Voltar
23 maio 2025 05h45

Downgrade ignorado — mercado focado nas tarifas

Downgrade ignorado — mercado focado nas tarifas

Em 16 de maio, a Moody’s retirou aos EUA a notação máxima de crédito (Aaa), sendo a última das três principais agências de rating a fazê-lo, depois da S&P em 2011 e da Fitch em 2023. Esta decisão, motivada pelo gradual aumento da dívida pública e dos encargos com juros, marca o fim de mais de um século em que os EUA beneficiaram da classificação de crédito máxima junto das três principais agências internacionais. Apesar do downgrade, os mercados financeiros reagiram com relativa indiferença. Na segunda-feira, o S&P 500 iniciou a sessão com uma queda de cerca de 1%, mas rapidamente recuperou, encerrando o dia em máximos desde o início de março.


Nos mercados obrigacionistas, o rendimento das obrigações do Tesouro dos EUA a 30 anos atingiu os 5,02% — o nível mais elevado desde outubro de 2023 — mas recuou, ainda no mesmo dia, para 4,95%, valor idêntico ao da quinta-feira anterior, 15 de maio. Já o rendimento dos títulos a 10 anos chegou aos 4,55%, ainda longe dos 4,80% de meados de fevereiro. O foco dos investidores está, na verdade, centrado nas negociações em curso sobre o orçamento e, sobretudo, nas tarifas comerciais, bem como nos seus impactos tanto na economia como nas contas públicas, atualmente em revisão pela administração Trump. Estes dois fatores terão um impacto direto nos défices públicos e na dinâmica dos mercados financeiros (equilíbrio entre os cortes de impostos e o aumento de tarifas).


As tarifas elevam custos e pressionam a inflação, afetando o consumo e os lucros das empresas mais dependentes de importações. Além disso, aumentam o risco de retaliação externa e incertezas nas cadeias globais, mas aumentam a receita fiscal, influenciando o défice. Mais um sinal de que o foco dos investidores está nas tarifas é o facto de os mercados continuarem a subir, mesmo com Powell a adotar, nas últimas semanas, um tom mais hawkish e a expressar receios de estagflação.


Se as tarifas subirem ligeiramente e os cortes de impostos forem pouco expressivos, o défice poderá cair de forma limitada. O impacto económico dependerá das medidas. Tarifas seletivas, fora de setores estratégicos como tecnologia, eletrónica ou retalho, terão efeito limitado nos lucros e uma reação neutra ou ligeiramente negativa dos mercados. Já tarifas sobre setores sensíveis podem reduzir margens de lucro, penalizar ações e enfraquecer o dólar. Assim, mais importante do que o efeito líquido das medidas no défice é o seu conteúdo — que setores são afetados, quem paga mais ou menos impostos e onde se concentram os gastos ou as tarifas.


A economia dos EUA tem sido relativamente suportada, sobretudo nos últimos anos, pelos défices orçamentais. Durante a pandemia (2020–2021), pacotes massivos de estímulo fiscal — incluindo cheques às famílias, subsídios e apoios às empresas — evitaram uma recessão prolongada, mas levaram o défice a ultrapassar os 14% do PIB. Nos anos seguintes, mesmo com inflação elevada — que, em teoria, ajudaria a reduzir o défice orçamental em percentagem do PIB, ao fazer crescer o valor nominal da economia —, os gastos públicos mantiveram-se em níveis elevados, sustentando o investimento público, a defesa e os programas sociais. Ainda assim, o défice agravou-se de forma significativa, o que revela a intensidade da política fiscal adotada. A partir de 2022, medidas como a Lei das Infraestruturas, a CHIPS Act e o Inflation Reduction Act (IRA) reforçaram esse impulso, incentivando o investimento privado e a criação de emprego.


Se os défices forem reduzidos abruptamente, sem compensação do setor privado via consumo ou investimento, o crescimento pode desacelerar consideravelmente. Apesar de insustentáveis no longo prazo, os défices orçamentais têm sido essenciais para a resiliência económica dos EUA no curto e médio prazo. Uma contração fiscal mal calibrada pode retirar esse suporte e agravar o abrandamento económico. Se os cortes de impostos aumentarem os défices mais do que as tarifas os compensam, o impacto imediato tende a ser positivo para o crescimento, para as ações e para o dólar, mas negativo para as obrigações do Tesouro norte-americanas, devido ao aumento das emissões e ao risco de fuga de capitais estrangeiros — um cenário comparável ao "momento Liz Truss” no Reino Unido, em outubro de 2022.


Segundo estimativas do CBO (Congressional Budget Office), os défices dos EUA deverão manter-se perto dos 6% do PIB na próxima década. O Laboratório de Orçamento de Yale estima que, se todas as tarifas impostas em 2025 forem tornadas permanentes, o governo poderá arrecadar entre 2,3 e 2,5 biliões de dólares ao longo de dez anos, já considerando efeitos dinâmicos — ou seja, o impacto económico que as tarifas têm sobre consumo, investimento e cadeias de fornecimento. No entanto, os cortes orçamentais em discussão no Congresso poderão adicionar mais de 5 biliões à dívida no mesmo período, segundo o Comité para um Orçamento Federal Responsável (Committee for a Responsible Federal Budget, CRFB). A trajetória mais provável continua, por isso, a ser de agravamento gradual do endividamento público americano.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa


Partilhe este artigo