Dólar em queda livre, tal como deseja o ‘Mar-a-Lago’ de Trump
Desde 13 de janeiro, o Dollar Index — que mede a força do dólar face a um cabaz de seis moedas majors, no qual o euro pesa quase 60% — caiu quase 13%, atingindo mínimos desde o final de 2021. Esta depreciação alimenta a ideia de que, embora o "Acordo de Mar-a-Lago” tenha deixado de ser mencionado oficialmente, o mercado está a agir como se ele estivesse em curso.
Inspirado no acordo de Bretton Woods de 1944, mas com uma lógica invertida, o plano de Trump ("Acordo de Mar-a-Lago”), alicerçado nas ideias de Stephen Miran e de Scott Bessent, pretenderia reorganizar a ordem monetária internacional, não para consolidar a força do dólar, mas para o enfraquecer estrategicamente. Ao contrário do modelo multilateral e estável de Bretton Woods, com uma paridade fixa ao ouro (35 dólares a onça), o "Mar-a-Lago” seria unilateral, centrado exclusivamente nos interesses económicos dos EUA e assente em dois pilares: a desvalorização controlada do dólar, sobretudo face a moedas asiáticas consideradas fracas artificialmente, e a manutenção da compra de dívida pública americana por bancos centrais estrangeiros, para evitar uma subida abrupta das taxas de juro provocada pela queda do dólar. As ferramentas propostas incluem tarifas, para proteger a indústria nacional americana e gerar receita, e a criação de um fundo soberano, que compraria moedas estrangeiras como o euro, o iene e o yuan para intervir nos mercados e pressionar o dólar em baixa.
No entanto, a expectativa de que bancos centrais estrangeiros continuariam a adquirir dívida pública americana ignora as significativas transformações geopolíticas e financeiras nos últimos anos. A China, que ao longo das últimas décadas acumulou reservas substanciais em dólares e títulos do tesouro dos EUA, tem vindo a reduzir gradualmente essa exposição, substituindo parte dessas reservas por ouro físico. Esta mudança reflete uma estratégia deliberada do Banco Popular da China (PBoC), ditada sobretudo por receios quanto à segurança das suas reservas financeiras, após o congelamento das reservas russas pelo Ocidente em 2022.
Para países não alinhados com o Ocidente, como a China, a lição tem sido evidente: ativos denominados em dólares podem ser usados como instrumentos geopolíticos, com potencial para comprometer interesses estratégicos, como a reunificação chinesa com Taiwan. Por isso, na perspetiva destes países, é preferível um afastamento gradual do dólar, mas não repentino. No caso da China, uma saída abrupta levaria a uma valorização excessiva do yuan, algo que Pequim procura evitar a todo o custo. O ouro, pelo contrário, é um ativo físico, fora do controlo de qualquer banco central ou jurisdição nacional.
Quando Trump afirma que "os estrangeiros pagarão”, é mais para consumo interno do seu eleitorado. Na realidade, essa narrativa gera desconfiança entre credores internacionais e acelera a procura por alternativas ao dólar. Países como a China, a Arábia Saudita e a Índia têm vindo a reforçar reservas em ouro, a celebrar acordos bilaterais nas suas próprias moedas e a reduzir gradualmente a dependência do dólar no comércio externo.
Os EUA, no passado, conseguiram desvalorizar o dólar com base em cooperação internacional, como aconteceu com o Acordo do Plaza em 1985.
Todavia, nessa altura o mundo era muito mais unipolar. Hoje, essa realidade já não se verifica. A confiança no dólar está a ser corroída por dentro — devido ao desequilíbrio orçamental crónico dos EUA — e por fora — com a deslocação do centro de gravidade económico para outras regiões, em particular para o círculo de Valeriepieris.
Nos últimos anos, cresce a substituição das reservas cambiais em dólares por acordos de swap cambial entre bancos centrais, especialmente na Ásia. Estes swaps permitem que dois países troquem as suas moedas locais diretamente, garantindo liquidez para o comércio bilateral sem necessidade de recorrer ao dólar como intermediário, reduzindo a dependência à moeda americana, diminuindo, assim, a exposição a sanções financeiras dos EUA e permitindo maior soberania monetária. À medida que estes acordos se multiplicam, a procura global por dólares e títulos do tesouro americano tende a diminuir, um sinal pouco favorável para o dólar a médio e longo prazo. Tratase de uma mudança estrutural no sistema financeiro internacional, com implicações profundas para o papel futuro do dólar como principal moeda de reserva global.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa