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21 março 2025 07h15

Dólar e mercados acionistas recuperam

Dólar e mercados acionistas recuperam

Fecho da bolsa: Depois das fortes perdas das semanas anteriores, o dólar e os principais índices dos EUA recuperam. O DAX alemão volta a registar máximos.


É cada vez mais evidente que o enfraquecimento do dólar – desde o início de fevereiro face ao euro, ao longo dos últimos três anos em relação ao ouro, e, de forma mais ampla, desde o início dos anos 2000 – não se deve apenas a fatores cíclicos, mas também a questões estruturais e sistémicas que podem torná-lo um fenómeno persistente. A economia dos EUA enfrenta sinais de alerta, e muitos países procuram alternativas para reduzir a dependência da mesma e do dólar, sobretudo num cenário de crescente imprevisibilidade política e perante a errática política comercial da administração Trump.


No final de 2024, após a vitória eleitoral de Donald Trump, o dólar registava uma tendência de valorização, face a expectativas de crescimento económico robusto. No entanto, em 2025, a realidade inverteu-se e o dólar começou a desvalorizar acentuadamente, contrariando as previsões de muitos analistas. Uma das razões pode estar na visão da administração. Alguns conselheiros económicos defendem um dólar mais fraco e até sugeriram uma nova versão do Plaza Accord de 1985, que forçou Japão e Alemanha a valorizar as suas moedas face ao dólar. O suposto acordo Mar-a-Lago, em discussão, teria o mesmo objetivo. O foco do governo norte-americano na competitividade da indústria nacional não é compatível com um dólar forte.


Os dados também apontam para o enfraquecimento da economia dos EUA. O GDPNow da Reserva Federal de Atlanta evidencia crescimento negativo no primeiro trimestre, enquanto índices de confiança empresarial e do consumidor recuam. Além disso, há uma crescente preocupação com a inflação, com a última pesquisa da Universidade de Michigan a indicar uma expectativa de inflação a cinco anos de 3,9%, o valor mais alto dos últimos 30 anos. Se a tendência inflacionista persistir, a situação pode tornar-se mais problemática. Alguns analistas desvalorizam este indicador e argumentam que mudanças metodológicas na pesquisa podem estar a distorcer resultados. No entanto, o aumento, combinado com tarifas protecionistas, pode pressionar a inflação e afetar a competitividade dos EUA.


A nível internacional, muitos países, sobretudo na Europa e a China, já se estão a adaptar para reduzirem a dependência dos EUA. Com o comportamento imprevisível da administração Trump, estas economias procuram alternativas ao dólar e diversificar as suas reservas, optando na maioria dos casos pela compra de ouro, impulsionando a cotação. O que parece estar em causa não é apenas um ajuste cíclico do dólar, mas sim uma mudança mais profunda. Se as políticas protecionistas de Trump persistirem e agravarem a inflação, o valor de equilíbrio do dólar poderá continuar a cair. Além disso, no longo prazo, a força do dólar tem estado intimamente ligada ao poder global dos EUA como garante da segurança internacional e líder das instituições multilaterais criadas após a Segunda Guerra Mundial. Se os EUA abdicarem desse papel, outros países terão de se reorganizar para garantir a sua segurança e estabilidade económica. Esse processo pode acelerar o declínio do domínio do dólar, que, depois de décadas como moeda de referência global, poderá começar a perder a sua supremacia.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior no Banco Carregosa

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