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19 maio 2026 07h05
Fonte: Sapo

Dos preços dos combustíveis à economia. Saiba onde a crise energética já se faz sentir

Sapo

Numa altura em que se contam quase dois meses desde o início da guerra no Irão, alguns dos principais receios face à crise energética, relacionados com a escassez de combustíveis, ainda não se verificaram, mas há várias consequências que já são reais e pesam nas economias.


O economista sénior do Banco Carregosa, Paulo Rosa, além de apontar a subida relevante nos preços dos combustíveis fósseis e a volatilidade destes preços como as consequências mais imediatas, acrescenta que a pressão nos preços "acaba por repercutir-se nos custos energéticos de países importadores de hidrocarbonetos, como Portugal, com impacto nos combustíveis, inflação e atividade económica”. Saiba quais os principais impactos desta crise energética que já se fazem sentir.


Os preços do petróleo, dos seus derivados e do gás natural dispararam em março. Em maio, apesar de se notar algum alívio em parte dos combustíveis fósseis, os níveis continuam elevados.


O contrato de gás natural que é referência para a Europa, o holandês Title Transfer Facility, disparou mais de 80%, em termos acumulados, no primeiro trimestre deste ano. Março contribuiu com uma subida de quase 60%. Já em abril, registou-se um algum alívio, mas apenas na ordem dos 9%, ao qual se segue, novamente, uma tendência de valorização em maio. A 14 de maio, a subida dos preços do gás natural, face aos preços em vigor no dia antes de a guerra ter início, era de praticamente 50%.


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Os preços do petróleo dispararam mais de 63% em março, tendo subido a máximos de junho de 2022, o ano da última crise energética que assolou a Europa. No acumulado de abril registou-se um ligeiro alívio, de 3,67%. Agora, em maio, mantém-se a tendência decrescente, mas longe de compensar a subida sentida no terceiro mês do ano.


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Apesar de a trajetória ascendente nos preços do petróleo preocupar, esta pressão não tem sido o único efeito da guerra no Irão. "A principal consequência continua a ser a forte volatilidade nos mercados internacionais da energia, sobretudo no petróleo e no gás natural”, afirma Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa. Abaixo, pode ver a evolução de um índice que mede a volatilidade dos preços do petróleo. Esta já não era tão elevada desde os tempos da pandemia de covid-19, embora se encontre, para já, mais controlada.


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Olhando aos dados da Direção Geral de Energia e Geologia, em Portugal, na sexta-feira 27 de fevereiro, o dia antes de os Estados Unidos iniciarem a guerra com o Irão, o gasóleo simples marcava, em média, 1,599 euros por litro, a nível nacional, e o preço do litro da gasolina situava-se nos 1,684 euros. No final de março, o gasóleo quebrou a barreira dos 2 euros, e chegou a atingir os 2,14 euros. A 15 de maio, o gasóleo marcava os 1,96 euros, e a gasolina 1,976 euros. Assim, o gasóleo, em maio, estava 22,3% acima do preço médio que exibia antes da guerra. No caso da gasolina, a diferença é de 17%.


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A tendência de subida é europeia. De acordo com os últimos dados do Eurostat, março veio marcar uma inversão na tendência de alívio nos preços dos combustíveis para transporte pessoal, a que se vivia até fevereiro deste ano.


No terceiro mês do ano, os preços aumentaram 19,8 % para o gasóleo e 9,4% para a gasolina, em comparação com março de 2025. Os preços dos dois tipos de combustível aumentaram em todos os países da UE entre fevereiro e março de 2026. No caso do gasóleo, os aumentos mais elevados registaram-se na Chéquia e na Suécia, ambos com subidas de 27,6 %. Na gasolina, o país mais ‘castigado’ foi a Bélgica, com uma subida de 15%. Em Portugal, de acordo com o Eurostat, a subida foi de 17,4% no diesel e 8,1% na gasolina.


A subida do preço dos combustíveis tem vindo a penalizar a aviação mundial. Depois de a guerra ter forçado o encerramento temporário de importantes hubs de ligação internacional como Dubai, Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos) e Doha (Qatar), as companhias aéreas começaram a cancelar voos devido ao aumento do preço do jet fuel. O ECO contava, no final de abril, 20 companhias áreas que já tinham cancelado voos.


O combustível mais caro também se reflete num aumento do preço das passagens aéreas, uma vez que o jet fuel representa entre 25% e 30% dos custos operacionais de uma companhia aérea. "Só pode ter impacto no preço final”, afirma Miguel Quintas, presidente da Associação Nacional de Agências de Viagem, ao ECO.


Olhando ao futuro, o economista sénior do Banco Carregosa alerta que "quanto mais prolongada for a instabilidade, maior tenderá a ser a pressão sobre os mercados internacionais de petróleo e gás natural, com impactos relevantes nos preços da energia, nos custos de produção e no abastecimento energético mundial”.


Também Ugne Keliauskaite, investigadora do think tank Bruegel, sublinha: "os preços do petróleo estão atualmente elevados, mas se a situação se agravar ainda mais, poderá materializar-se uma verdadeira escassez e os preços poderão aumentar substancialmente”, e adianta um aviso: "As nossas políticas devem ter em conta estes cenários, para que não esgotemos as nossas reservas orçamentais e energéticas antes de sabermos como a situação irá terminar". Keliauskaite é critica do uso de limites máximos de preços para os combustíveis fósseis e benefícios fiscais, "que são dispendiosos, não direcionados e que, na verdade, amplificam a escassez”.


No total, os governos de 14 países europeus destinaram até à data mais de 11 mil milhões de euros em medidas fiscais para atenuar os impactos da guerra entre os EUA e o Irão nas faturas de energia, escreve o Bruegel, que tem vindo a monitorizar as medidas implementadas.


> Os governos de 14 países europeus destinaram até à data mais de 11 mil milhões de euros em medidas fiscais para atenuar os impactos da guerra.


O think thank deteta que Espanha e Alemanha são os países europeus que, "de longe”, mais gastaram nestes termos, sendo que Espanha é responsável por mais de metade do volume total de apoios europeus. Em percentagem do PIB, Espanha, Bulgária, Grécia e Irlanda são os mais "gastadores”.


Espanha avançou com cerca de 5 mil milhões em apoios, enquanto Portugal se ficou pelos 450 milhões, contabiliza o Bruegel.


Mais do que o valor absoluto, o Bruegel critica a forma como está a ser aplicado. Até ao momento, mais de 72% do montante total (8,3 mil milhões de euros) corresponde a medidas não direcionadas, tais como reduções gerais no IVA ou nos impostos especiais de consumo sobre a energia. Portugal, contudo, aparece como tendo aplicado apenas medidas direcionadas.


> "Muitos países continuam a utilizar instrumentos como limites de preços dos combustíveis fósseis e benefícios fiscais, que são dispendiosos, não direcionados e que, na realidade, agravam a escassez.”


Dos 11 mil milhões, 4,5 mil milhões destinaram-se, diretamente a apoiar combustíveis fósseis, sendo que outros 6,6 mil milhões foram despendidos em medidas que dizem respeito, em simultâneo, a estes combustíveis e à eletricidade. "Uma redução direcionada dos impostos sobre a eletricidade poderia, de facto, acelerar a eletrificação, ao tornar as bombas de calor e os veículos elétricos relativamente mais atrativos”, defende Keliauskaite.


A curto prazo, identifica a investigadora, o principal risco é que os governos acabem a competir entre si em termos dos apoios que concedem, e esgotem as suas reservas orçamentais e energéticas "antes de se conhecer a verdadeira dimensão da crise”. A médio prazo, a utilização contínua de subsídios abrangentes e não direcionados corre o risco de abrandar a transição estrutural para os veículos elétricos e bombas de calor. No longo prazo, termina, o risco é que se verifique uma crise futura que encontre a Europa com as mesmas vulnerabilidades estruturais, mas com uma margem de manobra orçamental significativamente menor para dar resposta.


A última estimativa rápida do Eurostat, que apresenta dados preliminares relativos a abril de 2026, indica que a inflação na Zona Euro neste mês deverá cifrar-se em 3%, com a energia a mostrar a subida mais expressiva, de 10,9%. Já em março, o primeiro mês após a guerra no Irão iniciar, a inflação nos itens energéticos registou uma subida homóloga de 5,1%.


> A inflação da Zona Euro e de Portugal ronda os 3% em abril, impulsionada por subidas a dois dígitos no que diz respeito aos produtos energéticos.


A 30 de abril, quando foi conhecida a estimativa rápida, Peter Vanden Houte, economista do ING, antevia numa nota de research que "os preços da energia provavelmente vão continuar elevados nos próximos meses” e "a contribuição desses preços para a inflação geral deverá aumentar ainda mais”.


Em Portugal, o Instituto Nacional de Estatística já revelou que a taxa de inflação homóloga de abril foi revista em baixa, de 3,4% para 3,3%, ainda assim uma aceleração de seis décimas face a março. A variação do índice relativo aos produtos energéticos, que contribui para o valor final da inflação, aumentou para 11,7%, quando tinha ficado nos 5,7% no mês anterior. "Tal como verificado no mês anterior, a aceleração do IPC é maioritariamente explicada pelo aumento do preço dos combustíveis”, explicou, na altura, o INE.


Uma vez que o Banco Central Europeu (BCE) tem como meta que a inflação se situe pelos 2%, patamar que já foi ultrapassado e que pode ficar ainda mais para trás nos próximos meses, a crise energética pode chegar às taxas de juro diretoras, que influenciam, por exemplo, os créditos à habitação.


"Preços no consumidor mais elevados na Zona Euro obrigam o BCE a subir as taxas de juro, penalizando igualmente os portugueses com crédito à habitação”, alerta Paulo Rosa.


> "Preços no consumidor mais elevados na Zona Euro obrigam o BCE a subir as taxas de juro, penalizando igualmente os portugueses com crédito à habitação.”


Uma subida das taxas de juro diretoras poderá verificar-se já na próxima reunião dos responsáveis do banco central, afirma o economista do Banco Carregosa. A Bloomberg, de momento, regista uma probabilidade de 85% de se verificar uma subida de 25 pontos base nas taxas diretoras, no encontro de junho. Isto penaliza famílias, em particular aquelas famílias que têm crédito à habitação, e empresas mais endividadas, conclui Paulo Rosa.


"Desde o início do conflito no Médio Oriente, pagámos mais 35 mil milhões de euros pela nossa energia do que o habitual. Não recebemos mais energia – zero -, mas pagámos mais 35 mil milhões”, contabilizou o Comissário Europeu da Energia, Dan Jorgensen, esta quarta-feira, no final de uma reunião do Conselho da União Europeia, no Chipre.


> As importações de energia para a União Europeia custaram mais 35 mil milhões de euros do que teriam custado caso não se verificassem os impactos da guerra no Irão.


Em Portugal, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, os combustíveis e lubrificantes representaram 16,2% do défice da balança comercial de bens no passado mês de março, que compara com os 15,2% em fevereiro de 2026. Estes dados marcam um agravamento no peso destes produtos na balança comercial, no primeiro mês de guerra no Irão, no qual o saldo da balança foi negativo em 2,86 mil milhões de euros. Excluindo estes produtos, o défice da balança seria de 2,4 mil milhões de euros. Contudo, em março do ano passado, o peso era muito superior: 20,5%.


O economista-chefe da AllianzGI, Christian Schulz, escreve no recente relatório "House View Update” que "dois meses após o início do conflito no Irão, continuamos a observar uma perspetiva económica global resiliente", mas que se mantém válido que a guerra está a elevar a inflação e a travar o crescimento. "A prolongada interrupção do tráfego através do Estreito de Ormuz exige revisões da perspetiva económica", entende.


No primeiro trimestre de 2026, o produto interno bruto (PIB) aumentou 0,1% na Zona Euro e 0,2% na UE, face ao trimestre anterior, de acordo com uma estimativa rápida publicada pelo Eurostat, no passado 13 de maio. No quarto trimestre de 2025, o PIB tinha aumentado 0,2% em ambas as zonas.


Numa comparação homóloga, face ao mesmo trimestre do ano anterior, o PIB aumentou 0,8% na Zona Euro e 1% na UE no primeiro trimestre de 2026. Estes saltos são mais pequenos do que aqueles sentidos no trimestre que fechou 2025, no qual se registou uma subida de 1,3% na Zona Euro e de 1,4% na UE no trimestre anterior.


> O produto interno bruto (PIB) aumentou 0,1% na zona euro e 0,2% na UE, abaixo da evolução no trimestre anterior. Em Portugal, também se regista um abrandamento, entre os dois trimestres.


O PIB português, no primeiro trimestre de 2026, registou uma variação trimestral nula, depois de ter crescido 0,9% no último trimestre de 2025. Portugal só compara melhor face a quatro países da UE, ao ficar acima da Lituânia, que registou um crescimento negativo de 0,4%, da Suécia (-0,2%), Roménia (-0,2%) e Irlanda (-0,2%).


Apesar disso, em termos homólogos, Portugal continua entre as economias europeias com maior crescimento. Face ao primeiro trimestre de 2025, o PIB português aumentou 2,3%, acima da média da Zona Euro, que ficou em 0,8%, e da média da União Europeia, de 1%.

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