratividade” do dólar no curto prazo. "Este movimento nas yields também funciona como um barómetro das expetativas do mercado em relação à política da Fed”, adianta o analista da XTB.


Outros fatores têm também mexido com a relação entre o euro e o dólar. Henrique Tomé assinala que as projeções da FOMC [comité constituído pelos elementos da Fed], conhecidas na semana passada, que apontavam para apenas um corte nas taxas de juro, este ano, "sustentaram uma recuperação do dólar”, principalmente face ao euro. Mas os dados do mercado laboral, que "ficaram abaixo das previsões”, diz o analista da XTB, fizeram com que houvesse "uma inversão rápida” desse sentimento de subida do dólar face ao euro.


"As expectativas passaram de um corte para três cortes até ao final do ano, desencadeando uma forte correção, um verdadeiro sell-off , na moeda americana”, explica Henrique Tomé.


Investidores a recuperar alguma confiança no euro


O CEO da ActivTrades, Ricardo Evangelista, assinala que para além das expetativas de corte de juros pela Fed, em setembro, os dados do mercado laboral e do setor industrial dos Estados Unidos, conhecidos na semana passada, provocaram uma "forte desvalorização” do dólar, que acabou por "reverter uma parte significativa das perdas sofridas” pelo euro ao longo da semana [passada].


"Perante este novo enquadramento, os investidores parecem ter recuperado alguma confiança na moeda única, com os 1,15 dólares a emergirem como um nível de suporte face à divisa norte-americana”, diz Ricardo Evangelista.


O economista sénior do Banco Carregosa, Paulo Monteiro Rosa, assinala também que o relatório do emprego dos Estados Unidos, de julho, "alterou significativamente” a perceção do mercado relativamente à força do dólar, a que se juntou também a queda na confiança industrial dos empresários nos Estados Unidos.


Face a este cenário, Paulo Monteiro Rosa sublinha que a "reação imediata foi uma desvalorização acentuada” do dólar face ao euro, motivada por estas "leituras negativas” sobre a economia dos Estados Unidos e pelas "implicações potenciais” para a política monetária da Reserva Federal norte-americana.


"Um mercado de trabalho mais fraco e um sentimento empresarial no setor industrial mais fraco poderá acelerar a especulação sobre cortes de taxas de juro, reduzindo a atratividade do dólar junto dos investidores internacionais”, salienta o economista.


Inflação pode desencadear "movimento significativo” entre as duas moedas


Face a estes fatores, Paulo Monteiro Rosa salientou que a "continuação da tendência de valorização” do dólar desde o anúncio das tarifas a 27 de julho "fica agora em dúvida”. Para o economista do Banco Carregosa caso se confirmem, nos próximos meses, "novos sinais de fragilidade económica” nos Estados Unidos, essa tendência [de valorização do dólar] "poderá ser travada ou mesmo revertida”. Mas se os próximos indicadores mostrarem recuperação, a valorização do dólar "poderá retomar”.


Este cenário faz com que a curto prazo o par euro/dólar "mantenha-se particularmente sensível” à divulgação de novos dados económicos, em especial nos Estados Unidos.


Num cenário em que os próximos indicadores norte-americanos "confirmem sinais de fragilidade”, explica Paulo Monteiro Rosa, deve aumentar a probabilidade de cortes das taxas de juro” por parte da Fed, algo que no entender do economista pode "sustentar uma recuperação” do euro.


"Também a divulgação de dados robustos na Zona Euro tenderá a contribuir para a valorização do euro face ao dólar. Pelo contrário, indicadores mais sólidos nos Estados Unidos poderão devolver força ao dólar e a limitar qualquer recuperação do euro. No imediato, é expectável alguma volatilidade, com oscilações em função de cada novo dado relevante”, alerta Paulo Monteiro Rosa.


O CEO da ActivTrades, Ricardo Evangelista, refere que os mercados interpretaram o acordo comercial entre UE e EUA, a 27 de julho, como uma vitória para a administração Trump.


Ricardo Evangelista diz que o acordo "favorece mais os interesses norte-americanos” de uma "forma evidente” e também "cria novos ventos contrários” para a economia da zona euro.


Contudo Ricardo Evangelista alerta que os dados da inflação norte-americana, referente ao mês de julho, que devem ser conhecidos a meio de agosto, deve ser um "indicador-chave” que poderá clarificar as perspetivas quanto à política monetária da Fed e desencadear um "novo movimento significativo” na relação cambial entre as duas moedas.